O cofre do banco contém apenas dinheiro; frusta-se quem pensar que lá encontrará riqueza. Passando quase desapercebido em meio aos inúmeros lançamentos semanais no circuito brasileiro, Jogo do Dinheiro é um projeto simples que busca trazer uma certa luz, em forma de crítica (ou sátira como preferirem), ao universo do dinheiro que possui seu clímax diário na tão falada Wall Street. Dirigido pela atriz e também diretora Jodie Foster, o longa metragem dá belos pitacos no papel preponderante da mídia e como esse quarto poder pode e interfere na rotina da sociedade.

Na trama, conhecemos rapidamente o apresentador de um programa de televisão de boa audiência especializado em análise do mercado financeiro, Lee Gates (George Clooney). Durante um dos programas desse show, que acontece ao vivo, um homem alterado chamado Kyle (Jack O'Connell – do ótimo 71: Esquecido em Belfast) entra com uma arma na mão e faz Gates de refém. Ao longo das horas seguintes, o sequestrador vai exigir uma coisa e o apresentador e sua fiel escudeira, a produtora Patty (Julia Roberts) vão fazer de tudo para entregar o que ele quer.

Um dos grandes méritos do filme é conseguir prender a atenção do espectador durante todos os 98 minutos de projeção. Com muitos diálogos fortes, uma pitada de imprevisibilidade, os méritos vão do roteiro, ao elenco e também na firma condução de Foster atrás das câmeras. Além de expor o sensacionalismo que acontece em alguns programas de televisão, em várias vertentes, o filme faz duras críticas ao sistema financeiro e como a influência do quarto poder pode estar aliado as escolhas desse conflituoso mercado. 

Todos nós sabemos como Clooney adora projetos que tem algo a dizer ao planeta, já vimos isso em outros dezenas de filmes que trabalhou ao longo desses anos de sucesso na frente e atrás das câmeras. Esse é mais um desses filmes e merece ser conferido pelos cinéfilos.

Crítica do filme: 'Jogo do Dinheiro'



A felicidade é uma estação intermédia entre a carência e o excesso. Escrito e dirigido pela diretora e roteirista Lorene Scafaria, que entre outros trabalhos foi roteirista do ótimo Nick & Norah: Uma Noite de Amor e Música e dirigiu o peculiar Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo, A Intrometida é um drama disfarçado de comédia com um tom melancólico muito profundo que é atenuado pela atuação carismática da veterana Susan Sarandon. Falando com propriedade de assuntos que vão da dor da perda à vontade de se reencontrar, aos poucos, o filme se torna uma grata surpresa que vai deixar muito cinéfilo com sorrisão aberto. 

Na trama, conhecemos a carinhosa Marnie Minervini (Susan Sarandon), uma mulher já na metade final de sua vida que recentemente perdeu seu companheiro de toda uma vida. Completamente sem rumo, resolve se mudar para mais próximo de sua filha Lori (Rose Byrne), em Los Angeles, na Califórnia. Expondo sua solidão de diversas e muitas vezes engraçadas maneiras, Marnie acaba invadindo a privacidade de sua filha a todo instante (fruto de uma carência do momento) e após um chega pra lá de Lori, Marnie embarca em uma jornada de descobertas onde irá conhecer pessoas que mudarão para sempre esse momento instável que vive. 

Com um orçamento que girou em torno de 10 Milhões de Dólares, A Intrometida se sustenta, além de outras coisas, na força de seus coadjuvantes. Os dramas de Lori, a filha da protagonista, são tão complexos quanto os de Marnie, perdeu o namorado para outra mulher, se encontra sozinha e depressiva. O filme às vezes brinca com essa depressão da dupla, envolvendo o espectador em cenas hilárias, talvez para dar um tom um pouco mais leve para falar sobre assuntos bem densos e complicados. J.K. Simmons, nosso eterno professor Fletcher (Whiplash) e seu ótimo personagem Zipper, preenche uma lacuna muito interessante na história que é o amor. Susan Sarandon, ganhadora do Oscar em 1996 pelo excelente Os Últimos Passos de um Homem, aproveita todos esses elementos e transforma sua personagem em uma curandeira dos seus próprios conflitos internos, uma aula de simpatia e atuação dessa sempre surpreendente atriz.

