Seguindo fielmente a mesma fórmula de longas metragens como a trilogia Até que a Sorte nos Separe, o cineasta Roberto Santucci (do ótimo Alucinados) volta às telonas para contar a história de um camelô que descobre ser filho de um homem muito rico. Um Suburbano Sortudo tem um roteiro um pouco mais sólido que a maioria das comédias que já assistimos por aí e conta com a vantagem de ter, talvez, um dos melhores atores entre todos os protagonistas dos últimos sucessos de bilheteria no gênero comédia (talvez ao lado de Paulo Gustavo), Rodrigo Sant’anna. 

Na trama, conhecemos o simpático Denílson (Rodrigo Sant’anna), um camelô malandro que vive humildemente com sua excêntrica família no subúrbio do Rio de Janeiro. Certo dia, acaba descobrindo que é herdeiro de um famoso milionário, seu pai biológico, dono de uma grande rede de lojas e assim começa a mudar de vida. Mas nem tudo são flores, Denílson enfrentará a ira da outra parte da família de seu pai e ainda precisará enfrentar uma grande crise nas empresas que agora é dono.

Um dos pontos positivos do filme é a humildade de Sant’anna que mesmo sendo o protagonista e grande pilar da história, sabe ser coadjuvante nos complementos que o roteiro deixa como lacunas para subtramas. A história é bobinha, costurada de maneira bem simples, gera risos por conta da facilidade do protagonista em convencer o público com sua simpatia. Nem de longe é a melhor comédia já feita aqui no Brasil, nem de longe é um excelente trabalho mas a história como um todo gera uma curiosa simpatia se você consegue se prender a alguns detalhes, como por exemplo: nas pausas dramáticas (mesmo sendo bem poucas, verdade) o filme não exagera nas piadas e consegue passar bem, com boa criatividade. Não incomoda muito como nos filmes estrelados pelo comediante Hassum, por exemplo.

Com locações em Madureira e em alguns lugares do subúrbio do RJ, Um Suburbano Sortudo, deve ter uma boa carreira no circuito. Para quem quer se divertir, com um rostos familiares na telona , o filme pode agradar.

Crítica do filme: 'Um Suburbano Sortudo'

Os desejos da vida formam uma corrente cujos elos são as esperanças. Baseado em fatos reais, a partir do livro homônimo assinado por David Ebershoff, A Garota Dinamarquesa é o novo trabalho do premiado diretor britânico Tom Hooper (O Discurso do Rei). Eddie Redmayne faz o papel do protagonista mas quem domina o filme do  início ao fim é Alicia Vikander que dá um espetáculo em cena, merece muitos prêmios por seu impactante papel. Sua personagem é a força do filme, coloca a emoção até a última gota, uma mulher à frente de seu tempo, sem dúvidas.

Na trama, conhecemos o pintor dinamarquês Einar Wegener (Eddie Redmayne), um homem pacato, com senso cômico, que é casado com a bela artista Gerda (Alicia Vikander). Certo dia, resolve posar de mulher para sua esposa e instintos femininos escondidos começam a se manifestar ao longos dos dias seguintes, principalmente quando observa com admiração os gestos e trejeitos das almas femininas. Buscando uma maneira de entender sua situação, seus desejos e impulsos, procura médicos de todos os tipos. Chega até o absurdo da radiação. A explicação lógica da época para os atos de Einar era desequilíbrio químico, isso explicaria a dor, a confusão com a masculinidade e a infertilidade. Não havia nada de errado com o pintor, não havia necessidade de ser ‘curado’. Assim, encarando todo um preconceito da época, decide fazer uma cirurgia de mudança de sexo e passa a querer ser chamado de Lili.

Sua esposa entra em um verdadeiro colapso de emoções ao perceber que seu marido gosta e necessita se sentir uma mulher. Gerda acaba trazendo Lili de volta, quase sem querer, mas ela sempre esteve lá. Eddie usa e abusa da delicadeza e contrastes de emoções nesse difícil personagem.  O Einar do ganhador do último Oscar de melhor ator tenta manter um equilíbrio descontrolado em relação a parte emocional.  Era um papel muito difícil, ao longo da projeção parece que Eddie possa ter perdido um pouco o personagem ao longo das sequências. Quem segura as pontas e lacunas da história, é, sem dúvida, Alicia Vikander que acaba sendo os olhos do público para entender melhor essa curiosa trama.


