Os discos jogados num quarto repleto de quadros e violões, ah... e aquele allstar azul ao lado do de cano alto. Como um furacão de emoções, dramas e muita verdade, que promete emocionar a todos, chega aos cinemas brasileiros nesta semana o espetacular documentário Cássia Eller. Dirigido pelo excelente diretor Paulo Henrique Fontenelle, que a cada novo projeto vem brindando os cinéfilos com trabalhos fabulosos (como foi em Dossiê Jango), tentamos decifrar os segredos e a timidez de uma artista que marcou seu nome na história não só pela música mas nas conquistas importantes que conquistou, também quando se foi. O filme é pura emoção e bate aquela vontade de bater palmas de pé quando já emocionados vemos as letrinhas dos créditos subirem.

Nesse projeto 100% nacional, acompanhamos em pouco mais de 110 minutos de fita, toda a história que cercou o nascimento de uma lenda da música popular brasileira. Filha de um paraquedista e uma dona de casa, Cássia usava a música como uma intensa fuga para sua timidez. Com um alcance vocal único e com uma força enorme quando estava no palco, a protagonista deste documentário, que não deixa de ser uma linda homenagem a essa baita mulher, aos poucos foi se tornando uma bomba relógio de emoções.

Como todo bom documentário, todas as verdades são ditas e apresentadas, deixando o próprio público tirar suas conclusões sobre os fatos. Os vícios de drogas também não são escondidos, acompanhamos todos os dramas por conta de tratamentos, problemas amorosos, estresses e abstinências. Cássia teve uma vida intensa, não temos dúvida. Com o sucesso batendo na porta a todo instante, seu jeito simples e a falta de estrutura emoção para lidar com a fama aos poucos vão incomodando a cantora que sempre contava com todos os amigos nessa hora.

A amizade entre Cassia e Nando Reis gera os mais emocionantes depoimentos que vemos na tela. É como se a menina tímida ainda estivesse aqui entre nós, tamanha a força que marcou sua presença durante suas décadas neste país. Percebemos o carinho que todos que conheciam Cássia tinham por ela. Sua relação com a eterna Maria Eugênia e com o filho Chicão mostram um lado doce que transformam o furacão Cássia em uma ventania poética de felicidade. E sobre sua família, falamos da conquista que conseguiu quando seu filho teve a guarda dada a mulher que sempre amou. Uma vitória inédita para o amor.

De Nirvana à Piaf. De Buarque ao blues. Um alcance vocal único. Um ícone da música brasileira. Música é uma coisa bela que toca lá dentro. E não temos dúvidas de que Cássia cumpriu seu objetivo, tocou profundamente e se tornou inesquecível em nossos corações. 

Crítica do filme: 'Cássia Eller'

A paixão é um caminho ou um obstáculo à liberdade? Depois de adentrar Hollywood sendo musa do grande filme de Tarantino, Bastardos Inglórios, Mélanie Laurent se joga de vez no mundo da direção cinematográfica e continua mostrando seu talento, dessa vez, atrás das câmeras. Respire (Respira), baseado no romance da autora francesa Anne-Sophie Brasme, é um soco no estômago para quem ainda acha que a adolescência é uma fase qualquer de nossas vidas. Percorrendo Nietzsche e as razões do excesso, esse longa-metragem francês possui um clima tenso desde o primeiro minuto e um arrebatador desfecho.

Na trama, somos rapidamente apresentados a inteligente Charlie (Joséphine Japy), uma jovem de 17 anos que possui uma vida tranquila na escola ao lado dos amigos mas vive atormentada pela relação de amor e ódio entre seus pais. Certo dia, uma jovem chamada Sarah (Lou de Laâge) chega a escola de Charlie e logo as duas viram amigas.  Sarah é animada, cheia de histórias pra contar, sua vida parece um filme da qual é a única roteirista e sabedora de todos os mistérios e mentiras que a cercam. É uma personagem intrigante, iluminada a todo instante pela lente inteligente e sensibilidade de Laurent. Só que essa chegada de Sarah, mexe muito com Charlie, principalmente quando a protagonista começa a descobrir alguns segredos impactantes da vida dela.