Exibido no Festival de Toronto 2015, esse longa metragem é um daqueles projetos que vão melhorando a cada cena. Com um começo meio morno onde o foco é explicar, em pouco tempo, toda uma personalidade complexa e abalada pela carência, o filme a partir do segundo arco foca nas reviravoltas das consequências que impactam na vida da protagonista, e aí o filme cresce muito. Com a personagem principal exalando carisma, diversas cenas hilárias, um roteiro pra lá de competente e uma direção firme, a dramédia se coloca como um grande aulão de terapia com o foco na arte de viver.

Crítica do filme: 'A Intrometida'

Amor de mãe é único e verdadeiro. É para uma vida inteira, e jamais é passageiro. Escrito e dirigido pela excelente cineasta Anna Muylaert (Que Horas Ela Volta?) Mãe Só Há Uma, o longa metragem, com estreia marcada para o próximo dia 21 de julho nos cinemas brasileiros, é uma viagem ao universo adolescente paralelo a um trauma que muda completamente a vida de muitas pessoas ao mesmo tempo. Com grande atuação do protagonista Naomi Nero e da excelente atriz Daniela Nefussi, o filme avança no universo das escolhas e nos caminhos da aceitação, do amar como a gente é.

Na trama, acompanhamos a trajetória de Pierre (Naomi Nero), um jovem de 17 anos que adora pintar as unhas, tocar música com os amigos e vive uma vida simples ao lado da mãe e da irmã. Toda sua rotina muda quando um inspetor da polícia bate em sua porta com a notícia de que ele foi roubado na maternidade e que a pessoa que reconhece como sua mãe na verdade não é. Andando com sua Bike de um lado para o outro, Pierre entrará em um caminho de descobertas que vão do encontro com sua família de sangue e os desencontros de sua vida passada.

Eu já tenho família. Eu já tenho nome. Lutando contra as ações do destino, Pierre parte em busca de descobertas que mudam para sempre sua vida. Sem muitos rodeios a trama vai seguindo em uma pegada muito objetiva sempre atenta aos detalhes da personalidade libertária do jovem Pierre. Paralelo à notícia mais impactante da sua curta trajetória de vida, sua sexualidade vai aflorando, desejos e paixões, deixando o futuro a curto prazo com muitas escolhas a serem feitas em alguns campos de sua vida. Em busca de aceitação, quer ser amado da maneira como é.

365 vezes 17, mais de 5.000 dias, mais de 5.000 oferendas, mais de 5.000 rezas. Uma trilha sonora com bastante personalidade vai dando o tom, até certo ponto bastante melancólico, para as sequencias.  O filme se mantém no percurso de ser um drama profundo que ganha seu ritmo com os personagens coadjuvantes que cercam a nova vida de Pierre. Seu novo relacionamento com o irmão que não conhecia, o distanciamento (a princípio) com seus pais biológicos, a sua rotina aos olhos de sua nova família, o tabu da sexualidade que é instaurado em sua nova casa.  As descobertas são muitas, as escolhas vão sendo feitas e nós espectadores somos brindados com um filme emocionante que fala muito além do amor de uma família, mostra um retrato da nossa sociedade e os caminhos para ser aceito nesse mundo as vezes tão complexo.


Crítica do filme: 'Mãe Só Há Uma'

Até na pessoa mais cansada o amor é como um despertar. Dirigido por Michael Showalter Hello, My Name Is Doris, ainda sem previsão de estreia no circuito brasileiro, é uma história bem comovente mas narrada de maneira charmosa que conta com uma bela atuação da veterana Sally Field. Falar sobre o amor na terceira idade é a mesma coisa que falarmos sobre o despertar para a vida e assim, ao longo dos curtos 95 minutos, entre diversas situações diferentes (aos olhos da protagonista), vamos conhecendo melhor a incompreendida e adorável Doris.

Na trama, conhecemos a contadora Doris (Sally Field), uma mulher para lá de 60 anos que vive solitária em seu mundinho que gira em torno de um trabalho entediante em uma promissora agencia de publicidade e sua casa que mais parece um brechó de tanta coisa em pouco lugar. Sua pacata rotina muda quando conhece o novo diretor de arte da empresa que trabalha, John (Max Greenfield), por quem logo nutre uma paixão daquelas de adolescente. Assim, explorando a paixonite, acaba ganhando coragem após participar de um seminário de auto ajuda, ministrado por Willy (Peter Gallagher), e acaba entrando de cabeça no mundo de John e sem querer redescobre os prazeres da vida.

