Baseado na autobiografia La Bomba, do escritor José Antonio Gurriaran, Uma História de Loucura traz uma luz histórica sobre uma guerra cruel entre turcos e descendentes de armênios, acontecimentos pouco explorados em livros de história mundial aqui no Brasil. A direção do filme é do excelente cineasta francês Robert Guédiguian (As Neves do Kilimandjaro) que consegue com muita delicadeza e objetividade mostrar ao espectador uma visão bastante completa sobre o conflito tendo em seus contornos uma poderoso história de uma mãe em busca de uma certa redenção para seu perdido filho.

Na trama, ambientada no início dos anos 80, conhecemos uma família descendentes de armenos que mora na França e que costuma não esquecer sua cultura e suas tradições. Mas quando o filho mais velho, Aram (Syrus Shahidi) participa de um atentado contra o embaixador turco em Paris (que deixa um civil francês muito ferido), foge e se une ao exército secreto da Libertação da Armênia em Beirute, a mãe Anouch (interpretada pela sempre maravilhosa Ariane Ascaride) parte em busca de uma jornada de redenção não só para seu filho, mas também para sua família.

Exibido no prestigiado Festival de Cannes no ano de 2015, os maiores méritos deste grande trabalho são por conta da maneira como é contado esse drama. O filme se justifica como sendo um grande aulão de história mundial, ramifica em subtópicos as razões do conflito, possui uma introdução essencial e bastante criativa onde começamos a mergulhar dentro do contexto que cerca toda a trama. As atuações também são grandes destaques, principalmente Ariane Ascaride que mais uma vez mostra porque é uma das melhores atrizes de sua geração.


O clímax percorre todos os 134 minutos de projeção, mesmo tendo um contexto histórico forte, na maior parte do tempo, em todos os atos, o foco passa a ser dividido com a força da subtrama da mãe em busca de lacunas preenchidas para as verdades de seu filho. O conflito entre o civil machucado pelos atos de Aram e a razão em forma de carinho adotada como postura por Anouch é um conjunto de cenas inesquecíveis para os cinéfilos.

Crítica do filme: 'Uma História de Loucura'

Dirigido pela cineasta sueca Beata Gårdeler, o longa metragem Flocken, Urso de Cristal no Festival de Berlim de 2015, conta uma forte e bastante dramática trama onde a verdade vale menos que a força de uma família em uma comunidade. Com semelhanças com o sensacional filme dinamarquês A Caça, do dinamarquês Thomas Vinterberg, Flocken possui uma narrativa densa e com altas cargas dramáticas ao longo de seus fortes diálogos e acontecimentos. Destaque para a boa atuação da estreante em longas metragens Fatime Azemi que faz a protagonista do filme.

Na trama, conhecemos a jovem Jennifer (Fatime Azemi), uma estudante do ensino médio que após uma festa no vilarejo onde vive denuncia que foi abusada por um jovem de sua idade chamado Alex (John Risto), filho de uma influente família da região. Assim que todos na comunidade onde vivem ficam sabendo da denúncia, Jennifer vira a vilã da história pois todos acreditam que Alex nunca poderia ter cometido uma violência desse tamanho. Assim, ao longo de todo o processo de denúncia, Jennifer e sua família sofrerão dolorosamente punições da comunidade onde sempre viveram.

A trama é bem objetiva, foca e se mantém no clímax do processo de denúncia da jovem sobre o ocorrido. Os detalhes deixados para o público vão aos poucos se complementando, principalmente nas atitudes do personagem Alex e de sua mãe Susanne (interpretado pela ótima Eva Melander). A família de Jennifer também é bem explorada, do meio pra frente da fita sua mãe começa a ter papel importante dentro da história, além de ser uma das que mais sofre com o preconceito da cidade contra sua família por conta da denúncia. É um trabalho bem competente de Gårdeler na direção, consegue ao longo de toda a trama explorar toda uma comunidade que se envolve com o caso e que nunca parou para explorar os fatos e acreditar que na verdade quem é o vilão é Alex e não Jennifer.


Esse bom filme infelizmente não ganhou chances em nosso circuito, se você tiver a chance de conferir, não perca.