O filme foca para seus ‘clímaxs’ na amizade que é formada. Charlie e Sarah viram super amigas em pouco tempo, vão adentrando perigosamente em uma relação íntima de amizade e dependência. Sarah é provocante, induz a pensamentos dúbios na delicada Charlie. Incrível como a diretora Melanie Laurent consegue captar tamanha profundidade em modestos 90 minutos de projeção. Conseguimos entender melhor as personagens a cada nova sequência angustiante que nos espera.

A transformação da protagonista Charlie ao longo do filme é arrepiante. Suas atitudes inconsequentes vistas já no desfecho da história, mostram que no fundo ela reprime seus pensamentos mais sombrios e isso gera uma catástrofe sem fim dentro de sua vida. Perde amigos, suas notas caem vergonhosamente. Seus pais, em uma eterna zona de conflito, nada fazem para tentar dar uma certa luz ao caminho de sua aterrorizada filha. Somos testemunhas de um caminho nebuloso eminente para a protagonista.


Respire (Respira) ainda não tem previsão de estreia no Brasil. Talvez nunca chegue, infelizmente. Com atuações impactantes, uma direção maravilhosa e uma história muito envolvente, esse filme é um dos grandes filmes de drama do cinema francês nos últimos anos. Se tiver a oportunidade, não deixe de conferir. Filmaço.

Crítica do filme 'Respire (Respira)'

Aceitar um momento difícil é o começo para superá-lo. Após emocionar os cinéfilos com o maravilhoso Deixe a Luz Acesa (2012), o diretor norte-americano Ira Sachs volta a falar sobre relacionamentos conturbados, na sensível e muito honesta fita O Amor é Estranho. Com uma dupla de protagonista pra lá de competentes e uma Marisa Tomei inspirada, como coadjuvante, o filme vai se moldando nos belos diálogos e difíceis decisões que os personagens principais vão enfrentando ao longo dos singelos 94 minutos de projeção.

Na trama, assinada pelo próprio diretor e Mauricio Zacharias, acompanhamos o casal Ben (John Lithgow) e George (Alfred Molina) que após décadas juntos, decidem oficializar sua união, fato que gera muitos problemas no trabalho de George e assim ambos acabam entrando em uma crise financeira. Após terem que vender a casa onde sempre moraram, contam com a ajuda de familiares, vizinhos e amigos para voltarem a ficar juntos.

Pedras no caminho? Obstáculos da vida? Preconceito de uma hipócrita igreja nos tempos atuais? O filme aborda muitas situações que vão dos problemas familiares até as dificuldades sociais por conta de preconceito. Porque o amor de Ben e George não foi aceito pela escola religiosa onde George lecionava a anos? As dificuldades dos protagonistas partem desse ponto, quando ficam sem dinheiro, e assim precisam, forçadamente, conhecer a fundo os problemas dos amigos que os ajudam, piorando ainda mais a dor e virando um cotidiano constrangedor. Os mais profundos diálogos do filme, acontecem entre Ben e a personagem de Marisa Tomei, há tanta profundidade e emoção que se torna uma grande aula de cinema a todos os artistas que estão começando nessa profissão.

Ira Sachs consegue com muita delicadeza abordar todos esses assuntos polêmicos. O espectador se sente amigo dos personagens, tamanha força e determinação que a relação dos protagonistas possuem. A arte do percorrer caminhos já vistos é extremamente complicada para qualquer ser humano, somos testemunhas do medo e quase desespero que paira sobre os personagens a cada novo dia lutando para voltarem a ficar juntos. Recomeçar é mais difícil que começar, pois requer a coragem do início e a superação do fracasso.


O Amor é Estranho estreia em breve aqui no Brasil após fazer um grande sucesso em alguns festivais pelo mundo, inclusive na última edição do Festival do Rio de cinema. Não deixem de conferir esse belo trabalho que deve mexer demais com seu coração. 

