Peixe Grande e suas Maravilhosas Histórias...com Bond!

Somos o que somos. Com uma abertura magnífica cheia de imagens psicodélicas que parecem respirar metáforas existenciais do famoso personagem título, “007 – Skyfall”, gera altas expectativas antes mesmo do filme começar. É adrenalina do começo ao fim, perseguições automobilísticas, cenas espetaculares, resumindo: um prato cheio para quem gosta de filmes de espionagem! Com a missão de tornar esse novo filme um dos melhores da franquia, Sam Mendes foi escalado para comandar a festa, fato que acontece, com louvor!

Na trama, acompanhamos logo no início uma missão que não dá certo e onde ‘M’ precisa tomar uma decisão que influencia sua lealdade perante à Bond. Mas quando um passado escondido da chefe da agência vem à tona, o agente 007 precisa se entender com  ‘M’ e combater um vilão excêntrico, especialista em computação. Com várias cenas marcantes, tobogãs em escada rolante e uma trilha muito boa assinada pelo craque Thomas Newman, “007 – Skyfall” tem um dos desfechos mais marcantes da história do agente secreto inglês.

Panela velha é quem faz comida boa? A reciclagem na sua profissão dá um olá ao admirável novo mundo. James Bond é um homem que gosta de fazer as coisas pelo modo antigo mas será que seu tempo não passou? O Highlander britânico quando forçado a resgatar suas memórias percebe que precisa se atualizar mas sempre com charme e elegância, seduzindo lindas mulheres, portando as mais específicas armas e com seu velho rádio de transmissão, Bond volta mais forte, pronto para enfrentar um sarcástico vilão que também esconde um passado.

Não há muitas novidades nas bases que sustentam à trama. A maneira eletrizante e marcante que se apresentam os fatos é que faz a diferença. O filme empolga, é uma volta às origens com muita elegância e inteligência. O clima de suspense insiste em não fugir da telona, O Dom Juan do mundo da espionagem usa e abusa dos seus truques , agora ajudado por um novo e  inteligente ‘Q’. Voltar ao passado faz bem, até mesmo para um certo Highlander da terra da rainha.

Em uma Londres chuvosa, com desfiles nostálgicos de modelos de carros clássicos, esse novo filme 007, como sempre (ao longo da franquia que completa 50 anos), conta com um elenco repleto de atores britânicos. Mais uma vez na pele do protagonista criado por Ian Fleming, Daniel Craig cada filme que passa fica mais confortável na pele de James Bond, mais uma boa atuação de bom ator. O peixe grande Albert Finney se encaixa muito bem na história, sendo um elo com o passado escondido de Bond. Ralph Fiennes, não entrando em muitos detalhes que podem gerar spoilers é uma grande aquisição para a franquia. Judi Dench, sempre fantástica, faz a famosa ‘M.’ e tem papel importante nesse novo filme do agente secreto mais famoso do cinema. Mas, quem rouba a cena não é um inglês. Sempre com uma entrada dramática, às vezes sarcástico, às vezes misterioso, Javier Bardem faz mais um vilão de maneira espetacular. Bravo! Um dos grandes atores de sua geração, sem dúvidas!

007 – Skyfall” estreia dia 26 de outubro em muitas salas por todo o Brasil. Você merece conferir esse filmaço! Bem perto da nota 10!

Crítica do filme: '007- Skyfall'

Cinema vira missão fotográfica no Rio de Janeiro


A força da amizade, um mundo sem amigos em um universo muito particular.

Dirigido e roteirizado por Stephen Chbosky, “As Vantagens de ser Invisível” tinha tudo para ser mais uma historinha sobre adolescentes e muita bobagem. Engana-se quem pensou isso. Dessa vez, os cinéfilos foram brindados com uma fita muito verdadeira sobre as experiências de jovens em busca de descobertas e realizações. Tem cenas cativantes e canções que marcaram outras gerações. É uma visão madura e divertida sobre a adolescência, seus mistérios e suas surpresas. A busca pelo infinito vai de baladas românticas até uma homenagem à “The Rocky Horror Picture Show”, esse último uma das grandes passagens do longa.

