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18/05/2021

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Crítica do filme: 'Alelí'


A realidade que não se pode negar. Indicado do Uruguai ao último Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Alelí, que também teve exibições na edição de 2019 do Festival do Rio de Cinema, nos apresenta uma família cheia obstáculos em suas relações que precisam se decidir sobre o destino de uma casa de praia deles depois que o patriarca falece. Como as memórias daquele lugar são sentidas/revistas de diversas formas e maneiras diferentes, o roteiro busca apresentar ao espectador uma abordagem sobre o luto dentro das óticas distintas dos três irmãos em momentos completamente diferentes na vida. Escrito e dirigido por Leticia Jorge Romero e com a participação da ótima atriz Mirella Pascual (do emblemático filme Whisky). Disponível na Netflix.


Na trama, conhecemos três irmãos que precisam se reunir para resolver sobre uma questão envolvendo uma casa, quase nunca usada pela família, que está sendo assediada para virar um condomínio. Ernesto (Néstor Guzzini), o irmão homem, implicante que não consegue fugir do seu jeito quase caricato e ranzinza. Silvana (Romina Peluffo) é a irmã mais nova, depressiva, hipocondríaca que terminou com o namorado recentemente e parece completamente sem rumo na vida, a irmã mais velha, Lílian (Mirella Pascual), parece não se importar muito com as lembranças e só pensa no dinheiro que vai arrecadar. Assim eles precisam se decidir em meio a lembranças e um certo descontrole emocional ativado pelas lembranças daquele local.


O personagem mais bem desenvolvido, Ernesto, acaba sendo o protagonista, já que o epicentro voltado para a mãe Alba (Cristina Morán) é deixando de plano de fundo. O filho não se esquece das memórias do pai, seu grande ídolo e referência, talvez daí seu jeito beirando ao inconsequente após o falecimento dele. Entra em uma vibe bem ruim de falta de otimismo e os abalos que já traz do casamento enfraquecido com a esposa e um distanciamento, provocado por temperamentos de ambos os lados, de suas irmãs, além do conflito de que não saber o que fazer com a mãe já bem idosa (levar a um asilo ou ficar com ela na sua casa).


Há pausas reflexivas bem densas o que faz o roteiro se chocar com o desequilíbrio deixando a narrativa lenta e sem muito sentido em alguns momentos. Quase sempre, o roteiro parece um pouco perdido que nem quase todos os personagens. Há uma precariedade no desenvolvimento desses, talvez, camuflado pelo carisma dos atores em cena. Sim, esse é um filme onde os artistas em cena levam o filme nas costas.

 

 

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29/04/2021

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Crítica do filme: 'O Homem que Vendeu sua Pele'


Quais os limites da arte? Existe? Quais os limites do ego humano? Existe? Indicado ao Oscar na categoria de Melhor filme estrangeiro pela Tunísia, ficando entre os cinco finalistas inclusive, O Homem que Vendeu sua Pele, escrito e dirigido pela cineasta tunisiana Kaouther Ben Hania, faz paralelos com a realidade, sobre a liberdade, criando brechas importantes para falar de um assunto muito importante: dos refugiados. É o segundo trabalho da diretora em um longa-metragem de ficção.


Na trama, conhecemos Sam (Yahya Mahayni), um homem apaixonado que após uma exposição de alegria ao lado do amor de sua vida (mas essa já com casamento pronto com outro homem) em um trem acaba tendo que entrar em rota de fuga de seu país (Síria) e acaba indo para o Líbano. Chegando lá consegue alguns bicos e acaba conhecendo Jeffrey Godefroi (Koen De Bouw) um artista Belga que ao lado de sua assistente Soraya (Monica Bellucci) que  propõe ao protagonista um contrato para ‘ceder’ as costas dele para se tornar uma obra de arte. Assim, precisando do dinheiro e querendo chegar na Europa (onde está o amor de sua vida) Sam resolve aceitar e acaba virando praticamente uma peça de museu o que gera conflitos e revolta de seus parentes e de toda a comunidade de ativistas de direitos humanos.