Crítica do filme: 'O Amor é Estranho'

Evitar a tristeza não é a forma certa de encontrar a felicidade. Baseado no livro Le voyage d'Hector ou la recherche de bonheur do autor francês François Lelord, Hector and the Search for Happiness (Hector e a Busca pela Felicidade) é um filme muito honesto que mexe com a emoção do público com suas inúmeras lições na prática sobre a arte da felicidade. O longa metragem é dirigido pelo britânico Peter Chelsom, que em seu último trabalho dirigiu o filme Hannah Montana: O Filme.  Mas não se assustem! (Rs) Chelsom conduz com trivialidade e maestria essa história que vai emocionar a muitas pessoas.  Podemos considerar esse trabalho como uma espécie de Walter Mitty Britânico.

Na trama, somos apresentados a Hector (Simon Pegg), um psiquiatra que vive uma vida monótona ao lado de sua namorada Clara (Rosemund Pike). Após uma sessão com uma paciente pra lá de esquisita, o protagonista desperta para seus sentimentos e emoções, embarcando em uma jornada de auto descoberta, à procura da felicidade. Imagens lindas vão desfilando pelo filme, nos sentimos muito próximo dos personagens tamanha verdade que sentimentos em cada gesto, cada palavra que vemos sair das atitudes e pensamentos dos personagens.

Hector é um homem que tem a vida toda certinha, controlada. Mimado por sua namorada, em todos os minutos de seu cotidiano sem emoções, o protagonista explode para vida de uma hora pra outra. O espectador é premiado com diálogos deliciosos, pensamentos inteligentes sobre a sociologia e a exploração que chega a todos nós sobre o que fizemos da nossa vida até agora. Hector representa toda uma parcela da população que de repente desperta para a vida e acaba indo de encontro, da antes tão distante, felicidade.

Da Inglaterra à China, da África à Los Angeles, da morosidade do dia a dia à liberdade. Os personagens que vão aparecendo na vida do protagonista são maravilhosos, contribuem demais para que o filme tenha uma dinâmica que faz o cinéfilo sorrir de orelha a orelha. Jean Reno, Toni Collette, Stellan Skarsgård, o espetacular Christopher Plummer e a recém indicada ao Oscar pelo filme Garota Exemplar, Rosamund Pike. Mas as luzes estão todas no brilhante Simon Pegg, que consegue, como um camaleão, pular de filme em filme, de diferentes gêneros, sem perder sua essência de grande ator.


Hector and the Search for Happiness (Hector e a Busca pela Felicidade) ainda não tem data para estrear no Brasil. Esperamos que chegue em breve. O nosso público merece tentar decifrar todos os mistérios que cercam essa tal de felicidade. 

Crítica do filme: 'Hector and the Search for Happiness (Hector e a Busca pela Felicidade)'

Depois dos chatíssimos Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas (2011) e Nine (2009), o diretor indicado ao Oscar pelo espetacular Chicago, Rob Marshall volta as telonas para apresentar seu mais novo musical Caminhos da Floresta. Com a Pelé das atrizes no elenco (Meryl Streep), Marshall tenta recriar no cinema um sucesso do teatro, uma história que é uma releitura de várias histórias infantis, porém, o roteiro peca demais na hora de tentar encontrar um clímax que nunca chega. Com longos números musicais, cansativos 125 minutos de projeção e uma história que deixa muito a desejar (pelo menos da maneira como foi contada no cinema), Caminhos da Floresta é o mais novo Titanic de Hollywood.

Na trama, acompanhamos a vida de um casal, interpretados por Emily Blunt e James Corden, que sonham em ter filhos. Certo dia, descobrem que possuem uma maldição executada por uma vizinha bruxa (Meryl Streep). Para acabar com esse feitiço, precisam reunir uma série de estranhos elementos , e assim a história desses humildes personagens começa a se entrelaçar com personagens de contos de fadas como a Cinderela (Anna Kendrick), a Chapeuzinho Vermelho, João e o Pé de Feijão e Rapunzel.

