Nunca é tarde para amar. Falando sobre o amor na terceira idade e dos problemas dos sentimentos perante a solidão, o indiano Ritesh Batra (da obra prima The Lunchbox), baseado na obra homônima de Kent Haruf, apresenta um retrato tocante sobre duas almas solitárias que buscam entre eles novas formas de aproveitar a vida. Para dar luz aos protagonistas, melhor escolha impossível, Robert Redford e Jane Fonda se completam em cena, em atuações marcantes e emocionantes. Um retrato profundo, de ritmo lento, e que transpira verdade sobre o universo do estar sozinho na parte final de nossas vidas.

Produzido pela Netflix, Nossas Noites conta a história de Louis (Robert Redford), um homem de idade avançada, aposentado, que mora sozinho em uma casa de classe média no interior dos Estados Unidos. Certo dia, algo inusitado acontece. Uma de suas vizinhas, Addie (Jane Fonda), que conhece por morarem a muitos anos no mesmo bairro, vai a sua casa e faz uma proposta surpreendente: de que eles passem noites juntos, para servirem de companhia um para o outro. Assim, de maneira apaixonante, os dois embarcam em uma história inesquecível de amor e amizade.

É um filme feito para os protagonistas brilharem. Há muita qualidade em cena, que transformam diálogos simples e ritmo controlado em grandes lições de vida que chegam junto com um show de maturidade e segurança para romper qualquer traço de preconceito desse novo amor. O projeto é quase um teatro aberto, os diálogos e suas profundidades. Os simples gestos se tornam grandes conquistas para esses corações solitários que encontraram um no outro uma razão de viver. Mesmo na hora das escolhas que chegam aos personagens, o roteiro se mantém fiel as características deles, transpirando sentimentos bons.

Batra tem um poder de captar o sentimento e jogar na tela grande que poucos no cinema mundial tem atualmente. É tão lindo o amor mostrado, a linha tênue entre amizade e paixão é composta pelo conforto do próximo. Delicado e sensível, Our Souls at Night, no original, mostra um lado humano que emociona com simples modos de olhar o próximo.


Crítica do filme: 'Nossas Noites (Our Souls at Night - 2017)'

A educação exige os maiores cuidados, porque influi sobre toda a vida. Com data de estreia marcada para o próximo dia 05 de outubro, esse ótimo drama francês O Melhor Professor da Minha Vida chega as telonas de todo o Brasil para fortificar as inúmeras discussões sobre a educação e a relação entre mestres e alunos. Protagonizado pelo sempre competente ator francês Denis Podalydès, esse projeto traz um olhar interessante também sobre as pessoas que encontramos em nosso caminho e que podem mudar para sempre nossa trajetória de vida.

Na trama, conhecemos um rígido professor chamado François Foucault (Denis Podalydès) de uma renomada escola de Paris que durante uma noite de autógrafos dos livros de seu pai escritor, conhece uma funcionária do ministério da educação e acaba sendo convidado a dar aulas em um colégio na periferia para ajudar com sua experiência. Chegando na nova escola, uma turma rebelde e indisciplinada o recebe. Somente com o passar do tempo ele consegue entender melhor os alunos e uma relação de professor e aluno é criada.

A mudança de comportamento, que não é radical mas bastante sensível, chega em forma de ensino não só para a turma mas para o professor. François é o que mais muda ao longo do filme, sua personalidade rígida acaba deixando brechas para o inusitado e cedendo a seus eternos limites obrigatórios. A turma sente essa mudança no carrancudo professor que aos poucos vai começando a interagir de uma forma onde todos ganham.


A função do professor e o ato de educar fica muito evidente no ato final da trama, quando François parte em defesa de um de seus alunos em um comitê disciplinar. Os atritos com alguns professores que estão anos no local são iminentes, abordados no filme como forma de gerar boas discussões sobre o ensino.  As analogias com pensamentos do escritor Victor Hugo, livro que a turma lê durante o ano letivo com François como professor, são ótimas e enchem de brilho o roteiro. O Melhor Professor da Minha Vida é um competente trabalho que alia humor, drama e um assunto muito sério que precisa ser discutido no lado de cá da telona.