Crítica do filme: 'Flocken'

Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe. Escrito e dirigido pelo pouco conhecido ator e também cineasta Matt Ross, Capitão Fantástico é um daqueles filmes que deixam nosso coração na boca, faz nosso raciocínio brilhar e mexe intensamente com nosso modo de ver e viver tudo que aprendemos até hoje em nossas vidas. Exibido no Festival do Rio deste ano e com uma atuação brilhante do grande ator nova iorquino Viggo Mortensen, o longa metragem de objetivos 118 minutos é, sem dúvidas, o melhor filme do ano até agora.

Na trama, conhecemos Ben (Viggo Mortensen) e sua família para lá de diferente. Ben e sua esposa resolveram criar os seus seis filhos em um lugar muito bonito e longe da sociedade, deixando eles distantes de qualquer contato com as novidades e besteiras do mundo e sua globalização. Quando sua esposa, que precisou ser hospitalizada por conta de uma doença terrível, falece, Ben resolve ir até o encontro dela e leva junto seus filhos. Após o choque natural da criançada com o mundo da maioria das pessoas que os cercam mais que nunca tiveram contato, o capitão fantástico desta turma terá que fazer escolhas difíceis e confrontar pessoas que consideram seu modo de vida prejudicial aos seus filhos.

A educação exige os maiores cuidados, porque influi sobre toda a vida. Pensador desse lema, o protagonista criou seus filhos com rigidez e muita disciplina. Livros complexos são passados como dever de casa para todas as crianças, não importa a idade. As verdades são uma só e vários tabus de outras casas, para Ben, são apenas verdades que precisam ser ditas da única maneira que existe. O ambiente é de total harmonia, músicas (a cena da família cantando ‘Sweet Child o’Mine’ é emocionante e arrepia), brincadeiras mas também alguns excessos como exercícios físicos que não respeitam idade e que podem machucar. O personagem principal é intenso em seus princípios, a ideia de ter uma família vivendo longe dos vícios e futilidades, além dos alimentos que só prejudicam, é vivida intensamente mas falta equilíbrio, no fundo, Ben sabe disso.


No terceiro arco em diante, a mudança começa a acontecer. Ben, personagem complicado, de bom coração, interpretado com maestria por Mortensen se vê cercado de situações que o fazem repensar alguns de seus conceitos. Seus filhos, sua única riqueza nesse mundo, percebem rapidamente e o ajudam nesse momento de transição, transformando uma linda história em uma história inesquecível.  Capitão Fantástico é algo assim, único, um presente para quem gosta de se emocionar com filmes que mexem com nosso coração. A grande lição que aprendemos com essa fita é que Capitão Fantástico é qualquer um que acredita que uma boa ideia pode mudar um pouquinho nosso mundo, ou mesmo que um filme inesquecível faz com que reflitamos sobre nossa própria existência. Seja o Capitão da sua vida, viva fantasticamente. Bravo! :) 

Crítica do filme: 'Capitão Fantástico'

O medo tem alguma utilidade, mas a covardia não. Baseado na obra do escritor Philippe Djian, o novo trabalho do ótimo cineasta holandês Paul Verhoeven  (RoboCop - O Policial do Futuro, Instinto Selvagem, Zwartboek) , Elle, que concorreu a Palma de Ouro em Cannes esse ano, é uma jornada, um tanto quanto psicológica, que coloca em discussão o medo e a frieza em lados apostos. Protagonizado pela sempre extraordinária atriz francesa Isabelle Huppert (que mais uma vez dá um espetáculo em cena) e um elenco pra lá de primeira, o longa metragem pode ser considerado um grande quebra cabeça onde vamos montando as peças pelas deixas do roteiro e pelos caminhos trilhados pela lente inteligente, totalmente presa aos detalhes, de Verhoeven.

Na trama, conhecemos a fria e solitária empresária do mundo dos games Michèle Leblanc (Isabelle Huppert), uma mulher de personalidade que possui um único filho, totalmente diferente dela. Certo dia, após deixar um gato entrar em sua casa, um homem mascarado aproveita a situação e a violenta. Tentando lidar com o ocorrido, Michèle se cala, não vai à polícia e conta para poucas pessoas o ocorrido mas começa a ligar o alerta e desconfiar de que o seu estuprador é alguém que ela conhece.