Há um grande tom de crítica bem evidente em todo o andamento da narrativa que foca nas escolhas do protagonista mas tende ao lado do amor com grandes arcos sobre a relação conturbada dele com a mulher de sua vida o que acaba deixando um pouco confusa as subtramas sobre direitos humanos.  O próprio personagem principal é bastante confuso não se desprende de tentar reconquistar seu amor e embarca em uma jornada quase inconsequente onde precisa medir na balança seu papel em um grande contexto social mundial que muitas vezes para ele passa batido, não interessando encontrar alguma solução para isso, entrando em modo conformista, acomodado.


Kaouther Ben Hania executa um bom trabalho na direção. Mesmo com o roteiro tendo altos e baixos, O Homem que Vendeu sua Pele levanta questionamentos importantes gerando ondas de reflexão e abrindo os olhos de todos que conseguem alcançar nas entrelinhas as mensagens que o filme carrega.




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25/04/2021

Palpites para o Oscar 2021


Demorou um pouquinho mais esse ano (inclusive foi quase no dia do meu aniversário), enfim chegou aquele dia que nós amantes da sétima arte adoramos, a cerimônia do Oscar! Em 2021, todo o formato de apresentação e entrega dos prêmios será bem diferente dos outros anos por conta da pandemia que vivemos.


Nesse ano, ótimos e alguns fracos filmes fazem parte das disputas em algumas categorias. A mais disputada categoria desse ano, sem dúvidas é a de Melhor Atriz, com cinco belíssimas atuações e sem nenhuma favorita. Na própria categoria Melhor Filme está bem indefinida a situação. Em outras categorias o prêmio já é quase certo.


Pelo blog, você encontra textos de quase todos esses filmes da lista.


Abaixo, seguem meus humildes palpites de quem eu acho que deveria ganhar e quem eu acho que ganhará a tão sonhada estatueta do Oscar nas principais categorias:

 

 

Melhor filme


"Meu pai"

"Judas e o messias negro"

"Mank"

"Minari"

"Nomadland"

"Bela Vingança"

"O Som do Silêncio"

"Os 7 de Chicago"

 

 

Quem eu acho que ganha: Nomadland

Quem eu acho que deveria ganhar: O Som do Silêncio

 

Como dito acima, essa é uma categoria bem disputada esse ano. Tem ótimos filmes nessa lista: Meu Pai tem uma maravilhosa atuação de Anthony Hopkins que leva o filme; Mank é o tipo de filme que a academia adora; Minari surge como uma grata e boa surpresa; Bela Vingança tem um trabalho de direção, roteiro e atuação excelentes; O Som do Silêncio é um dos indicados que mais emocionam o público com uma atuação pulsante de Riz Ahmed; Judas e o Messias Negro conta uma história real de maneira bastante honesta e conta com atuações excelentes de Daniel Kaluuya e Lakeith Stanfield; Os 7 de Chicago é um filme que até certo ponto divide opiniões mas não deixa de ser um impactante achado histórico com ótima atuação de Sacha Baron Cohen; Nomadland é um filme que a academia gosta e mostra toda a técnica fantástica de uma das melhores diretoras da atualidade e de uma das melhores atrizes do cinema norte-americano.

 

 

 

Melhor atriz


Viola Davis - "Avoz suprema do blues"

Andra Day - "Estados Unidos Vs Billie Holiday"

Vanessa Kirby - "Pieces of a woman"

Frances McDormand - "Nomadland"

Carey Mulligan - "Bela vingança"

 

 

Quem eu acho que ganha: Carey Mulligan

Quem eu acho que deveria ganhar:  Todas as cinco.

 

 

Como mencionado acima, a categoria indecifrável da noite. Todas as cinco artistas podem vencer esse prêmio e o melhor de tudo: será mega justo!