Na trama conhecemos Charlie (o personagem mais complexo do ano, até agora no mundo do cinema), um rapaz pacato e solitário que sofre por não ter amigos. Com o início do ano letivo ele tem mais uma chance de conseguir aumentar seu número de amizades (que basicamente se restringe a seus irmãos). Após algumas situações constrangedoras e o início de uma amizade com seu professor de literatura, Charlie conhece Patrick (Ezra Miller) e Sam (a ex- Hermione, Emma Watson), um casal de meio irmãos que fazem parteda turma dos descolados. Logo, Charlie se sente muito bem aceito por esses novos amigos e assim uma grande amizade vai nascendo .  Quando achamos que a história é só essa, paralelos em analogias dramáticas mostram passados tristes, cheios de revelações escondidas restando apenas o poder da amizade contra todas essas coisas tristes do mundo.

Existem vários momentos em que você sabe que a história vai te comover. Isso é muito positivo, pois se você perder um desses momentos, logo um outro chega e te leva pra dentro dessa ótima trama. O filme tem um encapamento retrô, recheado de fitas cacetes, bailinhos estudantis e clássicos musicais rolando solto, nas mais descoladas vitrolas de um, não tão distante, tempo. Os flertes, o mundo adolescente, tudo é muito bem captado pelas belas sequencias do diretor.

Em relação à atuações, precisamos falar sobre Patrick. Ezra Miller (que em trabalhos passados fez o público ficar aterrorizado com um de seus personagens) dá um show. Merece ser lembrado pelas premiações futuras, excepcional atuação, tudo que ele faz dá certo. Excelente visão desse ótimo personagem. É o grande ponto da trama, sem dúvidas.

Quando chega a hora certa, as vantagens de ser invisível aparece, levando o público a animados minutos na frente da telona. Caro amigo, não deixe de conferir! Viva o cinema! Viva a juventude!


Crítica do filme: 'As Vantagens de ser Invisível'


Eram pouco mais de 19:00 horas, no primeiro domingo do Festival do Rio de Cinema de 2011 (na época o filme em questão ainda era intitulado como “O Levante”). Vestindo uma camisa roxa e com um discurso emocionado, o diretor Raphael Aguinaga comove a plateia antes do filme começar. Suas palavras interagem tão bem que torcíamos para que o longa tivesse ao menos metade daquela qualidade. Após a sessão, a certeza dessa produção Argentina, com pitadas brasileiras, ser a grande surpresa do festival não restava dúvidas.

Na trama, acompanhamos um grupo de idosos (vivendo a tempos isolados em um asilo) que ficam sabendo que a Igreja Católica clonou Jesus, ao mesmo tempo, em que é substituída a enfermeira que cuida deles. Assim a história avança em cinco partes: Uma Notícia Espetacular, Um Acontecimento Desafortunado, A Terceira Casa de Marte, Operação Voo da Águia e O Apocalipse. Cada uma dessas partes se torna um intrigante quebra cabeça, passando pelo amor (ao melhor estilo Hermano) até a possibilidade de redescoberta dentro de uma notícia espetacular.

O filme é muito rico em detalhes e aos poucos vamos sendo apresentados aos simpáticos protagonistas. Dolores, uma das simpáticas personagens é sensacional, dominando as partes cômicas da trama. O dia-a-dia de um lar para terceira idade é mostrada de forma inteligente, original e muito engraçada. Os contornos na vida dos idosos são feitos com muitas conversas, que rendem ótimos diálogos durante a produção. A divisão em subtítulos ao decorrer da trama melhora a percepção do espectador para com a história. Ambientado na argentina, “Juan e a Bailarina” é basicamente Hermano, porém com muitos toques brasileiros. O longa tem cenas emblemáticas, como: a do tango, muito bem conduzida pela câmera inquieta de Aguinaga.

Um sentido à vida é a busca constante, às vezes inconsciente, desses cidadãos abandonados que se sustentam na amizade. A empolgação do público é a prova da incrível simpatia que o longa transpira da telona até poltrona mais próxima. Certamente agradará muitos cinéfilos.  A mensagem que filme de Raphael Aguinaga deixa é a de que sempre brotará uma esperança dentro de nós. Se emocione, divirta-se e surpreende-se! “Juan e a Bailarina” é garantia de qualidade! Fuja dos vampiros, veja filmes com elegância! 