Uma bela fotografia acompanha o longa-metragem ao longo dos seus 119 minutos de projeção. É um trabalho de arte bem bonito que deve ganhar um bom reconhecimento do público, principalmente pela dedicação com seus respectivos personagens dos artistas envolvidos. Lançado no Festival de Veneza 2014, A Garota Dinamarquesa não é, nem de longe, o melhor filme que consta na lista do Oscar deste ano mas é um longa-metragem que possui seus méritos e merece ser conferido.

Crítica do filme: 'A Garota Dinamarquesa'

É na fé que mora a força do homem. Tentando falar sobre o poder da fé em uma que seca castiga o Nordeste do Brasil, o cineasta paulista Homero Olivetto (que foi um dos roteiristas de Bruna Surfistinha) apresenta seu novo trabalho, Reza a Lenda. O filme é uma mistura de viagem religiosa psicodélica com revelações sobre o limite do acreditar em tradições. Com uma excessiva e estapafúrdia trilha sonora, o roteiro é indecifrável.  Além de uma terrível condução da trama, a maioria dos personagens com objetivos mal explicados dentro do contexto da história. Será que o filme é um Mad Max do sertão? Longe disso.

Na trama, um grupo de motoqueiros justiceiros, encabeçados por Ara (Cauã Reymond), Severina (Sophie Charlotte) e Pica-Pau (Jesuíta Barbosa) uns mais descontrolados que outros, colocam como objetivo vital, roubar uma santa conhecida na região. Assim, rumo ao objetivo, acabam provocando um acidente envolvendo carros da polícia e um carro de passeio com duas jovens. Eles abrigam uma das sobreviventes desse acidente o que transforma também a trama em um triângulo amoroso rapidamente.

O ato de introdução é acelerado, confuso, o segundo ato aparece mais claramente as imperfeições do roteiro. O ato final mostra que o roteiro é bem ruim por completo. Os diálogos possuem linhas de metáforas difíceis de terem analogia lógica com o que é apresentado ao longo dos 90 minutos de projeção. O vilão, interpretado por Humberto Martins, é o único que pelo menos tem algum sentido na história, com objetivos claros conseguimos entender sua função na trama.


Algumas sequências do longa-metragem são verdadeiros enigmas. O filme parece um template de celular quando abrimos o setlist de músicas e deixamos sendo reproduzidas aleatoriamente. Com tanto filme bom para entrar no circuito, perder tempo com filmes assim é complexo.

Crítica do filme: 'Reza a Lenda'

Quando escrito em chinês a palavra crise compõe-se de dois caracteres: um representa perigo e o outro representa oportunidade. Depois de dirigir em sequência Nicolas Cage e Al Pacino, Joe e Manglehorn respectivamente, o cineasta norte-americano David Gordon Green volta as telonas para dirigir uma história sobre o mundo político na América Latina, parte baseada em fatos reais que aconteceram, em 2002, na reeleição do presidente boliviano Gonzalo Sanchez de Lozada. No papel de protagonista está a queridinha atriz Sandra Bullock que mesmo alternando um tom dramático com pausas cômicas um pouco sem noção, é a melhor coisa do filme.

Na trama, conhecemos a articuladora política Jane (Sandra Bullock), uma mulher que após um trauma em uma de suas campanhas políticas resolve se aposentar e viver uma vida pacata longe das grandes cidades e grandes agitos. Certo dia, é procurada para assumir o comando na campanha de um candidato à presidência da Bolívia chamado Castillo (Joaquim de Almeida) que anda mal das pernas nas pesquisas pré-eleição. Usando toda sua experiência e tendo que enfrentar seu principal adversário de tempos passados, Pat Candy (Billy Bob Thornton), Jane usará todas suas armas para vencer as eleições.