A princípio, o raio-x das emoções da protagonista é bastante complexo. Possui um relacionamento instável com seus irmãos, sua mãe falecera a pouco tempo e possui poucas colegas. A chama do despertar para a vida chega quando o amor a encontra, de maneira inusitada sem dúvidas (vocês vão perceber que ela parece a avó de Walter Mitty), mas quase como um empurrão de suas emoções para que ela redescubra uma nova maneira de viver. Aos poucos vamos conhecendo a personagem, seu grande amor distante que deixou para cuidar de sua mãe, a obsessão que possui com as coisas dentro de casa, a relação próxima mas quase superficial com as amigas. Assim, aos olhar atento dos cinéfilos, Doris vai se desabrochando e o filme ganhando contornos cômicos, românticos e dramáticos.


O longa possui algumas pitadas de açúcar além da conta mas nada que atrapalhe o bom desenvolvimento da curiosa trama. A direção de Showalter é correta, o roteiro também, esse último deixa sua protagonista brilhar e não esquece de explorar os ótimos personagens que a cercam.  Mas nada ganha mais destaque do que a ótima atuação da duas vezes ganhadora do Oscar de Melhor Atriz (Norma Rae e Um Lugar no Coração), Sally Field. A atriz de 69 anos dá um show de simpatia e mostra mais uma vez a todos nós que um simples papel vira um grande papel nas mãos de uma excelente artista.  

Crítica do filme: 'Hello, My Name Is Doris'

Acreditar em si mesmo leva a um destino infinito. Acreditar que falhou pode ser o fim da sua jornada. Assim, é preciso recomeçar. Escrito e dirigido pela atriz e diretora francesa Lucie Borleteau, A Odisseia de Alice é uma jornada em busca do saber amar, do conquistar ser reconhecida em sua profissão e também do saber esquecer e seguir em frente. A poderosa protagonista, interpretada pela excelente e bela atriz grega Ariane Labed (vencedora do último prêmio de melhor atriz no Festival de Locarno), é o centro de todos esses conflitos e emoções que vão ganhando um certo charme libertário, com uma pegada feminista, ao longo dos intensos 97 minutos de projeção.

Na trama, conhecemos a jovem engenheira Alice (Ariane Labed), uma mulher de menos de 30 anos que trabalha na marinha mercantil. Entre uma viagem e outra, algumas que duram meses em alto mar, ela acaba reencontrando um dos grandes amores de sua vida, o capitão Gael (Melvil Poupaud). O problema é que Alice deixou em terra seu noivo, Felix (Anders Danielsen Lie - do excelente Oslo, 31 de Agosto) por quem tem grandes sentimentos. Ao longo dos dias, Alice precisará descobrir realmente para quem deseja entregar seu coração, ou se simplesmente prefere viver um dia de cada vez sem compromissos.

Alice, mesmo analisando de maneira trivial, é uma personagem bastante complexa que chega até certo ponto esconder os sentimentos de si mesmo. Há um conflito dentro dela, praticamente um triangulo isósceles onde duas posições mudam de posição constantemente. Lutando pelo reconhecimento em um lugar de trabalho onde vive cercada de homens e poucas mulheres, a protagonista coloca sua profissão em primeiro lugar.

Fica bem claro logo nos primeiros minutos de filmes que estamos prestes a sermos testemunhas de uma trajetória inconsequente de quem não sabe como amar. Há um sentimento bem forte de egoísmo da personagem principal. Alice é adepta da liberdade e, por causa de sua imaturidade nos relacionamentos, nunca pensa como o coração dos outros pode ficar por conta de suas atitudes. Ela sofre, chega próximo do amar mas prefere ser inconsequente. É uma escolha.


Com uma fotografia belíssima e ótimas atuações do simpático elenco, A Odisseia de Alice estreou no circuito brasileiro algumas semanas atrás de vem ganhando diversos elogios da crítica e dos cinéfilos. Merecido, é um belo trabalho.