Crítica do filme: 'Juan e a Bailarina'


(Foto: reprodução)
O flato dorminhoco da moça que tem um namorado sem noção

As atividades que nem sempre geram tensão. Depois do imenso sucesso do primeiro filme da franquia “Atividade Paranormal” o público aguardou ansiosamente todas as continuações com a maior das expectativas. Nessa próxima sexta-feira, 18 de outubro, estreia o quarto filme da saga paranormal. Não há nada de muito novo: mudanças de ângulos que deixam o público com novas perspectivas, sustos, levitações e impactos sobre paredes.  O espectador se sente, permanentemente, como um porteiro, olhando as câmeras de segurança dos prédios.

Na trama, conhecemos uma família que vive feliz em uma casa grande, situada em um bairro de classe média alta nos EUA. A filha do casal, que tem um namorado sem noção, é a primeira que começa a perceber que estranhos acontecimentos ocorrem sempre de madrugada na sua casa. Um clima de suspense, às vezes bem evidente, tenta surpreender o espectador. Reflexos especiais na luz, tentam criar a tensão. Porém, tudo desaba pelo roteiro bem fraco o que acabou levando a todos ao desapontamento.

Por já conhecer a ‘estrutura de tensão’, o público fica esperando tomar um susto a cada nova sequência, fato que ocorre em apenas alguns poucos momentos. O grande ponto negativo do filme dirigido pela dupla Henry Joost, Ariel Schulman, é o humor que domina o ambiente. O longa tem momentos engraçados, o que descaracterizam totalmente o clima de suspense/tensão que deveria ter, deixando o público confuso com essa troca de sensações.

A fita parece que vai melhorar mas não consegue fugir de sua rota previsível, lembra um lançamento recente chamado “Chernobyl”. Caminhos de brinquedos, um gato esquisito correndo para todos os lados e flatulências à parte “Atividade Paranormal 4” levará ao cinema um público que adora filmes desse gênero mesmo que esses possam sair do cinema bem desapontados no pouco mais de 90 minutos de fita. 

Crítica do filme: 'Atividade Paranormal 4'



A saga de Highlander Bane contra o vilão sem sobrancelhas

Na época de Al Capone e de muitos outros nomes famosos do crime conhecemos uma história de irmandade e muito sangue de uma família, estamos falando do excelente “Os Infratores”. Dirigido pelo australiano John Hillcoat (que comandou o ótimo “A Estrada”) somos guiados até o início da década de 30, entre uma dose e outra, há muita ação e aventura, baseada na obra de Matt Bondurant. Com atuações excelentes, de um elenco estelar, esse filme tem tudo para ser um dos mais elogiados desse ano.

Na trama, conhecemos a história dos irmãos Bondurant (Jack, Forrest e Howard) que vivem do contrabando de bebidas, nos primórdios da década de 30. Os negócios iam bem até que um novo chefe local coloca um assistente nos pés dessa corajosa família. Na terra dos valentões e à bordo de um carro que bebe muito álcool essa família irá enfrentar um grande desafio para manter os negócios.Em meio a tiros e muito sangue jorrando na tela temos algumas histórias de amor, uma bastante carnal, outra romântica (com ar jovial). A animada trilha sonora preenche com louvor todas as lacunas que precisam ser completadas. A contextualização é fácil e direta, levando o público facilmente para dentro daquele universo, méritos do roteiro (adaptado) de Nick Cave.

Cada um dos ótimos atores efetivamente dá sua contribuição à fita. Guy Pearce consegue ser um ótimo vilão com seu personagem sem sobrancelha, o trejeito estranho e a ironia são muito bem evidenciados pelo ator inglês. Gary Oldman e suas aparições relâmpagos ajudam a dar certa continuidade à trama. Tom Hardy está espetacular na pele do homem que acreditava na própria lenda, acertou em cheio na composição de seu personagem, nome certo no próximo Oscar. No papel do irmão mais novo (aquele que faz muitas besteiras durante toda a fita) poderiam ter sido escolhidos muitos atores, o selecionado foi o Shia LeBeouf, que faz o famoso feijão com arroz e não compromete no papel.