 


Melhor ator


Riz Ahmed - "O som do silêncio"

Chadwick Boseman - "A voz suprema do blues"

Anthony Hopkins - "Meu pai"

Gary Oldman - "Mank"

Steve Yeun - "Minari"

 

 

Quem eu acho que ganha: Chadwick Boseman

Quem eu acho que deveria ganhar:  Anthony Hopkins

 

Devem premiar Chadwick Boseman, por uma de suas melhores atuações na curta carreira. Mas nada é mais impactante nessa categoria do que a atuação de Anthony Hopkins, sem palavras para definir. 

 

 

Melhor direção


Thomas Vinterberg - "Druk - Mais uma rodada"

David Fincher - "Mank"

Lee Isaac Chung - "Minari"

Chloé Zhao - "Nomadland"

Emerald Fennell - "Bela vingança"

 

 

Quem eu acho que ganha: Chloé Zhao

Quem eu acho que deveria ganhar:  Chloé Zhao

 

 

Essa categoria para mim é a mais fácil. É impactante a direção de Chloé Zhao, além disso é lindo ver duas candidatas mulheres e competentes nessa categoria. Tem nem discussão: Zhao vence e merece! Menção honrosa para Vinterberg e seu excelente Druk (talvez o melhor filme nas listas desse Oscar, pena não ter sido indicado para Melhor Filme).

 

 

Melhor atriz coadjuvante


Maria Bakalova - "Borat: fita de cinema seguinte"

Glenn Close - "Era uma vez um sonho"

Olivia Colman - "Meu pai"

Amanda Seyfried - "Mank"

Youn Yuh-jung - "Minari"

 

 

Quem eu acho que ganha: Maria Bakalova ou Youn Yuh-jung

Quem eu acho que deveria ganhar:  Amanda Seyfried

 

 

A disputa está entre a atriz húngara Maria Bakalova, intérprete de uma personagem chave no segundo filme do personagem criador por Sacha Baron Cohen e a atriz norte-coreana Youn Yuh-jung pelo seu comovente papel em Minari. Mas tenho que comentar a atuação de Amanda Seyfried, a melhor de sua carreira, é o oásis em Mank, um filme bem mediano mas que cresce quando Seyfried aparece.

 


Melhor ator coadjuvante


Sacha Baron Cohen - "Os 7 de Chicago"

Daniel Kaluuya - "Judas e o messias negro"

Leslie Odom Jr. - "Uma noite em Miami"

Paul Raci - "O som do silêncio"

Lakeith Stanfield - "Judas e o messias negro"

 

 

Quem eu acho que ganha: Daniel Kaluuya

Quem eu acho que deveria ganhar:  Sacha Baron Cohen

 

 

Tem um fato meio esquisito nessa categoria. Os dois atores de Judas e o Messias Negro serem indicados a essa categoria mostra que alguém do processo seletivo das indicações não assistiu a esse filme, pois, considerar os dois atores (que diga-se de passagem estão ótimos) como coadjuvantes é inaceitável. Um deles precisa ser o protagonista em um filme que o tempo de tela é consumido pelos dois, ou não? Fora essa bizarrice, preciso dizer que são cinco atuações excelentes: tão bom ver Leslie Odom Jr. que conheci no musical Hamilton interpretando de maneira linda Sam Cooke; Me emocionei com a atuação de Paul Rici no ótimo O Som do Silêncio; Sacha Baron Cohen, não por Borat 2, mas por Os 7 de Chicago domina a cena de maneira impressionante.