Crítica do filme: 'A Odisseia de Alice'



A tensão é um mecanismo de defesa para as possibilidades do que achamos ser inevitável. Selecionado para a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes 2015, o excelente filme Green Room é o que chamamos de pérola em meio a inúmeros blockbusters que circulam anualmente nos circuitos de cinema pelo mundo. Sem nenhuma pretensão de ser um filme politicamente correto, o projeto é uma aula de roteiro, explora o universo da tensão de maneira original, simples e com objetividade. As cenas são bem complexas, fica nítida a dedicação estafante de todo o elenco. Méritos do desconhecido Jeremy Saulnier que escreveu e dirigiu esse impactante filme. De triste para o universo cinéfilo mesmo é que projeto marca um dos últimos filmes do jovem ator russo Anton Yelchin que faleceu poucas semanas atrás.

Na trama, conhecemos uma banda de punk rock formada por jovens liderados por Pat (Anton Yelchin) que entre um show e outro acabam parando em um bar barra pesada neonazista. Após o show, quase indo embora, parte da banda presencia um assassinato e eles acabam ficando presos dentro de um quarto onde precisarão manter a calma e tomar as melhores decisões caso queiram sair com vida deste tenebroso lugar. Lançado em abril deste ano nos Estados Unidos, o longa vem fazendo grande sucesso com o público cinéfilo mundo a fora. 

Na trajetória de seu clímax, que para deleito dos cinéfilos dura bastante tempo, o filme caminho em passos quase ronceiros mas que entram em compasso de maneira furiosa e mexem com nossas pulsações ao extremo. Impressionante o clima de tensão criado. As personalidades dos personagens ajudam muito a nos deixar curiosos com os inúmeros caminhos que o roteiro pode traçar e mesmo assim somos surpreendido a quase todo instante. O elenco também está fantástico, destaques para o protagonista Anton Yelchin, a jovem atriz Imogen Poots e o veterano professor Xavier Patrick Stewart. 

Exibido em diversos festivais de cinema, inclusive na última edição do Festival do Rio, Green Room é uma daquelas gratas surpresas que muitas vezes só ficamos sabendo por conta do boca a boca de quem conseguiu conferir. Uma das coisas mais legais ao analisarmos o projeto é que o filme possui seu próprio gênero, para mim um subtópico em meio ao Thriller psicológico. Em 90% dos casos, a marca registrada de um filme bom é a sua originalidade em trabalhar seus elementos em cena, modelando entre gêneros e consequentemente fazendo o público se interessar pela trama. Green Room consegue isso com louvor.  

Crítica do filme: 'Green Room'

Às vezes a gente pensa que está fazendo comédia mas na verdade está fazendo bobagens sem tamanho. O novo projeto da atriz e comediante Melissa McCarthy, A Chefa, é um longa metragem, de inacabáveis 100 minutos, que tenta ser comédia e fracassa, tenta ter momentos de ação e fracassa. Reunindo o número recorde de cenas sem noção do ano (até aqui, nunca sabemos o que acontecerá no próximo filme do Nicolas Cage), o filme, que estreia em agosto no circuito brasileiro, é um show de palhaçadas onde esquecem da trama a todo instante. Um dos filmes mais ridículos do ano, sem dúvidas.

Na trama, conhecemos a empresária de sucesso Michelle Darnell (Melissa Mccarthy), uma mulher fútil e odiada por todos ao seu redor, exceto por Claire (Kristen Bell), seu braço direito. Certo dia é enviada para a prisão ao negociar informações confidenciais do mercado e passa meses em reclusão. Ao sair, tenta se reerguer aos poucos comandando um empreendimento a partir de deliciosos doces feitos por Claire, porém ainda precisa amadurecer e entender o valor da amizade e da família para ter sucesso.

O projeto, escrito e dirigido pelo marido de Melissa, Ben Falcone, perdeu uma grande chance de falar com eficácia sobre o poder do empreendedorismo e fortalecer debates convincentes sobre o poder da família na vida de todos nós. Ao invés disso, e indo em uma direção totalmente contrária, o longa metragem, além de ser uma enorme perda de tempo, pega pesado demais em determinadas cenas. Tentando ser engraçadinho, esqueceram de puxar o freio de mão e a lambança correu solta. Na ganância de modelar a história de acordo com o que vende, tudo vai por água abaixo com diálogos ridículos e uma trama bem abaixo da média. Framboesa é pouco.


Saber que esse filme vai estrear no circuito e tirar a chance de exibição de inúmeros projetos maravilhosos que nunca ganharão espaço nos cinemas daqui é de cortar o coração de qualquer pessoa que ame a sétima arte. 