Bebidas em compotas, testículos em sacos rosa, preparem-se para tudo quando forem ver essa grande história nos cinemas. Dá pra rir, se emocionar e torcer muito para os personagens que exalam simpatia. Com todos esses ingredientes é uma grande infração cinéfila você não conferir esse filme na sala de cinema mais próxima!

Crítica do filme: 'Os Infratores'



 A iminência da previsibilidade em um filme mais brega que o Falcão

   O tempo e o dinheiro fazem as pessoas mudarem? As cenas forçadas logo em seu início já indicavam dor de cabeça aos amantes da sétima arte. Dirigido por Roberto Santucci, “Até que a Sorte nos Separe” é a mais nova comédia pastelão nacional. Sem entrar em detalhes muito à fundo, existem atuações terríveis que derrubam qualquer pretensão de boas críticas. O filme é tão brega que só faltava a trilha sonora ser feita pelo Falcão.

   Na trama, conhecemos o simpático Tino (interpretado pelo humorista Leandro Hassum) um milionário que gosta do Mickey, tem medo do boneco Chuck e ganhou na loteria muitos milhões de reais. Levando uma vida de seus sonhos mora junto com a mulher (viciada em aplicações estéticas) e os dois filhos em um imenso casarão num bairro chique. Certo dia, após ter diversos cartões de crédito recusados Tino vai saber o que houve, o personagem cai na real após uma conversa com o homem que cuida de suas finanças e percebe que conseguiu a proeza de gastar todo o dinheiro que ganhou. Para tentar consertar a situação começa a controlar os seus gastos e os de sua família.

   Leandro Hassum consegue entreter a platéia, tira completamente a atenção de outros personagens. Mas se for para ver um stand up comedy é melhor pagar o ingresso no teatro para ver o Hassum. Nas partes com o mínimo de cenas mais sérias o filme naufraga mais rápido que o Titanic. A melhor parte da fita é quando toca algo parecido com o tema do clássico “Flashdance”, mas nesse caso o desejo cinéfilo é de correr para casa e ver o filme de Adrian Lyne.

   Poderia ter explorado melhor a questão do consumismo, o gasta tudo com dinheiro vai da mulher gato aos toques do ‘zainer’. A esposa com 28 cirurgias plásticas passa batida pela fraca trama. O vizinho de Tino, um viciado em gráficos e análises estatísticas que sopra camisinhas furadas e foge da mulher que quer ter mais filhos parece não se encaixar em momento algum dentro da história. Resumindo, os coadjuvantes deveriam ter tido papel mas preponderante na história.

   Tem dias que você precisa rir, ou só quer mesmo se divertir no cinema. A fita gera   gargalhadas do público principalmente pelo ‘Stand up comedy’ do Leandro Hassum. Mas falta muito chão para chegarem em altos patamares em relação à qualidade cinematográfica.

Crítica do filme: 'Até que a Sorte nos Separe'


O Jovem voyeur e sua tara por buracos da fechadura de corpos femininos, de uma classe média francesa

Baseado na obra de Juan Mayorga, “Dentro de Casa”, é uma fita inteligente com uma visão privilegiado sobre a vida alheia. Com uma introdução pedagógica, o espectador é levado a uma história muito próxima, como se olhasse pelo buraco da fechadura, que vai de críticas sociais até reflexões de grandes autores como Tchekhov, Dickens e Flaubert. O grande achado do roteiro é elevar a qualidade da discussão em busca de um conflito para alimentar sua história, partindo do princípio que uma vida sem história na vale de nada.

Na trama conhecemos Claude (papel de Ernst Umhauer), um menino incomum de 16 anos que durante um exercício em sala de aula resolve começar a contar uma história de suas idas e vindas da casa de um amigo de classe e o seu contido desejo que sente pela mãe desse menino. O único que lê a história é o seu professor (que de quebra mostra tudo para mulher, uma elegante gerente de galeria de arte ) que faz de tudo para que ele não pare de contar essa história. O professor de literatura fica fascinado pelo esforço e escrita do brilhante aluno e resolve ajudá-lo a não parar de escrever aquela história. É um ato obsessivo desse acadêmico que tem sua vida bastante modificada ao longo da trama. Esse personagem se desconstrói brilhantemente pelas lentes do sempre excelente diretor.