 

 

Melhor filme internacional


"Druk - Mais uma rodada" (Dinamarca)

"Shaonian de ni" (Hong Kong)

"Collective" (Romênia)

"O homem que vendeu sua pele" (Tunísia)

"Quo vadis, Aida?" (Bósnia e Herzegovina)

 

Quem eu acho que ganha: Druk - Mais uma rodada

Quem eu acho que deveria ganhar:  Druk - Mais uma rodada

 

Uma das categorias que mais gosto em todos os Oscars. Se repararem ano após ano, os filmes daqui são em sua maioria excelentes obras que muitas vezes superam indicados por acaso da categoria principal. Dito isso, nesse ano, não tem pra ninguém: Druk - Mais uma rodada, um baita filme dirigido pelo criador do Dogma 95 Thomas Vinterberg, esse que inclusive concorre na categoria de Melhor diretor por esse filme.

 

 

Melhor roteiro adaptado


"Borat: fita de cinema seguinte"

"Meu pai"

"Nomadland"

"Uma noite em Miami"

"O Tigre Branco"

 

Quem eu acho que ganha: Nomadland

Quem eu acho que deveria ganhar:  Nomadland

 

Alguns portais indicam que Borat: fita de cinema seguinte é o favorito mas o trabalho feito em Nomadland é fabuloso. Tecnicamente é um filme excelente, completo. Acho que vence esse último.

 

 

Melhor roteiro original


"Judas e o Messias negro"

"Minari"

"Bela vingança"

"O som do silêncio"

"Os 7 de Chicago"

 

Quem eu acho que ganha: Bela vingança

Quem eu acho que deveria ganhar: Bela vingança

 

 

Nessa categoria será brindado esse ótimo filme que fala muito sobre a sociedade machista e hipócrita em que vivemos. Vence com louvor Bela vingança. Mas Os 7 de Chicago e o famoso Aaron Sorkin corre por fora e pode surpreender. Destaco também o ótimo O Som do Silêncio.

 

 

Melhor animação

 

"Dois irmãos: Uma jornada fantástica"

"A caminho da lua"

"Shaun, o Carneiro: O Filme - A fazenda contra-ataca"

"Soul"

"Wolfwalkers"

 

Quem eu acho que ganha: Soul

Quem eu acho que deveria ganhar: Soul

 

 

Uma daquelas categorias que nem tem disputa: É Soul! Fabuloso drama com técnicas de animação.

 

 

Melhor curta-metragem em live action

 

"Feeling through"

"The Letter Room"

"O Presente"

"Dois Estranhos"

"White Eye"

 

Quem eu acho que ganha: Dois Estranhos

Quem eu acho que deveria ganhar: Dois Estranhos

 

Categoria marcada por impactantes filmes, representativos, fantásticos. Mas o mais fantástico desses curtas é sem dúvidas: Dois Estranhos. Maravilhoso filme.

 


Melhor documentário


"Collective"

"Crip camp"

"The mole agent"

"Professor Polvo"

"Time"

 

 

Quem eu acho que ganha: Professor Polvo

Quem eu acho que deveria ganhar: Professor Polvo ou Collective

 

Outra categoria bastante disputada, com produções muito elogiadas e algumas delas bastante emocionantes. Seguindo essa trilha da emoção, Professor Polvo conta uma amizade inusitada e nos emociona de maneira surpreendente, deve e merece ganhar o prêmio. Mas assista a todos os outros filmes, essa categoria sempre nos apresentam filmes maravilhosos.

 

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23/04/2021

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Crítica do filme: 'Estados Unidos Vs Billie Holiday'


A incompreensão sobre a dona de uma voz marcante, inesquecível. Baseado no livro Chasing the Scream de Johann Hari, Estados Unidos Vs Billie Holiday, novo trabalho do cineasta Lee Daniels (diretor do sucesso Preciosa: Uma História de Esperança), Estados Unidos Vs Billie Holiday conta em certos detalhes (dentro de um ponto de vista que pode ser até questionável) alguns anos de vida da inesquecível cantora norte-americana Billie Holiday e sua guerra contra o governo, entre outras questões por conta de uma música emblemática chamada Strange Fruit onde condena o racismo em seu país, especialmente o linchamento de afro-americanos. O filme está indicado ao Oscar de Melhor atriz pela bela e impactante interpretação de Andra Day.  