Esse novo musical de Marshall, tenta crescer e chamar a atenção do espectador nos tons cômicos dos personagens que são acompanhados por diálogos cantados cheios de elementos místicos. Nessa hora, o bom elenco segura a história. Emily Blunt e Meryl Streep se destacam, a primeira sempre muito segura em seus papéis e ainda possui o charme do sotaque britânico, já a segunda...bem, o que falar de Maryl Streep? Se doa ao personagem ao extremo, é a melhor atriz em atividade, mesmo que suas indicações a prêmios importantes do cinema por sua atuação neste filme tenham sido deveras forçadas. Outras atrizes se destacaram mais neste ano do que a nossa querida Meryl.


Caminhos da Floresta não empolga em instante algum. Por mais que conte com boas, e algumas hilárias, atuações em competentes números musicais, navega por mares já descobertos que fazem parte do imaginário de muitos de nós. Para ser impactante e chamar a atenção, precisaria de muita criatividade na modelagem dessa ideia. Infelizmente, em seu resultado final,  não acrescenta nada além do que já vimos em tentativas de novas roupagens para histórias conhecidas. Falta dinamismo coerente ao roteiro assinado por James Lapine, parece que as peças estão fora do lugar o tempo todo.

Crítica do filme: 'Caminhos da Floresta'

Tenha piedade da minha alma, estou aqui para corresponder ao seu amor. A cineasta dinamarquesa Pernille Fischer Christensen (tão competente quanto Bier) volta ao mundo mágico do cinema para falar sobre a angústia de um homem em busca de uma redenção após uma vida inteira de amargura. Someone You love (En du elsker), é aquele tipo de filme que deixa o espectador com o coração apertado, esperando atentamente a próxima cena. A trilha sonora é algo mágico, entra em nossos ouvidos com uma leveza que chega a arrepiar. O cinema dinamarquês é assim mesmo, possui em sua essência, uma eterna arte de decifrar a profundidade dos relacionamentos mais complexos.

Na trama, conhecemos Thomas Jacob (Mikael Persbrandt), um músico muito famoso que faz grande sucesso nos Estados Unidos. Afim de gravar um novo álbum, resolve voltar para a sua Pátria, a Dinamarca. Lá se vê totalmente envolvio com seu passado quando ressurge em sua vida a única filha que tem, e para sua surpresa descobre que tem um neto, que nunca conheceu. Assim, e logo após uma tragédia que acontece, Thomas embarcará em uma viagem emocional que vai mudar pra sempre sua vida. O protagonista é carregado de dor e angústia, se descontrola com a tragédia que acontece em sua vida. É como se fosse um baralho de cartas milimetricamente arrumadas e uma grande ventania desarruma tudo.

É uma grande atuação do ator sueco Mikael Persbrandt, que esteve recentemente no elenco de O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos e que emocionou o mundo no belo e ganhador do Oscar de Melhor filme Estrangeiro anos atrás, Em um Mundo melhor. O indecifrável protagonista (que é Rude, tem medo das pessoas e domina a arte do estar sozinho) possui muitos problemas emocionais e precisa tomar uma decisão importante após um acontecimento terrível. Sem sabe tomar a decisão com certeza absoluta, embarca em um novo caminho de solidão, medo, culpa e desespero. Mikael Persbrandt apresenta um raio-x do personagem ao público, sentimos cada gota de angústia que transbordam o olhar impactante do personagem.


A torcida de nós cinéfilos é que esse impactante trabalho chegue aos cinemas brasileiros ainda nesse ano. Alô distribuidoras! O cinema dinamarquês precisa ter um porto seguro em nossas salas e não somente os filmes com o Mads Mikkelsen. O público merece assistir a filmes bons que nos façam refletir sobre nossas próprias vidas. Someone You love (En du elsker) tem esse poder, toca profundamente nossos corações.

Crítica do filme: 'Someone You love (En du elsker)'

Após os ótimos trabalhos como diretor dos filmes Capote e O Homem Que Mudou o Jogo, e mantendo-se na linha das histórias verídicas, o cineasta nova iorquino Bennett Miller resolve contar uma história que chocou a nação americana. Foxcatcher - Uma História que Chocou o Mundo é um filme que demora para decolar, é como se um avião percorresse toda uma pista de aeroporto sem conseguir levantar voo. Com atuações abaixo do esperado e um roteiro que deixa muito a desejar, o filme se torna maçante ao longo dos intermináveis 129 minutos de projeção.