Todos vão virando personagens na história de Claude. Os ditadores em forma de bonecas infláveis, o corpo de classe média, as peculiares discussões entre o casal sobre o comportamento irônico (pelo menos no papel, do jovem estudante) são elementos detalhadamente aproveitados pelo filme. A relação aluno x professor vai se formando de maneira inusitada levando-os a uma série de consequências. O filme tenta manter esse ritmo (com sucesso) do começo ao fim. O professor (interpretado pelo excelente Fabrice Luchini) se envolve tanto que o público volta a se perguntar de quem é mesmo aquela história.

Quando quadros e literatura se encontram, um olhar sobre a vida alheia ganha contornos dramáticos. A agradável fita francesa gerou simpáticos aplausos após uma de suas sessão no último Festival do Rio de cinema. Será que olhar pelo buraco da fechadura, remontar histórias é sempre uma grande diversão? Não deixem de conferir esse ótimo trabalho de François Ozon.

Crítica do filme: 'Dentro de Casa'


O rabugento canhoto avesso à tecnologia que luta pelo Don Quixote de cada dia


Em seu primeiro longa metragem, o cineasta Jake Schreier leva para a telona uma história futurística que tenta prender a atenção do público pela relação entre um senhor rabugento e um robô, estamos falando do novo “Robot and Frank”. A falta de ritmo atrapalha a condução da fita. O público percebe e não consegue ficar entretido com tudo o que vê em cena. É apenas um filme quase mediano com uma ótima atuação.

Na trama, em um futuro próximo, conhecemos Frank (Frank Langella) um ladrão aposentado que mora sozinho em uma casa, um pouco afastado do centro da cidade. Um dos últimos homens da velha guarda, em um mundo recheado de ações tecnológicas, Frank mantém uma relação fria e distante com seus dois únicos filhos (interpretados pelos atores James Marsden e Liv Tyler). Certo dia, um de seus filhos resolve fazer uma visita e traz consigo um robô de última geração para ajudar o pai nas tarefas de casa e em qualquer outra coisa que ele precisar. A desconfiança inicial logo vira laço de amizade, que é fortemente estabelecido, tornando o robô um grande parceiro de Frank, até mesmo parceiro de crime.

As reflexões do personagem principal tentam criar um certo vínculo com o espectador. A atuação de Langella é belíssima. Divorciado a 30 anos, Frank é um homem de outro tempo que sofre de problemas de memória (talvez Mal de Alzheimer) e de uma profunda depressão ranzinza. Altamente rabugento, só o vemos feliz (a princípio) quando vai até a biblioteca da cidade onde mora. A tecnologia nova: carros, meios de comunicação, modernização da biblioteca e outras, mexem muito com a vida que Frank gostava de levar. O personagem é o único que consegue se transformar ao longo dos 90 minutos de fita e chamar a atenção do espectador de alguma maneira.

Mesmo com uma excelente atuação, o filme, que é uma mistura de “A.I – Inteligência Artifical” e “Como se Fosse a Primeira Vez” ), não consegue se sustentar. Personagens vem e vão mas não adicionam nada à trama. A única coadjuvante que poderia ajudar a melhorar a história, a bibliotecária (papel de Susan Sarandon) desaparece do filme de repente. Uma grande surpresa no final quase salva o roteiro e deixa o filme pelo menos mais agradável.

Não crie expectativas e talvez goste. Deixou muito a desejar, menos Frank, que dá um show. Porém, show de um homem só é raro ter sucesso no mundo do cinema. 

Crítica do filme: 'Robot and Frank'


O incesto mental que vira poesia aos olhos do mais romântico cinéfilo

Para ela, com ela, sem ela. Dirigido pelos cineastas Jonathan Dayton e Valerie Faris, “Ruby Sparks” aborda o amor como tema central, de uma maneira inusitada, transformando o espectador, desde o primeiro minuto, torcedor para o casal dos sonhos ter um final feliz. À bordo de uma máquina de escrever antiga, o público é levado para dentro dessa grande história, metáforas misturadas em sonhos preenchem a trama.