Ao longo dos intensos 130 minutos de projeção, Verhoeven joga o público em uma trama recheada de pequenos segredos que sempre circula em um tom de suspense. Nossos olhos é uma protagonista complexa, que poucas vezes se viu na posição de fragilidade que se encontra. Sua relação moderna, quase de irmã, com sua melhor amiga Anna (Anne Consigny) e sócia no negócio de games é regada a uma traição, já que Michele tem um caso de longa data com o marido de Anna. Sua relação quase de desespero com seu único filho Vicent (Jonas Bloquet), um jovem com problemas que se casou com uma mulher mais problemática que ele e Michele entra em conflito sempre com os dois. O ciúme adolescente que Michele possui de seu ex-marido Richard (interpretado pelo ótimo Charles Berling) que namora uma mulher mais jovem. Muito controladora de sua vida e dos que a cercam, a transição da personagem vai acontecendo ao longo da projeção.


Às vezes filmes de suspense, às vezes um drama, às vezes uma história de sedução. Elle pode ser visto por várias óticas. Verhoeven apresenta seu melhor, a todo tempo esperamos o desenrolar dos fatos na cena seguinte, são 130 minutos de projeção que nem vemos o tempo passar. Huppert desfila mais uma vez para o coração dos cinéfilos, uma atuação magistral em uma personagem cheia de complexidade e imperfeições. Elle estreia no dia 17 de novembro e é um dos grandes filmes do ano, não percam! Bravo! 

Crítica do filme: 'Elle'

Não somos responsáveis pelas emoções, mas sim do que fazemos com elas. Em seu primeiro longa-metragem como diretor, o roteirista e produtor norte americano Dan Fogelman logo de cara tem a difícil missão de dirigir, talvez, o maior ator de cinema em atividade, Al Pacino. Contando a história, baseada em alguns trechos numa história real, de um decadente músico que vê sua vida mudar de rotina quando resolve acertar suas contas com o passado , Não Olhe para Trás mais uma vez mostra todo o talento e carisma de Pacino embasado em um roteiro bem sincero e que transpira verdade. Quem ganha somos nós cinéfilos, por termos a honra de sermos do mesmo tempo de um dos grandes artistas de toda a história da indústria cinematográfica mundial.

Na trama, conhecemos o famoso cantor Danny Collins (Al Pacino), um homem que vive de fama, whisky, shows e drogas faz 40 anos.  Sem lançar um novo sucesso por bastante tempo e sem ter muitas esperanças em seu futuro, após receber de presente uma carta que John Lennon escreveu para ele anos atrás e que ele não sabia, resolve embarcar em uma jornada comovente buscando resolver positivamente seu relacionamento com seu único filho Tom Donnelly (Bobby Cannavale). Nessa jornada, acaba reencontrando sentimentos que estavam perdidos em seu cotidiano, um deles, quem provoca é a gerente de hotel Mary Sinclair (Annette Bening), por quem Danny criará sentimentos fortes.

A honestidade com quem é executada essa bela história é um dos fatores mais preponderantes para o sucesso da trama. Fora o carisma de outro planeta de Pacino, Benning e Cia, a direção de Fogelman, extremamente cuidadosa e detalhista, também nos levam para dentro do que acontece nas cenas. Os diálogos são bastante emotivos durante boa parte do filme, o roteiro visa o amor como forma de perdão e como forma de auto descobertas. Questões são expostas e respostas ficam em aberto, trazendo cada vez mais o público para próximo de uma realidade totalmente possível.