Na trama, somos apresentados a uma história real que chocou os Estados Unidos anos atrás. Mark Schultz, campeão mundial de luta greco-romana, vive em sua rotina difícil entre treinos com o irmão David (Mark Ruffalo) e um pacato e nada esperançoso cotidiano quando chega em sua modesta casa. Sem incentivo para seguir lutando, Mark estava a beira do desespero quando um dia, um milionário nada normal chamado John Du Pont (Steve Carrell) oferece a Mark a chance que sempre sonhou. Com o passar do tempo, a relação entre os dois vai se tornando obsessiva e declina para as drogas e humilhações que Du Pont executa. Situação que leva essa história a um desfecho trágico, principalmente quando o irmão de Mark entra de vez nessa história.

O único respiro do roteiro, assinado pela dupla E. Max Frye e Dan Futterman, é a subtrama que envolve a relação entre os irmãos lutadores. Você consegue entender melhor o impacto das consequências que acontecem ao longo da fita por meio de ótimos diálogos entre Mark e Dave. Isso ocorre muito mais pela força cênica de Ruffalo do que qualquer ação mais expressiva de Tatum. Alguns detalhes que poderiam construir melhor o personagem John Du Pont, como uma maior profundidade na história com sua mãe (vivida por Vanessa Redgrave), é praticamente esquecida pelo diretor. A história não se mostra interessante 90% do tempo.


Steve Carrell, um dos protagonistas, teve o personagem John Du Pont nas mãos mas não consegue o fazer interessante (extremamente forçada suas nomeações em premiações, teve gente muito melhor que ele fazendo trabalhos mais competentes nesse ano). Channing Tatum, o outro protagonista, se esforça, mas os músculos ainda vem na frente do talento. O único que brilha é Mark Ruffalo que faz o que pode para que o filme não se transforme em um sonífero daqueles bem fortes. 

Crítica do filme: 'Foxcatcher - Uma História que Chocou o Mundo'

Aqueles que se amam e são separados podem viver sua dor, mas isso não é desespero, eles sabem que o amor existe. Após alguns curtas de muito sucesso no cenário independente, o cineasta nova iorquino Ned Benson, em seu primeiro longa-metragem, resolve falar profundamente sobre um sentimento que consome muitos de nós, em determinadas partes de nossas vidas, o amor. Para tal, escreveu um roteiro muito interessante, que soa várias verdades universais, e chamou uma talentosa dupla de artistas para compor o casal protagonista. A fórmula dá mais que certo, leva o público à emoção em cada sequência.

Na trama, conhecemos o casal apaixonado Connor (James McAvoy) e Eleanor (Jessica Chastain), uma dupla de pombinhos que tinham uma relação maravilhosa até que por circunstâncias do destino o único filho do casal falece precocemente. A partir dessa situação, o casal não consegue mais se entender e começam a trilhar caminhos diferentes. Após uma tentativa de suicídio por parte de Eleanor, Connor reacende a paixão que há nessa relação e passa a tentar reconquistar sua esposa, percorrendo caminhos que machucam a todos os envolvidos.

A entrega dos atores em cena é algo louvável, visceral. Jessica Chastain tem uma de suas melhores atuações em um longa-metragem. Um absurdo ela ser esquecida por algumas premiações como o Oscar. Sua complexa personagem navega em sentimentos turbulentos e se constrói e descontrói a cada nova sequência, fazendo o público se emocionar bastante. Conseguimos sentir bem próximo a dor que a personagem possui, e o pior, o bloqueio que ela cria em torno de sua relação com o marido. Torcemos a cada instante para um final feliz mas conforme o filme avança em seus longos 120 minutos, percebemos que a felicidade é algo relativo nessa história que também podemos ler como uma espécie de redescoberta do amor.


Para um primeiro trabalho no mundo do cinema, Ned Benson passa com louvor no teste. A ideia era super arriscada, afinal falar sobre amor pode se tornar clichê e nunca atingir aos nossos corações com a profundidade que é necessária para se tornar inesquecível em nossa memória cinéfila mas, no fim desse projeto, é muito difícil o cinéfilo sair sem dar aquele sorrisão de quem viu um grande filme. Dois Lados do Amor estreia no brasil nesse primeiro semestre. Você não vai perder né? 