Na trama, Calvin, um jovem escritor de sucesso se encontra em um momento difícil em sua vida profissional.  Ele sofre de um bloqueio criativo e não consegue mais escrever. Sendo figurinha carimbada em um consultório de psiquiatria, tem na amizade do irmão o único ombro amigo nesse momento difícil, além do seu cachorrinho Scott (homenagem ao famoso escritor Scott F. Fitzgerald). Um dia sonha com uma mulher perfeita chamada Ruby e resolve escrever sobre ela. Mas o que ele não esperava é que sua vida mudaria totalmente, quando magicamente, a mulher perfeita de seus textos torna-se real.

Um jovem em crise, um escritor de um sucesso buscando a volta à profissão, um gênio e seus problemas. Calvin pode ter várias citações como as acima. Um personagem extremado e profundo. Paul Dano merece todos os elogios, interpretando maravilhosamente bem esse tímido ser. Suas idas e vindas ao psiquiatra são hilárias para o público, já para o personagem são a busca das soluções de seus problemas. As crises de ‘criador x criatura’ levam esse inusitado casal ao limite. Cada vez que Calvin escreve para mudar algo em sua Ruby perfeita uma avalanche de mudanças chegam como consequência. O sonho vira realidade. Incesto mental? O amor não tem lógica! Ruby ajuda Calvin a ter uma relação melhor com a família, os pais excêntricos (interpretados pelos ótimos Antonio Banderas e Annette Bening) rendem ótimas sequencias.

É o irmão mais novo do filme “Mais Estranho que a Ficção” (por conta da semelhança de trama central). O roteiro é jovem, dinâmico e com ótimos diálogos. É o novo “Antes do Amanhecer” (por conta da forma poética que mostra o amor), bem mais descontraído e com a mesma essência inteligente nas detalhadas e profundas reflexões. O entrosamento da dupla de protagonistas é um dos pontos altos da trama, há uma naturalidade que impressiona, o público sente isso a todo momento. A sequencia do ‘escreve/muda’, já quase no desfecho, é eletrizante e dramática ao mesmo tempo, se fosse no teatro aplausos calorosos inflamariam, da plateia.

Os diretores de “Pequena Miss Sunshine” acertam outra vez. O longa chega bem próximo da perfeição. É uma grande diversão além de um ótimo longa. Veja mil vezes, só não conte o final!

Crítica do filme 'Ruby Sparks'


O ping pong do sutiã aquático do poema de um tomate que rima com abacate, em plena geração blackberry


Falando do mundo dos jovens e dos valentões que aprontam todas dentro de ciclos de amizade, o aclamado diretor de “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, Michel Gondry chega aos cinemas com seu novo trabalho “Nós e Eu”. O longa traça um retrato do panorama de garotos e garotas americanos que convivem diariamente em confronto, alguns sem limites. O bonde do bullying comanda o início, amigos que não tem limites, se entrelaçam com o restante da turma gerando um liquidificador emocional sem tampa. O roteiro é muito inteligente e consegue transportar, de certa maneira, o público para dentro daquele coletivo lotado.

Na trama, em uma Nova Iorque dos tempos atuais, vemos uma série de histórias sobre um grupo que estuda no mesmo colégio e que todo dia pega o mesmo ônibus para voltar pra casa. Tudo é muito bem ensaiado e naturalmente vemos a execuções das sequencias. Conflitos e situações vão modelando a trajetória do ônibus que parece cruzar toda Nova Iorque. A criação de uma festa por algumas meninas, as paqueras típicas da idade, um casal que não para de se beijar, o quieto homem mangá, uma família que sofre uma tragédia, a menina que saiu do colégio por conta da possibilidade de repercussão sobre uma ‘ficada’ dela. É uma espécie de metrô zorra total só que com comédia e muita profundidade nos seus dramas.

Entre poemas com palavrões, colheradas na cabeça e cigarros mentolados, uma trilha sonora envolvente vai trazendo aos poucos o espectador para dentro de cada uma daquelas histórias. O filme é profundo (outras vezes raso) em algumas dessas histórias. A relação homossexual forte entre dois rapazes e a discussão de relacionamento que explode dentro do coletivo por conta da traição de um deles (com uma menina) é um dos momentos mais marcantes do longa. Você ri e se emociona com uma velocidade impressionante, é um grande conflito emocional que se cruza de maneira nua e crua.