Uma das coisas que incomoda neste trabalho, que tinha tudo para ser interessante, é a falta de personalidade da história. Momentos de dramas profundos, momentos rasos, comédias fora de tempo, o roteiro, assinado pelo ótimo Peter Straughan (O Espião Que Sabia Demais, Frank), parece um transatlântico prestes a naufragar a qualquer momento. A história, certas vezes, é jogada na tela não transpirando um pingo de empatia. As fichas para ser o elo com espectador recaem sobre Sandra Bullock e seu poder de convencer o público a gostar de suas personagens, mesmo assim muito pouco para dar sustentação à trama.


Baseado em partes, a partir de um documentário da cineasta Rachel Boynton, também intitulado Our Brand Is Crisis (no original), lançado em 2005, Especialista em Crise, com estreia marcada para o dia 31 de março no Brasil, é um daqueles filmes que esquecemos rapidamente. Soltamos risadas durante algumas cenas bem clichês e não conseguimos enxergar a profundidade em alguns momentos chaves da trama. Em breve na sessão da tarde.

Crítica do filme: 'Especialista em Crise' (Our Brand Is Crisis)

O pensamento é o ensaio da ação.  Dirigido pelo norte-americano Jay Roach (Entrando numa Fria), Trumbo – Lista Negra é um drama com altas pitadas cômicas que possui atuações  acima da média, um roteiro excelente e uma direção deveras competente. O projeto não deixa de ser uma grande homenagem ao cinema e um grande reconhecimento a esse excelente roteirista que por ano teve suas histórias bloqueadas pelo controle norte-americano anti-comunismo.

Na trama, conhecemos várias passagens da vida do roteirista Dalton Trumbo (Bryan Cranston), um escritor de sucesso que teve sua carreira em risco após ser perseguido pelo governo norte-americano acusado de comunismo. Ele esteve preso mas nunca parou de escrever e inacreditavelmente ganhou um Oscar de melhor roteiro, assinando com outro nome, ou, em outro caso, dando seu texto para que um colega assinasse. Além de ser uma figura que transpira simpatia, Trumbo contribuiu demais para o desenvolvimento da sétima arte não só nos Estados Unidos mas no mundo todo.

Perseguido por suas posições políticas, um escândalo na época, Trumbo lutava basicamente contra a criminalização do ato de pensar. O charme da época, muito bem retratada no filme, não apaga a mancha que foi a perseguição chamada de ‘A Lista Negra de Hollywood’: uma lista mantida pela indústria cinematográfica norte-americana à roteiristas, atores, diretores, para boicotar simpatizantes do Comunismo e os negar empregos.  Contando segundos, não minutos ou horas, o tempo na prisão levam Trumbo a um desgaste de emoções e desilusões. Nessa hora, principalmente, Bryan Cranston brilha e mostra todo seu talento, merecida sua indicação ao Oscar de Melhor Ator neste ano.

Uma batalha desproporcional jurídica também é ponto chave do filme, mostrando com detalhes toda a briga e polêmica que as acusações feitas causaram na época. O roteiro, assinado por John McNamara, baseado em fatos reais, narrados no livro Dalton Trumbo (1977), de Bruce Cook.  é muito bom e explica de cabo a rabo toda a trajetória desse icônico personagem do mundo da sétima arte. Vocês não podem perder este belo trabalho, dia 28 de janeiro nos cinemas!


Crítica do filme: 'Trumbo - Lista Negra'

Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente. Em seu primeiro trabalho em Hollywood, o cineasta brasileiro Afonso Poyart (Dois Coelhos) se exercita no gênero do suspense/drama sem perder suas características estéticas de direção no peculiar Presságios de um Crime. Protagonizado pelo mestre Anthony Hopkins, pelo sósia de Bardem (Jeffrey Dean Morgan), pela musa australiana Abbie Cornish e pelo ator Colin Farrell, o longa-metragem, que custou perto dos 30 Milhões de dólares, fala do inconsciente, quase um exercício nolaniano. A exploração desse tema com certeza deixa o filme mais interessante, principalmente quando percebemos estar em um duelo de Médiuns Videntes.