Crítica do filme: 'A Chefa'

Na adolescência tudo parece o fim do mundo, mas é apenas o começo. Debutando em longas metragens o cineasta Felix Thompson (que dirige e escreve o projeto) consegue realizar um trabalho muito consistente que fala sobre tempos difíceis de um jovem que vive lutando intensamente e diariamente contra seus instintos adolescentes praticamente sem referências. Com competente atuação de seu protagonista Charlie Plummer, King Jack é o que podemos falar de pequena obra com muito valor, aquela raridade que nós cinéfilos adoramos encontrar.

Na trama, conhecemos o jovem meio rebelde chamado Jack (Charlie Plummer), um garoto de 15 anos que mora em uma cidade pequenina onde consegue em pouco tempo arranjar confusão para todos os lados. Quando sua tia distante fica doente, seu primo acaba indo morar com Jack, sua mãe e seu irmão mais velho. Aos poucos uma grande amizade vai surgindo e Jack vai começar a descobrir a importância da família em sua vida.

Há muitos pontos a se analisar nesta pequena grande obra. A relação do protagonista com sua família é caótica, daí a consequência de uma personalidade fragilizada por impulsos juvenis, raiva, dor e sem nenhum perspectiva. Sua mãe parece não se importar com ele e seu irmão mais velho parece ser aquele típico irmão mais velho de filmes norte-americanos dos anos 90. Quando começa a descobrir o amor, é rejeitado e traído. A única pessoa que parece oferecer algum tipo de esperança é uma amiga (rejeitada por ele) que sempre está por perto nos momentos mais difíceis que enfrenta. Com a chegada do primo, o personagem principal começa a amadurecer forçadamente. Valores que nunca existiram para ele começam a aparecer em sua frente, principalmente o da amizade. Viver em um universo limitado e sem referências fizeram com que Jack buscasse outros sentimentos para se sentir mais forte.


A única coisa que deixa nós cinéfilos tristes é que esse filmaço indie muito provavelmente não entrará em cartaz nos cinemas brasileiros, talvez por falta de espaço, talvez por falta de percepção das distribuidoras. Mas fica aqui a dica deste belo olhar sobre o rito de passagem da adolescência para a juventude em um universo não muito distante de todos nós. 

Crítica do filme: 'King Jack'



A beleza essencial pode estar na sutileza, no subliminar. Dirigido pela atriz e diretora suíça Léa Fazer, Maestro é uma daquelas pequenas obras-primas que achamos no baú empoeirado do mundo mágico da sétima arte. Quase sem possibilidade de exibição nos cinemas brasileiros, o filme é um ato poético sobre o descobrimento do saber usando a estrada do cinema de arte. Ao longo dos curtinhos 81 minutos, somos testemunhas de metáforas filmadas e gestos muitos simples de sabedoria sobre a arte do viver.

Na trama, conhecemos o caricato e jovem ator Henri (Pio Marmaï), que sonha em trabalhar algum dia nos blockbusters hollywoodianos mesmo não conseguindo se estabelecer ainda como ator. Certo dia, parece que sua sorte muda quando recebe a chance de trabalhar um filme do conhecido cineasta Cédric Ròvere (Michael Lonsdale), uma referência do Cinema de arte. No set de filmagens, quase um peixe fora d’água, acaba se apaixonando por Gloria (interpretada pela bela atriz belga Déborah François) e descobrindo com boas intenções o ar da intelectualidade e suas simplicidades de entender melhor a vida. 

O projeto tem vários pontos positivos para destacarmos. Um deles, a relação Mestre X Aprendiz que o filme disseca de forma objetiva e deixa várias lacunas para completarmos com nosso imaginário. Muitas dessas lacunas, inclusive, são preenchidas quando na subida dos créditos somos informados que o filme é parte baseado em uma história real que aconteceu com o consagrado diretor francês Éric Rohmer  no set de seu último filme O Amor de Astrée e Céladon. Outro fator importante é a modelagem/construção do que é o surgimento do amor aos olhos do protagonista. Com tanta transformação que o personagem principal passa em pouco tempo, a ingenuidade e simplicidade acabam se tornando elementos de interseção de todo o processo.

Com convincentes atuações, sem almejar nada mais do que ser uma boa história filmada, Maetro é um filme simplesmente complexo em sua maneira de enxergar o mundo mas bem trivial na maneira de tocar nossos corações sonhadores. Uma pequena obra-prima, se tiver a chance de conferir, não perde não :)

Crítica do filme: 'Maestro'