Percebemos a todo momento jovens em conflito. Algumas ações são despejadas em atitudes impensáveis, fruto de uma adolescência imatura e completamente sem direção. O filme é uma objetiva e inteligente crítica à mentalidade e as atitudes da nossa sociedade. Em pleno século das mudanças tecnológicas, as mesmas parecem chegar ao nosso planeta para intensificar e contribuir para o esquecimento do viver em sociedade.Quando as pessoas vão indo embora sobra mais espaço para a razão, assim vemos um dos protagonistas que vai aparecendo aos poucos para o público.

É um filme que todo mundo deve ver. Professores, atenção! Essa é uma boa fita para ser discutida em sala de aula! Mesmo não tendo muito brilho e nem sendo eterno, Michel Gondry consegue mais uma vez a aprovação dos cinéfilos.

Crítica do filme: 'Nós e Eu'


Os ovos que não viram omeletes, a chocante morte do galo e a lentidão que só ganha do Rubinho

Dirigido pelo cineasta chinês Ji Huang, "Ovo e Pedra" chegou ao festival do Rio desse ano cotado para ser um dos belos trabalhos que circulariam pelas inúmeras salas do circuito. Engana-se quem acreditou nisso. Com seu estilo paradão, o ‘clássico filme Cult’ tem muito pouca explicação para um público que não conhece a fundo aquelas tradições que são mostradas.  Para você pelo menos achar um sentido em todas as sequencias desse trabalho, você tem que ter uma mente muito aberta e estar em dia com as problemáticas culturais na região onde se passa o longa.

Na trama, conhecemos uma menina imatura de 14 anos chamada Honggui que está entrando na puberdade e vive os conflitos internos da idade, além de ter que lidar com uma situação de abandono de seus pais que não voltaram da busca de trabalho em outra região. Sem condições de melhorar a situação, vai morar com os tios que deixam bem exposto a insatisfação com a situação.

Somos levados a um mundo de tradição pelo cineasta chinês Ji Huang. Sua direção é interessante (talvez o ponto alto do filme), mesmo os atores não sendo profissionais conseguem respeitar as marcações sempre tentando passar a maior veracidade possível quando em cena. Mesmo com alguns elogios não podemos nos render ao fato de que como um todo a fita passa longe de agradar o público. Quando você precisa voltar à sinopse para entender o filme, tem alguma coisa de errada. Entre carimbos que exaltam impaciência e desespero, o espectador se vê perdido quase que o tempo todo.

Tem cenas que incomodam, geram um extremo desconforto ao espectador. A sequencia do Galo é no mínimo chocante. Entre ovos e pedras o olho adormece. Muita gente vai dormir, mexer no celular, no tablet, e se desligar do filme facilmente. O que impressiona é que os segundos não passam. Vai ter gente saindo do cinema achando que a fita durou 5 horas.

Tem tanto filme bom nesse Festival. Esse, não é um deles. 

Crítica de 'Ovo e Pedra'



A Essência de “Os Miseráveis” e a tentativa de alma, arrastada, de “O Jardim Secreto” reunidos no trauma das 8:40

Quando uma dança não é só uma dança e quando os sorrisos não são direcionados para a pessoa certa. Baseado em uma história criada por Charles Dickens, “Great Expectations” já teve outras adaptações para o mundo do cinema. Essa versão, assinada por David Nicholls (que também assinou a versão para o cinema do recente “Um Dia”), é um novo olhar a essa história que tenta variar entre a superficialidade e a profundidade, que estão na essência de cada personagem. Mesmo com boas intenções, o filme de Mike Newell (que dirigiu, entre tantos, "Quatro Casamentos E Um Funeral" e "O Amor nos Tempos do Cólera") cansa, permanentemente arrastado ao longo dos incansáveis 120 minutos de fita.

Na trama, conhecemos Pip, jovem órfão que é ‘adotado’ por um bondoso ferreiro de uma região. Certo dia, após alguns encontros importantes com outros personagens, recebe a notícia de que herdou um grande dinheiro mas que nunca poderá procurar a pessoa que lhe deu tamanha quantia. De ferreiro à cavalheiro, um mundo completamente novo, de descobertas e desejos começa a se modelar. Pip amadurece, começa a frequentar a vida de novos e antigos conhecidos. Há um clima de suspense no ar que tenta indicar ao público que um clímax está chegando, com grandes revelações.