Na trama, conhecemos dois agentes do FBI, Joe Merriweather (Jeffrey Dean Morgan) e Katherine Cowles (Abbie Cornish) que são responsáveis por tentar capturar um serial killer que deixa algumas pistas indecifráveis nas cenas dos crimes cometidos. Buscando alguma luz nesse difícil caso, Joe procura o antigo colega John Clancy (Anthony Hopkins), um homem misterioso, já no final da vida, que tem dons médiuns, que passou por um grande trauma com sua filha. Assim, o trio vai aos poucos tentando decifrar o temido serial killer que utiliza a eutanásia como argumento.

O roteiro, assinado por Sean Bailey e Ted Griffin (Os Vigaristas), é um pouco confuso. No primeiro ato, muitas informações são arremessadas freneticamente. O público pode se sentir um pouco perdido principalmente nas lacunas abertas sobre a personalidade de Clancy. A partir do segundo ato, as peças são mostradas com mais clareza, e, no terceiro ato é um show de suposições, parece que cada personagem tem algumas opções para o desfecho da trama, isso certamente deixa o público curioso com o que irá acontecer nas cenas seguintes. O mais importante é que, no final, John Clancy é preenchido completamente, e assim a história como um todo se sustenta até o fim, nas costas deste intrigante personagem executado com maestria por Hopkins.


Solace, no original, é um drama disfarçado de filme de suspense, tem seus momentos de ação alucinante com muito uso de metáforas de imagens para elucidar o quebra cabeça emocional conseqüente do modo de pensar de cada personagem. A câmera é inquieta, repleta de efeitos que chamam a atenção, marca registrada do diretor que ficou conhecido no Brasil pelo ótimo longa-metragem Dois Coelhos

Crítica do filme: 'Solace' (Presságios de um Crime)

Ser gênio não é difícil. Difícil é encontrar quem reconheça isso. O novo trabalho do diretor ganhador do Oscar Danny Boyle chega forte na reta final da corrida ao Oscar mostrando para o espectador, de maneira intrigante e inteligente, várias facetas do co-fundador, presidente e diretor executivo da Apple, Steve Jobs. Na pele do gênio indomável, o também genial ator alemão Michael Fassbender que domina seu personagem com uma maestria aplicada, não o perde sequer um segundo. Para completar o ótimo elenco, Kate Winslet que dá mais um show em cena e tem muitas chances de ganhar o próximo Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante.

Na trama, conhecemos, em algumas partes, o conturbado mundo do multibilionário Steve Jobs  (Michael Fassbender). Desde sua meteórica expectativa criada no mundo da tecnologia, até sua difícil relação familiar, principalmente os conflitos sobre ser ou não ser o pai de sua filha biológica. Com várias passagens temporais e a adoção de alguns flashbacks construtivos, Steve Jobs é sem dúvidas um dos grandes filmes do ano. Belíssimo trabalho.

O longa-metragem parece uma peça teatral com alguns atos e, todos, muito bem definidos, nessas passagens vamos acompanhando momentos decisivos da vitoriosa carreira de Jobs. Baseado na obra Steve Jobs - A Biografia (2011), do autor Walter Isaacson, a mega produção é uma aula de cinema em todos os aspectos. A começar pelo elenco espetacular que contribui para que cada segundo do filme seja inesquecível. O roteiro também merece destaque (absurdo Aaron Sorkin não ser indicado ao Oscar de melhor roteiro), assim como a direção sempre competente de Boyle dando destaque para todas as características marcantes desse mito.


Mesmo com uma proximidade de lançamento em relação a um outro filme que fala sobre o gênio, Jobs (2013), essa produção que teve algumas indicações para o próximo Oscar é infinitamente superior em todos os aspectos. É impressionante como consegue durante 122 minutos prender a sua atenção com dezenas de diálogos que desejamos que nunca acabe. A história é tão bem contada que já no seu arco final vai deixando um gostinho de quero mais, e exatamente nesse momento vamos começando a nos perguntar e a argumentar: quem realmente foi Steve Jobs? Um gênio? Um sonhador solitário? Ou as duas coisas? 