Crítica do filme: 'Dois Lados do Amor' (O Desaparecimento de Eleanor Rigby)

O patriotismo parte diante da ignorância da maioria. O bom e velho Clint Eastwood, que já passou dos 80, volta às telonas do mundo, dessa vez para conduzir um filme de ação baseado numa história real de um ex-soldado norte-americano. Protagonizado e produzido por Bradley Cooper e recentemente indicado a 5 Oscar, o longa-metragem Sniper Americano é o tipo de filme que os americanos adoram, que a academia que vota na seleção do Oscar adora mas que sempre deixa a desejar aos olhos atentos de muitos cinéfilos. Cooper não faz o suficiente para merecer sua indicação na categoria Melhor Ator em um filme que é igual a muitos com o mesmo tema.

Na trama, conhecemos o atirador de elite do exército norte-americano Chris Kyle (Bradley Cooper), um texano de origem humilde que por volta dos 30 anos resolve abandonar a vida de cowboy e ingressar nas forças armadas norte-americanas. Enviado para uma das maiores zonas de conflitos que o mundo já viu nesse e no último século, Kyle conseguiu virar uma lenda, assassinando mais de 100 pessoas nos combates em que marcou presença. Obviamente, sua vida familiar sofre um grande tormento cada uma das quatro vezes que vai e volta da guerra.

O roteiro, escrito por Jason Hall, baseado em um livro que conta detalhadamente as situações vividas por Chris Kyle na zona de conflito, possui diversos arcos: situações extremas nas batalhas travadas por Kyle, as consequências psicológicas que atingem o protagonista após ver tanta tragédia mas definitivamente a sua relação familiar é a parte mais interessante e onde todos em cena conseguem elevar seus personagens. Sienna Miller, dessa vez morena, é o grande destaque. Sua personagem Taya, mulher de Kyle, é um termômetro importante para o espectador, suas cenas de desespero em querer que o marido largue o exército e volte a ser um pai presente emocionam profundamente. É difícil entender porque todos os holofotes das premiações se voltaram para Bradley Cooper e não para Sienna Miller, o primeiro tem um bom desempenho, apenas, nada demais, muitos outros atores poderiam ter feito igual ou melhor que Cooper.


De qualquer maneira, um fato que devemos louvar é o desejo e empenho de Clint de ainda querer trabalhar com cinema. A cena da tempestade de areia é brilhantemente bem conduzida, impressiona, você não consegue tirar os olhos da telona. Com altos e baixos, Sniper Americano estreia no Brasil muito em breve e você terá a chance de tirar suas próprias conclusões sobre esse trabalho apenas mediano.  

Crítica do filme: 'Sniper Americano'



O inimigo está sempre pronto e nunca dorme. Quando pensamos em cinema russo, um largo sorriso já vem ao rosto de qualquer um que se diz cinéfilo. Depois do espetacular Elena, um dos mais promissores diretores das últimas décadas, Andrey Zvyagintsev, volta às telonas do mundo todo para contar uma verdade de sua terra em forma de arte. O espectador fica aflito e perplexo durante todos os longos minutos de projeção. Leviatã é firme, duro, mexe com as nossas emoções mais profundas. 
No roteiro, assinado por Oleg Negin e pelo próprio diretor, não há espaço para superficialidades.

Na trama, acompanhamos todo o drama e sofrimento de Kolia (Aleksey Serebryakov), um mecânico que vive humildemente com sua atual mulher Lilya (Elena Lyadova) e seu filho do primeiro casamento. Kolia luta na justiça para que o prefeito da cidade onde mora não derrube sua casa, só que isso fará com que ele sofra consequências, mesmo com a ajuda de seu amigo Dmitri (Vladimir Vdovichenkov), um advogado vindo de Moscou. Além dessa situação incômoda, o protagonista enfrentará um drama familiar difícil de ser curado.