Os arcos são muito bem definidos, vemos uma apresentação rápida e um exalar de carisma absurdo do protagonista em um primeiro momento, depois somos apresentados às mudanças que aconteceriam e logo em seguida uma conclusão cheia de pontos de interrogações que são preenchidas pelo veredito do público e sua interação com cada personagem. Não Olhe para Trás ficou pouco tempo em circuito nas salas de cinema brasileiras, merecia mais. Para você quem não assistiu, não perca. Tem até no Netflix. Vale a pena! J

Crítica do filme: 'Não Olhe para Trás'



O risco de uma decisão errada é preferível ao terror da indecisão. Dirigido pelo cineasta espanhol Jaume Collet-Serra (diretor do conhecido A Orfã), o suspense/thriller/terror Águas Rasas é um trabalho muito interessante que explorar com eficácia e objetividade uma situação inusitada vivida por uma turista surfista em uma praia paradisíaca completamente longe de casa. O clima de tensão que o filme consegue passar é o grande fator X para que a produção abra um belo sorriso nos cinéfilos, aliado a uma atuação bastante convincente da esposa do Deadpool (Ryan Reynolds), e ex- Gossip Girl, Blake Lively.

Na trama, conhecemos a carismática Nancy (Blake Lively), uma jovem estudante de medicina que resolve visitar uma praia paradisíaca que foi importante na trajetória de sua mãe já falecida. Chegando no lindo lugar resolve ir surfar e acaba sendo atacada por um terrível tubarão. Sua sorte é que conseguiu ficar presa em algumas pedras e usando muita criatividade e ativando toda sua essência corajosa, a jovem terá que ultrapassar todos os seus medos e bolar um plano para sair dessa difícil situação. 

Quando o tubarão não rouba a cena, sabemos que o filme tem boas possibilidades de dar certo. A história é muito simples e nada muito além do possível é explorado pelas inteligentes lentes de Collet-Serra. O roteiro brinca com nosso imaginário conseguindo com que pensemos como seria nossas atitudes se tivéssemos dentro de uma situação similar. Blake Lively cresce em sua atuação a cada minuto, explorando as emoções mais conflitantes que a situação acaba gerando.  O único pesar é que a fita é curta, não se consegue detalhar com mais precisão a relação da jovem com sua família, talvez um ponto importante que não deram muita importância mas nada também que atrapalhe o desenvolvimento da interação do público com o filme. 

Águas Rasas estreou no Brasil e fez sucesso entre os cinéfilos mundo a fora. Se ainda não viu, vale a pena conferir.

Crítica do filme: 'Águas Rasas'



Pelo dever do correto uma vida pode virar duas. Protagonizado pelo eterno protagonista de um dos maiores seriados de todos os tempos, Breaking Bad, Bryan Cranston, Conexão Escobar tinha tudo para ser um baita filme mas acaba se perdendo por absorver vícios cinematográficos hollywoodianos em uma história que deveria ter sido contada de maneira simples e objetiva. Dirigido pelo cineasta norte americano, Brad Furman (O Poder e a Lei), o filme estreou no circuito brasileiro e sumiu das salas de cinema rapidamente. 

Na trama, baseado em fatos reais, ambientado em meados da década de 80 na flórida, conhecemos o experiente policial , Robert Mazur, (Bryan Cranston), um especialista em trabalhos disfarçados que resolve não aceitar a aposentadoria e fechar seu currículo com o maior desafio de sua vida, prender uma rede de banqueiros e investidores ligados ao narcotráfico colombiano que age nos Estados Unidos. Mas a missão não será fácil e para tal, precisará da ajuda da novata agente Kathy Ertz (Diane Kruger) e do extravagante agente Emir Abreu (John Leguizano).

Filmes sobre policiais que marcaram época em seus departamentos por atuarem disfarçados contra o crime organizado não é algo raro no mundo do cinema, fazendo com que uma certa originalidade/personalidade em algo assim tão visado seja necessária para o título não se tornar apenas mais um filme do gênero. Conexão Escobar tem uma estrutura excelente que é muito mal aproveitada e impressionantemente mal aproveitada. A cereja do bolo (O protagonista não consegue passar aquela empatia necessária para o espectador comprar a história. 

Falta clímax, explorar os momentos de virada na trama, focar no núcleo familiar de Mazur e sua relação complicada com sua esposa Evelyn ( interpretada pela ótima Juliet Aubrey). O longa deixa muito a desejar. O roteiro é baseado no livro O Infiltrado, do agente federal Robert Mazur (protagonista da trama). Podemos apostar ‘All in’ que o livro é melhor que o filme.

Crítica do filme: 'Conexão Escobar'