Crítica do filme: 'O Melhor Professor da Minha Vida'

Não podemos acreditar no fim do amor. Exibido no Festival de Locarno deste ano, a comédia dramática The Big Sick, no original, é uma daquelas gratas surpresas que aparecem no circuito. Falando de um assunto bastante abordado em longas metragens ao longo dos anos, o amor proibido por conta da religião e costumes de uma das partes, Doentes de Amor, título nacional desse projeto, possui peculiaridades que vão do roteiro baseado na história de vida do ator principal Kumail Nanjiani, que escreveu o roteiro com sua mulher, Emily Gordon, até atuações equilibradas e um grande cheiro de Oscar para Holly Hunter, deslumbrante, e com um carisma que impressiona.

Produzido pelo famoso diretor Judd Apatow, o filme conta a história do indiano Kumail (Kumail Nanjiani), um jovem motorista de Uber que faz de tudo para entender os costumes e tradições de sua família e foge sempre que o assunto é sobre seu futuro como advogado. Kumail faz Stand Up pela cidade onde mora e em um desses shows acaba conhecendo Emily (Zoe Kazan), uma estudante por quem acaba se apaixonando perdidamente. Só que tudo vai por água abaixo quando Kumail termina com Emily por conta de sua família, que deseja que ele se case com uma indiana. Mesmo sofrendo muito, os dois seguem em frente, até Emily entrar em coma, e, assim, Kumail passa os dias a visitando no hospital e acaba conhecendo melhor a família dela, principalmente o pai Terry (Ray Romano) e a mãe Beth (Holly Hunter).

O equilíbrio eleva a força dos personagens de maneira bonita, quase poética. O protagonista é um cidadão norte americano ainda preso a costumes por conta de sua família. Com medo de ser banido, faz mil e uma piadas coerentes sobre isso, e tenta aos poucos convencer sua família sobre suas escolhas, não só no campo amoroso mas no profissional. Mesmo assim, sua mãe sempre que vão jantar, chama uma jovem de outra família indiana para apresentar a ele. Mas essa é apenas uma parte de sua vida. Seu sonho é ser comediante profissional e se apresentar em palcos pelos Estados Unidos, o foco de suas piadas obviamente são suas histórias e tradições da cultura de sua família.  

O fator amor chega na figura de Emily. Completamente encantado, começa a ganhar coragem para tomar decisões que antes eram um tabu em sua cabeça. A maior parte da transformaçãoo do protagonista acontece no segundo ato em diante quando entra a família de Emily na história. Terry e Beth são um casal comum, cheio de problemas e que tem em Emily um elo eterno. O carinho de Jumail por sua filha aproxima os três personagens que entre idas e vindas, em situações hilárias em alguns momentos, vão descobrindo novas maneiras de ver o mundo, sempre através do amor ao próximo. Beth domina muitas dessas cenas, fruto de uma atuação espetacular de Holly Hunter que merece mais uma indicação ao Oscar.


A emoção rola solta em muitos momentos. É impossível após as duas horas de filme você não sair apaixonado por essa história.


Crítica do filme: 'Doentes de Amor'

Se tudo é imperfeito nesse mundo imperfeito, então o amor é perfeito em sua imperfeição. Dirigido pela dupla de cineastas suecos Jane Magnusson e Hynek Pallas Trespassing Bergman é uma grande viagem ao mundo peculiar de um dos maiores cineastas da história do cinema, Ingmar Bergman. Ao longo de quase duas horas de filme somos testemunhas de relatos profundos, emocionantes, de grandes diretores e atores mundialmente conhecidos sobre todo o legado do saudoso mestre. Tomas Alfredson, Woody Allen, Wes Anderson, Harriet Andersson (uma das musas de Bergman), Francis Ford Coppola, Wes Craven, Robert De Niro, Michael Haneke, Claire Denis, Martin Scorsese e Ang Lee são alguns dos nomes que aparecem nesse belo trabalho.

Tendo como início a viagem de alguns renomados artistas da sétima arte até a ilha Faro, local onde Bergman passou boa parte de sua vida e que hoje virou um lugar escondido  tendo visitas de muitos para conhecer onde morava o diretor de Morangos Silvestres, Persona e tantos outros clássicos do cinema. Alejandro González Iñárritu, visivelmente emocionando em grande parte do filme conta com muita sinceridade sua relação e importância do cinema de Bergman para sua formação como cineasta. Cada detalhe é captado pelas lentes dos diretores responsáveis por esse documentário que não deixa de ser uma homenagem ao infinito legado que Bergman deixou em suas obras.