Crítica do filme: 'Steve Jobs'

Falando sobre amizade e a descoberta da maturidade na adolescência, além dos mais primitivos instintos de sobrevivência, a nova animação da Disney O Bom Dinossauro é mais um daqueles filmes lindos usando a técnica de animação que comovem e fazem os olhinhos da criançada brilhar. O Bom Dinossauro dirigido pelo cineasta Peter Sohn, em seu primeiro longa-metragem, possui um roteiro bem básico, seguindo as regras de sucesso de outras animações. O longa-metragem, que estreou no circuito na última quinta-feira (07) não apresenta nada de novo, nem impactante, mas não perde o brilho e a emoção, características básicas das animações da Disney.

Na trama, ambientada dentro da hipótese de que na fase pré-histórica do planeta Terra um asteróide não caiu por aqui e os dinossauros não foram extintos, conhecemos a família do jovem dinossauro Aldo que luta diariamente para sobreviver em paz em um planeta selvagem cheio de animais enormes. Certo dia, o pai de Aldo acaba falecendo numa situação extrema e o jovem dinossauro resolve fazer uma expedição para conhecer melhor o planeta onde vive. Buscando uma coragem que não sabia que tinha e fazendo novas amizades, principalmente com o humano Spot, Aldo amadurecerá bastante nessa longa caminhada de descobertas.

O longa-metragem, que teve uma troca na direção, atrasando o filme em quase um ano, é um bom filme. Mesmo quando prefere não tentar atingir ao espetacular, adotando a não profundidade nos personagens e acreditando buscar pontos de interação através da fofura dos animais que percorrem todo o filme. Mesmo assim, a animação lançada no último dia (07) é repleta de emoção sugando todo o carisma de Arlo, o atrapalhado mini Dino protagonista.


Produzido por John Lasseter, diretor de animações da sequência Carros, o filme expõe boas lições sobre amizade, família e coragem. Fora do Oscar deste ano, O Bom Dinossauro é fofinho mas pode ser que seja facilmente esquecido, não possui nenhum características para ser marcante, mesmo assim é um bom filme.

Crítica do filme: 'O Bom Dinossauro'

Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente. Depois do mediano JFK, a História Não Contada, o cineasta Peter Landesman volta às telas de cinema, dessa vez, para contar uma história polêmica que envolve uma impactante descoberta da medicina e uma grande potência organizacional. Concussion, que no Brasil será Um Homem Entre Gigantes, é um ótimo drama que possui em suas atuações seus grandes pilares, principalmente de Will Smith na pele do carismático protagonista. De ponto negativo, a subtrama que mostra o relacionamento do protagonista com sua esposa é bastante rasa, o calcanhar de Aquiles da produção, praticamente não acrescenta nada para a trama.

Ao longo dos 123 minutos de projeção, vamos acompanhando um médico nigeriano chamado Bennet Omalu (Will Smith) que mora nos Estados Unidos faz anos, e que após um exame em um ex-jogador de futebol americano, descobre a encefalopatia traumática crônica (ETC) que, segundo os estudos realizados, muitos jogadores de futebol americano já tiveram, tem ou terão. Tentando alertar outros jogadores e a toda uma sociedade que idolatra o esporte, o médico, com a ajuda de outros profissionais que acreditam nesses estudos, resolve publicar um artigo em uma prestigiada revista científica. Assim, compra uma briga com uma potência de instituição esportiva, a NFL. Com a ajuda de sua recente esposa e dos amigos que acreditam em seu trabalho, Bennet lutará por tudo aquilo que acredita.

Se você sabe, você deve seguir adiante. O longa-metragem não deixa de ser uma grande caminhada de decepção de um homem contra o país que vive. Cheio de princípios e muito competente na sua área de atuação, o Doutor Bennet Omalu começa a ter momentos de reflexão sobre toda sua caminhada, seus sonhos de morar na América e a de muitos profissionais ao seu redor, a partir do momento que se vê muito pressionado por conta de sua descoberta que abala uma instituição mundialmente conhecida e multimilionária.

Will Smith está fantástico. Sem dúvidas sua melhor atuação em um longa-metragem nos últimos anos. Seu inspirador personagem emociona e transparece uma verdade comovente. Outro que está excelente é o camaleão incansável Alec Baldwin, que interpreta o Dr. Julian Bailes peça importante do quebra-cabeça da trama.