Com um começo simpático, porém, deveras sonolento a sutileza nos diálogos tentam se encaixar com a belíssima sequencia de imagens que o diretor consegue captar. Os risos que ouvimos da plateia são pela forma cômica como os personagens ruins falecem. A trilha sonora que circula pela trama envolve o público quase todo o tempo. Helena Bonham Carter e seus personagens pra lá de bizarros e completamente fascinantes, a trama cresce quando Helena está em cena. Ralph Fiennes está excelente, uma das melhores atuações do ótimo ator.

O compromisso com o espectador era entregar um filme agradável que fizesse as pessoas se identificarem com a história. O filme fala sobre a pureza de uma amizade que fica mais forte mas também fala sobre uma história de amor, ao longo do tempo, onde os sentimentos envolvidos só crescem. O lindo cenário, tem cenas que lembram o filme “Jardim Secreto”.  

Parece uma peça filmada. Se for ver, fixe os olhos nas atuações excelentes de Helena e Ralph. Não crie grandes expectativas.

Crítica do filme: 'Great Expectations'


Em meio ao desejo de encontrar a figura materna, metáforas maravilhosas brindam os cinéfilos que sabem sonhar

Um retrato nu e cru de uma infância pobre de riquezas mas rica em alegria e vontade de viver. Dirigido pelo americano Benh Zeitlin (que ajuda no roteiro e na trilha sonora também) “Indomável Sonhadora” tem todos os elementos para ser considero um dos melhores filmes do Festival do Rio desse ano. No drama, imagens fortes, marcantes, mostram uma simples realidade. A câmera fica bastante próxima dos personagens (um efeito para incomodar, é algo positivo) talvez uma maneira de aproximar o espectador na ótica de quem interage em cena. As metáforas incorporadas ao filme só elevam a qualidade dessa ótima fita.

Na trama, acompanhamos Hushpuppy (interpretada pela excepcional atriz mirim Quvenzhané Wallis) uma menina que vive em um vilarejo com seu pai, aparentemente longe das grandes cidades. Sua vida é monótona e muito simples tendo que viver com as doenças do pai e a falta que sente de sua mãe. Quando uma tempestade chega ao vilarejo, destrói toda aquela comunidade. Após o desastre e quando os habitantes estão todos longe de suas casas (em um abrigo para desabrigados) eles lutam para voltar ao mundo deles e se revoltam contra tudo e todos. O simples desejo humano de poder voltar para casa. Imagens muito bem captadas, valorizam ainda mais essa jornada de retomada pela esperança de novos dias.

O filme se apresenta como uma narrativa da mente super desenvolvida e criativa da pequena personagem principal. Em meio aquelas botas brancas e sujas pela lama reside uma menina sonhadora, por mais que o pai (volta e meia) não deixa ela ser de fato uma menina. As dificuldades de Hushpuppy vão do temperamento esquisito do pai (interpretado pelo ótimo ator Dwight Henry) até ter que se virar acendendo o fogão com um incinerador onde precisa-se colocar um capacete de proteção, se não queima (uma cena marcante que vemos nesse longa).Tem diálogos imaginários com a mãe, sempre em situações de extremo desconforto, como se fosse uma espécie de saída daquele lugar, naquele momento. Já no desfecho, à bordo do ‘rabugento’, um sonho de encontrar a figura materna é o seu mais novo objetivo.

A trilha sonora é ótima, preenche cada sequencia com sua discreta maestria. O longa tem cenas memoráveis, os gigantes javalis que confrontam a nossa jovem heroína são um achado maravilhoso, virando o clímax da metáfora criada. O espectador é brindado por atuações maravilhosas de Dwight Henry e Quvenzhané Wallis. O primeiro consegue passar toda a dor e transformação de seu personagem com uma veracidade que impressiona. A segunda tem uma atuação digna de Oscar, fala com o olhar, maravilhosa até o último segundo.

Um filme que todo o cinéfilo sonhador precisa conferir. A magia da sétima arte está contida em cada segundo dessa obra-prima. Você não vai perder né?!

Crítica do filme: 'Indomável Sonhadora'