Leviatã é um retrato da corrupção e do sofrimento não só de uma família mas de uma grande nação. O filme escancara a corrupção no alto escalão russo, os abusos cometidos mostram a falta de escrúpulos que muitos lugares vivem nos dias atuais. A fé, a dúvida em Deus, a fragmentação do homem, o aprender a viver as consequências de seus atos, Leviatã é também uma aula de sociologia numa tela grande. 

Além da trama principal, subconflitos de cunho familiar vão preenchendo esse grande filme com maestria. O saber perdoar é visto de várias maneiras pelas óticas dos personagens. Os conflitos são grandes, daqueles de arrasar um coração. Quando o longa-metragem, premiado no último domingo com o Globo de Ouro de Melhor filme estrangeiro, entra nessa jornada familiar em busca de redenção a história cresce e ganha dimensões dos grandes filmes do gênio russo Andrei Tarkovski (sensacional cineasta que faleceu precocemente aos 54 anos).

A verdade reflete o mundo como ele é. Zvyagintsev defende esse lema do início ao fim, passando para o público a existência de uma oitava arte, a realidade.

Crítica do filme: 'Leviatã'



Depois de dirigir o longa-metragem britânico O Pior dos Pecados, um filme bem mediano, o cineasta Rowan Joffe ganha mais uma chance de aparecer, dessa vez com um elenco de primeira, com o suspense Antes de Dormir. O filme tem uma narrativa muito interessante mas os três atores que contornam a trama é quem levam a fita nas costas, prendem o espectador em exatos momentos chaves fazendo com que haja uma grande interesse em desvendar o grande mistério que cerca a história.

Na trama, conhecemos Christine (Nicole Kidman), uma mulher que anos após sofrer um acidente misterioso todo dia acorda sem lembrar quem é. Seu marido Ben (Colin Firth) faz de tudo para que tudo possa ser o mais natural possível, explicando todas as manhãs sentado na cama toda sua história. Até que um dia, uma nova variável aparece, o Dr Nasch (Mark Strong) um médico que nutre uma paixão por Christine e tenta ajudá-la a descobrir os mistérios por trás de sua trajetória de vida.

O roteiro, assinado pelo próprio diretor, baseado em um Best-seller de S.J Watson, é muito competente e cumpre a missão de deixar lacunas abertas de propósito para que o público aos poucos vá se surpreendendo com o andamento da história. A competência cênica dos três ótimos atores é fabulosa e transforma um possível filme regular em um surpreendente longa-metragem de suspense. Como no pôquer, muitos personagens vão escondendo quem realmente são e as revelações feitas deixam o público intrigado com a trama. 

Com a onda de filmes indicados ao Oscar no line-up das distribuidoras aqui do Brasil, Antes de Dormir teve seu lançamento adiado (provavelmente, deve estrear dia 22 de janeiro) e pode cumprir muito bem um espaço deixado pelo circuito nesse começo de ano, bons filmes de suspense. Com pouco mais de 90 minutos de fita, Antes de Dormir cumpre o que se propõe: surpreender o público.

Crítica do filme: 'Antes de Dormir'



Às vezes, as pessoas que menos esperamos podem faz as coisas mais inacreditáveis. Dirigido pelo desconhecido cineasta norueguês Morten Tyldum (do ótimo Headhunters), O Jogo da Imitação é uma grande aula de matemática com um profundo drama de pano de fundo que conta com atuações brilhantes, principalmente de Benedict Cumberbatch que deve concorrer ao seu primeiro Oscar este ano. O roteiro é detalhista, baseado na obra de Andrew Hodges (Alan Turing: The Enigma) e assinado pelo estreante em longas-metragens Graham Moore. 

Na trama, somos apresentados ao matemático Alan Turing (Benedict Cumberbatch), um gênio destemido e ao mesmo tempo um completo anti-social. Com a Inglaterra sofrendo sérios problemas por conta  da guerra, Turing se candidata a ajudar a inteligência britânica a decifrar um código indecifrável dos nazistas e vencer a guerra. Teorema de Euler, Álgebra linear, conhecimentos de eletrônica, Charadas, trivias, pegadinhas matemáticas, todos esses são elementos que Turing e sua equipe possuem para cumprir o objetivo.  O filme, fortíssimo candidato a uma indicação para o próximo Oscar, é modelado via Flashbacks em muitas fases da vida do personagem principal. 