Na trama, conhecemos, já no auge, cerca de dez anos em sequência da vida da cantora Billie Holiday (Andra Day), uma mulher corajosa que enfrentou enormes dificuldades desde criança, sofreu abusos durante muito tempo e se relacionou com diversos homens violentos. Durante sua fase de maior sucesso, nem os direitos autorais recebia, ficando nas mãos de produtores de shows e alguns que diziam ajudar sua carreira. Ela foi uma viciada em drogas pesadas e por conta disso acabara sendo condenada à prisão durante algum tempo, muito também pela perseguição imposta por J. Edgar Hoover e seu FBI que se incomodavam quando ela cantava uma música chamada Strange Fruit, um tapa na cara de um governo que não fazia nada na época para mudar as atrocidades que os negros sofriam por toda a América, principalmente no sul do país.


Toda biografia tem seus pontos positivos e negativos. Buscando detalhar mais sobre os absurdos sofridos pela artista, seus vícios, a perseguição que sofrera do governo e seus relacionamentos que vão desde um agente infiltrado do FBI chamado Jimmy (Trevante Rhodes) até com a atriz Tallulah Bankhead (Natasha Lyonne), acaba esquecendo, ou melhor, não dando tanta importância a força da artista no palco à questão musical que, por mais que esteja envolvida na trama, fica apenas na superfície.


Figura incompreendida por muitos, que tinha fãs de todas as cores e classes sociais, foi uma das grandes personalidades a usar sua arte para dizer suas indignações do que via ao mundo, esperando mudanças. Estados Unidos Vs Billie Holiday, disponível na Amazon Prime, vale para conhecermos mais sobre uma das maiores divas do Jazz, ao lado de Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, mesmo que não consiga contar uma história de vida tão complexa de maneira mais completa.

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18/04/2021

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Crítica do filme: 'Dois Estranhos'


Cortesia, profissionalismo e respeito. Será? Concorrente ao Oscar de melhor curta-metragem em 2021, Dois Estranhos explora o eterno giro de 360 graus constante onde os paralelos entre a autoridade e o preconceito parecem dois rios que acabam se unindo gerando dor e sofrimento. Dá um aperto no peito, são cenas fortes e infelizmente muitas dessas vistas por muitos olhos nas ruas pelo mundo todo o dia, tamanho o preconceito e intolerância dos olhares brancos contra os negros. É um filme arrebatador, conversa demais com muitos dos acontecimentos viralizados sobre preconceito e violência policial nos Estados Unidos que nos trazem muito tristeza. Dirigido por Travon Free e Martin Desmond Roe. Imperdível! Disponível na Netflix.


Na trama, conhecemos um jovem trabalhador chamado Carter (Joey Bada$$), em um dia de grande alegria por ter conhecido um provável futuro amor, Perri (Zaria). Ele está voltando para casa onde está seu cachorrinho fofo o qual ama muito e até mesmo aciona via wi-fi um lança biscoitinhos para ele enquanto não chega em casa. Ainda na calçada, em frente ao prédio onde estava é abordado de maneira abrupta e desleal pelo policial branco Merk (Andrew Howard) e assim, em fração de segundos, sua vida corre sérios riscos. Acontece que um loop infinito é ativado (volta sempre ao mesmo dia e momento da tragédia) e agora o protagonista precisa encontrar alguma maneira de ter um final diferente para essa história. Mas será que existe?


Um filme reflexivo, que coloca o dedo bem fundo na ferida de uma sociedade polarizada, ainda muito preconceituosa, em alguns momentos nada amistosa, onde a cor da pele vira questão de escolha de quem é bom ou mau. Two Distant Strangers, no original, usa da criatividade para mostrar diversas formas onde o preconceito se instaura tendo os mesmos personagens. Somos testemunhas oculares das várias abordagens policiais equivocadas, com o preconceito dentro da força desproporcional, na mira da metralhadora...