Na parte mais polêmica, com certeza, vem os pensamentos sobre Bergman do polêmico cineasta dinamarquês Lars Von Trier, muito por conta de não ter tido uma carta sequer que enviou ao mestre ter sido respondida. Já John Landis (diretor do inesquecível The Blues Brothers entre outros grandes filmes) fica fascinado com a filmoteca de Bergman, de filmes históricos até Duro de Matar em fita VHS. Wes Anderson, que dá seus relatos em um apartamento em Paris, é o mais equilibrado em dizer sua relação com os filmes do diretor sueco, uma pequena aula de cinema desse genial cineasta, ídolo de muitos cinéfilos.


Falecido em 2007, aos 89 anos, Ingmar Bergman transformou o cinema com sua visão do mundo. Era um cinéfilo dos grandes, via três filmes por dia até perto de sua morte. É um nome inesquecível na imensa galeria de pessoas que mudam nossa maneira de olhar, sempre através de uma câmera.


Crítica do filme: 'Trespassing Bergman (Invadindo Bergman)'

É muito mais difícil um fantasma não existir do que matar uma realidade. Escrito e dirigido pelo cineasta norte americano David Lowery, A Ghost Story é uma fábula engenhosa sobre a solidão da perda. O forte tom de sua sinistra trilha sonora, junto a planos longos (alguns angustiantes) transformam a atmosfera do filme em algo realmente impactante. Protagonizado por Rooney Mara e Casey Affleck, o projeto é bem complicado de se entender, longe do trivial, um quebra cabeça melancólico, minimalista e porque não dizer um exercício interessante sobre o abandono.

Na trama, conhecemos o casal C (Casey Affleck) e M (Rooney Mara), jovens com o futuro todo pela frente que moram em uma casa um pouco isolada, provavelmente no interior dos Estados Unidos. Certo dia, C se envolve em um acidente automobilístico e acaba falecendo. Mas, o inusitado acontece, C vira um fantasma e acaba retornando para sua casa onde sua esposa passa por dificuldades emocionais tentando seguir em frente com sua vida. Assim, o filme embarca em uma série de situações, sem comunicação (ou quase isso) entre o casal onde as dores da tragédia são uma estrada ilimitada de emoções.

Esquecer de tudo?  As dores do mundo?  Não quero saber quem fui mas sim quem sou. Quando o tabuleiro começa a se juntar, as peças nos mostram as verdades e surpresas do roteiro. A questão do fantasma, ou algo do tipo, do inusitado, é um mero detalhe coadjuvante. A lógica desse roteiro complexo gira em torno da questão do tempo e suas passagens rápidas em algumas situações e demoradas em outras, mas com pouca alteração do ambiente. Os protagonistas vivem um primeiro ato de felicidade que logo acaba em tragédia, e, assim, começamos a enxergar dramas e sofrimentos através de uma figura incomum que parece não conseguir se libertar de sua situação.


Você se sente a todo instante assistindo a um filme do Terrence Malick, principalmente por conta dos contornos da trilha sonora e seu impacto no ritmo da trama. Essa mescla de drama e fantasia, ou algo que une isso como gênero, é um dos pontos peculiares e diferenciais desse projeto que tem tudo para dar o que falar. Aos que tem pouca paciência, um tédio terrível pode chegar. Aos que conseguem se conectar com a essência da trama, o lado emocional dos personagens, A Ghost Story pode ser um filme para se ver e rever, além de refletirmos muitos sobre as dores do mundo.


Crítica do filme: 'A Ghost Story'

Conseguindo ler a cara de blefe. Stefani Joanne Angelina Germanotta. Só por esse nome você talvez não conheça ela. Uma das maiores cantoras atualmente do planeta, com inúmeros recordes em vendas de discos e apresentações aclamadas ao redor do mundo, Lady Gaga abre sua vida em um raio-x intimista, nu e cru sobre sua vida pessoal abrindo o jogo sobre sua rotina angustiante repleta de medos, dores e uma pressão gigante em um documentário que estreou na última sexta-feira no serviço de streaming Netflix. Gaga: Five Foot Two mostra por completo dramas pessoais e como pensa a mente da artista que é um ícone de sua geração.