Cérebro elétrico, computador digital, décadas atrás raríssimas pessoas conseguiam pensar sobre tudo isso, Alan Turing era uma dessas mentes brilhantes. Mas como todo gênio, possuía problemas na arte de se relacionar.  Talvez por isso, uma peça importante na história é Joan Clarke (interpretada pela sempre delicada e competente Keira Knightley), uma espécie de Oásis de Alan, uma amiga, esposa de mentirinha que ajuda o protagonista em suas diárias conturbações sociais. Enxergamos o filme sob a ótica de Joan também e toda a influência que teve sob o trabalho de Turing.

Em uma época hipócrita e de leis que não conseguimos entender até hoje, por ser homossexual, Alan é perseguido e colocado em chantagem a todo instante. Esse contexto praticamente preenche as lacunas do ato final desse grande filme. Alan Turing, considerado o pai do computador, ajudou os aliados a ganharem a guerra e merecia maior reconhecimento. Normandia, Stanlingrado, salvação de mais de 14 milhões de pessoas, todas essas e outras vitórias não seriam possíveis sem a ajuda de Turing e sua turma de decifradores ingleses. 

Quem diria que realmente o amor ajudou a acabar com a guerra? Essa inusitada questão é uma das chaves do trabalho mais brilhante que Alan Turing executou em sua curta vida. A guerra para ele e seus amigos não eram com armas e bombardeios, era com palavras cruzadas em uma pequena vila no sul da Inglaterra. O Jogo da Imitação não deixa de ser uma homenagem a um homem que dedicou sua vida respirando matemática e ao mesmo tempo escreveu seu nome com louvor na história da humanidade.

Crítica do filme: 'O Jogo da Imitação'



A vida não passa de uma sombra nômade para os que necessitam de algum gesto de reconhecimento. Estimado em U$$ 22 Milhões de Dólares, o novo e inovador projeto do cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu é uma crítica à uma sociedade que necessita dos aplausos e deseja algum dia se tornar um viral da tecnologia. Em Birdman, somos apresentados a um ator, interpretado de maneira brilhante por Michael Keaton, que confunde amor com admiração e que se encontra em uma semi-realidade nada confiante. Nos bastidores de uma peça na Broadway o filme vai ganhando ritmo, tendo por base um roteiro inteligente e dinâmico. Vai papar muitos prêmios e deve premiar merecidamente Keaton com seu primeiro Oscar.

Na trama, conhecemos Riggan (Michael Keaton), um ator famoso nos 90 por interpretar um super-herói que agora, já em decadência, resolve montar uma peça teatral na Broadway em busca de recuperar prestígio e ter o talento reconhecido. O problema é que precisará combater os egos dos outros artistas, resolver problemas familiares e se livrar de uma voz estranha que conversa com ele a todo instante.

As complexas emoções por trás dos artistas que vivem para seu trabalho é muito bem caracterizada, elevando a fita.  As subtramas ganham espaço louvável sob as lentes de Iñárritu. A relação do personagem principal com sua filha é muito bem encaixada, conseguimos entender toda a profundidade e mágoas dessa relação. Emma Stone e Michael Keaton executam profundos e divertidos diálogos a todo instante.  O ótimo Edward Norton quase rouba a cena, com seu personagem explodindo em um complexo de emoções dentro e fora dos palcos, mas o filme é de Keaton.  

Com uma trilha sonora envolvente, assinada por Antonio Sanchez, o filme é moldado perfeitamente em torno do protagonista. Michael Keaton dá quase um show, exalando empatia a cada segundo, ele faz o espectador gargalhar, voa, e consegue uma interpretação que é uma das grandes de sua vasta carreira. Seu personagem cresce ao lado dos outros ótimos Edward Norton, Emma Stone, Naomi Watts e Zach Galifianakis, transformando Birdman em um filme bastante peculiar que merece ser visto por todo mundo que ama cinema.

Crítica do filme: 'Birdman'