Este belo filme, que dá uma baita cutucada no esporte mais popular dos Estados Unidos, estreia no Brasil no dia 03 de março e promete agradar crítica e público. 

Crítica do filme: ' Concussion' (Um Homem Entre Gigantes)

Nós nos transformamos naquilo que praticamos com freqüência. A perfeição, portanto, não é um ato isolado, é um hábito. Lançado nos Estados Unidos no final do mês de setembro do ano passado e sem nenhuma previsão de estreia em nosso circuito, Pawn Sacrifice conta a história de uma lenda do Xadrez que esteve metido em ‘jogos políticos’ durante a famosa guerra fria. No papel principal, o eterno homem-aranha Tobey Maguire (que também produziu o filme) que às vezes meio exagerado, e sem tornar o protagonista uma figura com grande carisma, deixa o filme muitas vezes sonolento, já que é o grande pilar da trama. Nem a competente direção do craque Edward Zwick consegue deixar o filme atraente aos olhos cinéfilos.

Na trama, que não deixa de ser uma cinebiografia, conhecemos com mais detalhes a vida de Robert James Fischer, o Bobby Fischer (Tobey Maguire), uma lenda do xadrez mundial que nasceu em Chicago mas logo se mudou para Nova Iorque onde passou a freqüentar vários clubes de xadrez. Desde a adolescência sendo tratado como um grande gênio do tabuleiro, durante a Guerra fria, mais precisamente em 1972, resolveu lutar pelo título mundial e em uma épica batalha, venceu o campeão russo Boris Spassky (Liev Schreiber). O filme mostra parte do caminho de Fischer até essa batalha, com seus problemas sociais e suas paranóias constantes.

Não é que o filme seja ruim, longe disso. Mas ele não consegue prender a atenção nos seus momentos importantes. Talvez falte uma sagacidade ao roteiro e atuações um pouco mais inspiradas de Tobey Maguire e Liev Schreiber. O primeiro ato do filme é bastante corrido, a relação com sua mãe não é muito bem explorada, são deixadas lacunas que não são respondidas e que ajudariam a compreender melhor as ações do protagonista. A relação da irmã de Fischer com o enxadrista também é mal encaixada na trama, servindo apenas como enfeite de clichê já no ato final da história. Essa aceleração das relações familiares do ex=campeão mundial de xadrez, para se chegar logo na luta de tabuleiro com Spassky, é bastante atrapalhada, acabam ficando peças pelo caminho.


Pawn Sacrifice, conforme mencionado na introdução, ainda não tem nenhuma data de estreia aqui no Brasil. Não sei se é um filme que poderia dar certo, poderia ter sido melhor explorado no foco entre as grandes duas potências da época em que é ambientado. Parece que um abre alas foi feito para que a atuação do protagonista brilhe mas essa luz não acende em nenhum momento, acaba levando um xeque-mate. 

Crítica do filme: 'Pawn Sacrifice'



A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais. Dirigido pela dupla Anna Boden e Ryan Fleck, Mississippi Grind poderia ser mais um filme sobre jogos senão fosse a carismática complexidade da relação de amizade da dupla de protagonistas interpretada por Ryan Reynolds e Ben Mendelsohn. O longa-metragem que estreou em agosto nos Estados Unidos é bem honesto ao retratar o cotidiano de aflição de uma pessoa viciada em apostas de todos os tipos. 

Na trama, conhecemos Gerry (Ben Mendelsohn) um homem à beira do fracasso que vaga pelas noites da cidade onde vive apostando tudo, e praticamente o que não tem, em diversas mesas de jogos de apostas diferentes. Certo dia, em uma mesa de pôquer, conhece Curtis (Ryan Reynolds) um simpático falastrão que logo de cara fica amigo de Gerry. Ambos resolvem realizar uma espécie de Road Trip em busca de dinheiro. Entre uns drinks e outros, entre as mais diversas mesas de poker e jogos de azar dos Estados Unidos, a dupla de amigos faz uma viagem rumo à liberdade da solidão.