Buscando fazer um recorte da vida de Gaga, que vai dos preparativos do lançamento de seu novo álbum Joanne (seu quinto da carreira) até o maior show de sua vida profissional no intervalo do último Super Bowl (final do Futebol Americano), o documentarista Chris Moukarbel faz uma viagem a vida pessoal de Stefani, seus dramas por conta de um recente término de romance, suas inúmeras dores (essas que a fizeram cancelar sua vinda ao Rock in Rio desse ano dias antes de sua apresentação), seu carinhoso relacionamento com os fãs, os dramas de pessoas que estão ao seu redor passando por problemas de saúde sério, e a roda gigante de emoções que passa pela história de seu novo disco (uma homenagem a sua tia que faleceu aos 19 anos).  Ao longo de pouco mais de 90 minutos de filme, entendemos melhor essa complexa artista.

A cantora, descendente de italianos e com gigante personalidade possui uma rotina impactante, intensa, estressante. Sempre rodeada de pessoas que trabalham pra ela, qualquer ato fora da curva gera um grande estresse, muito por conta de um perfeccionismo amplo, talvez oriundo de sua marcante personalidade. Como parte de uma de suas composições mais famosas Bad Romance: Eu quero sua repulsão, Eu quero sua doença, Eu quero seu tudo, Gaga entrega uma doação de 100% em tudo que faz e as pessoas perto dela precisam entregar a recíproca. Muito ligada a família, vemos seu pai em vários momentos mesmo não dando depoimento, está lá perto dela. Um porto seguro para lembrá-la que ela é apenas uma jovem de 31 anos mesmo com o mundo nas costas 24 horas por dia.


Com tanta verdade mostrada, em meio a vulnerabilidades pouco divulgadas, Gaga, não só para seus milhões de fãs, mas para todos que gostem de música e não sabem mais a fundo sua história, mostra um milhão de razões para não deixarmos de conhecê-la mais, um milhão de razões para nunca desistirmos de seus shows. 

Crítica do filme: 'Gaga: Five Foot Two'

Ter um lugar pra ir é lar. Ter alguém para amar é família. Ter os dois é benção. Dirigido pelo cineasta Pedro Antonio (diretor também do filme To Ryca) ,  Um Tio Quase Perfeito é uma comédia que busca explorar o assunto família de maneira leve e com muitos tons de comédia. O roteiro é pouco inspirado, limitado, onde prevalece em algumas partes as improvisações de Majella. É muito mais do mesmo. Algumas comédias nacionais se assemelham em roteiros longe da criatividade, criando uma fábula simples, cheio de exageros onde tentam o riso forçado a todo instante. Um Tio Quase Perfeito encaixaria melhor no formato de série, ou média ou curta.

Na trama, conhecemos Tony (Marcus Majella), um largado na vida, sem comprometimento com nada nem ninguém que vive de aplicar golpes e ser estátua humana de personagens pelas ruas da cidade onde vive. Quando é despejado junto com sua mãe do apartamento onde moravam, precisa pedir ajuda a irmã distante, mãe de três filhos pequenos. Quando sua irmã precisa viajar e passar 15 dias longe de casa, Tony assume a responsabilidade da criançada e ao longo do tempo tentam se tornar uma verdadeira família feliz.

Em sua estreia como protagonista de um longa metragem, Majella se esforça para dar um ar cômico contido para seu inconsequente personagem. Um pouco inseguro nos arcos iniciais, parece que começa a tentar dominar o personagem já no desfecho. As transformações que o protagonista passa são cheias de lacunas abertas, algumas situações forçadas. O convívio com os filhos de sua irmã são o estopim de sua transformações mas o roteiro não dá muito profundidade para isso, apresentando de maneira rápida conclusões que deixam em aberto as fases dessa transformação.


Pouco explorado na trama, a questão da distância do pai, a luta de uma mãe agora solteira criando os três filhos sozinhos, eram temas que poderiam ter mais profundidade. Optam por inserir pitadas cômicas com exagerados diálogos e pouca harmonia com o que acontece na história. Mas o pecado maior do filme é que no quase stand up de Majella o roteiro não se sustenta.

Crítica do filme: 'Um Tio Quase Perfeito'