A alma da trama é a peculiar relação que se estabelece entre os dois personagens. É uma relação de amizade mas com mentiras de ambas as partes, embora, desde sempre, pareça que um precisa do outro. É quase um equilíbrio mútuo que vemos ao longo das sequências. O público interage o tempo todo com o que se passa na telona, a dupla de atores esbanja carisma em cena, o que facilita a comunicação da história com o espectador. Um, é tímido, tem problemas sérios com dinheiro, fruto de seus pesadelos de ansiedade com qualquer forma de aposta. O outro, além de não ter o dedinho do pé, é uma alma com grandes mistérios, quase indecifrável. 

Dois amigos de personalidades completamente diferentes que se cruzam quase por acaso em uma mesa de pôquer. Trama simples? Nem tanto! Roteirizado pelos próprios diretores, Mississippi Grind foge dos clichês usando a peculiaridade de seus protagonistas aliado a um toque refinado na direção, além de possuir uma trilha sonora magnífica, clássicos do jazz instrumental são incorporados às cenas em diversos instantes.

Ainda sem previsão de estreia no nosso circuito, Mississippi Grind (infelizmente) tem poucas chances de chegar por aqui. O filme é ótimo e se tiver oportunidade, não deixe de assistir. Muitas vezes pensamos nos objetivos de embarcar em uma jornada mas muitas vezes a própria viagem é o destino.

Crítica do filme: 'Mississippi Grind'

O perfeccionismo é um perigoso estado de espírito em um mundo imperfeito. Baseado em uma história de Michael Kalesniko, Burnt (Pegando Fogo) é mais um daqueles filmes onde se tem uma boa idéia, um roteiro até certo ponto interessante, com um personagem forte mas uma certa demasia de clichês acabam ofuscando um pouco o fulgor do arrevesado protagonista. Dirigido pelo experiente produtor John Wells (Álbum de Família), o longa-metragem que teve quase Keanu Reeves no papel principal, dá até água na boca quando pensamos nos maravilhosos pratos que desfilam ao longo dos 101 minutos de projeção mas falta um pouco o aprofundamento dos coadjuvantes personagens na trama para ser uma degustação cinéfila completa.

 Na trama, conhecemos o brilhante chef de cozinha Adam Jones (Bradley Cooper), um homem com um passado conturbado regado à brilhantismo, babaquices com outros colegas de profissão e vícios que o foram afundando ladeira à abaixo. Depois de passar meses sumido, tentando uma espécie de reabilitação em forma de jornada pessoal, volta a um grande centro culinário que é Londres e tenta cumprir um novo objetivo: conseguir a sua terceira estrela Michelin (algo como o Oscar da culinária mundial). Para isso, reúne uma competente equipe e conta com a ajuda Tony (Daniel Brühl) um amigo do passado.

Burnt (Pegando Fogo) é a prova que muitos clichês em um filme podem destruir totalmente uma receita de sucesso. Mas antes de chegar aos exageros que a produção comete, começamos com o lado forte da história com um protagonista que chama a atenção pelo perfeccionismo e dedicação em uma profissão amada por todos. Bradley Cooper incorpora com competência seu difícil personagem, explorando principalmente suas emoções quando a ‘chapa esquenta’, no rigoroso cotidiano dos chefs das melhores cozinhas mundo à fora. A falta de elementos de contorno ao personagem, esclarecimentos de seu passado e interações com os coadjuvantes acabam deixando a fita não rica para o público explorar com mais vontade a história.

Os clichês infelizmente comandam um pouco da receita do filme. Fora da cozinha parece que o roteiro prefere navegar em águas chatas, constantemente já vista em outras produções hollywoodianas. Um dos fatos que chama a atenção foi praticamente anular o ótimo Daniel Brühl, não dando a chance do mesmo explorar com mais força seu personagem que podia e devia ser mais interessante para a história.


Mesmo se tornando uma historinha água com açúcar com os passar dos minutos, Burnt (Pegando Fogo) pode se sustentar na magia que tem o ato simples de cozinhar, e essa determinação na cozinha do chef Adam Jones faz pelo menos o público ficar com certa atenção na telona. O que deixa triste os cinéfilos é que a trama poderia ter uma melhor evolução.

Crítica do filme: 'Burnt (Pegando Fogo)'