O desfecho é emblemático, lembra de diversos nomes de pessoas negras que tiveram suas vidas tiradas em questões muito parecidas das quais o filme aborda. Um projeto para todos nós, brancos e negros, refletirmos sobre o mundo em que vivemos e se de alguma forma podemos caminhar para uma melhora através do diálogo.

 

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17/04/2021

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Crítica do filme: 'Professor Polvo'


Tudo na vida tem começo, meio e fim. Um homem e seus conflitos em certa etapa da vida, consumido pelo stress de um cotidiano caótico em não encontrar um oásis dentro das obrigações que se amontoam em sua vida. Durante mais de 200 dias na África do Sul, resolve interagir todo esse tempo com um polvo e assim acaba embarcando em uma série de descobertas sobre como vive esse molusco de oito tentáculos e que possui uma série de ventanas. Uma narrativa detalhista, emocionante, que mexe com nossos campos reflexivos nos paralelos que encontramos entre as leis da vida de um polvo e nós que estamos fora da água. Professor Polvo, produzido pela Netflix, está concorrendo ao Oscar de Melhor Documentário em 2021.


Hipnotizante, inspirador. Uma história que pode parecer quando a gente lê a sinopse meio sem sentido, começa a mostrar porque é tão profunda quando começamos a entender as mudanças na maneira de pensar do mergulhador que se sente outro planeta debaixo da água. Acaba criando uma inusitada amizade com o polvo, esse que possui uma capacidade surpreendente e criativa de enganar seus inúmeros predadores. Ricas imagens preenchem a tela a todo instante, é como se estivéssemos dentro daquele pedacinho do oceano acompanhando de perto toda essa saga sem objetivo específico mas sempre surpreendente.


A parte onde descobrimos a força de vontade de se reconstruir é um clássico exemplo da vida, onde milhões espalhados pelo mundo precisam diariamente buscar suas chances de uma confortável trajetória em uma concorrência muitas vezes desleal mas mesmo assim, a maioria de nós, consegue de alguma forma (ou faz de tudo) sobreviver. Há mais paralelos: o sacrifício, a felicidade, as dificuldades, os obstáculos, nada de novo mas sempre com o olhar do inacreditável pelas intensas imagens que conseguimos acompanhar.


História de amizade, leis da vida, paralelos com os cotidianos espalhados por aí. Um dos grandes documentários dos últimos anos, despretensioso mas que consegue emocionar até os corações mais distantes de emoções.



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09/04/2021

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Crítica do filme: 'Good Night (Da Yie)'


Os horrores camuflados de bondade. Um dos 15 semifinalistas ao Oscar 2021 de Melhor Curta de Ficção, Good Night (Da Yie) , co-produção Gana/Bélgica, é um filme que escancara aos nossos olhos os horrores de uma realidade, um retrato chocante de uma parte do mundo que carece de atenção. Dirigido pelo cineasta Anthony Nti, em 20 minutos somos jogados a uma história que fala sobre sonhos, impunidade e os absurdos que a vida apresenta. Um filme forte, porém necessário, para reflexão.


Na trama, conhecemos Matilda e Prince, duas crianças muito amigas que possuem em comum um grande amor pelo futebol. Certo dia, no campinho onde jogam, um estranho mas conhecido por eles estaciona o carro e os chama para irem lanchar e passear pela cidade. Só que as verdadeiras intenções desse estranho aos poucos vão sendo reveladas.


Tenso, fala sobre memórias, traumas, conversas que vão colocando dúvidas no personagem que começa a sofrer de peso na consciência, levando a trama para um desfecho que chama a atenção. Os jovens falam sobre seus sonhos, visitam o mar, falam de momentos tristes da vida, fotografia, futebol, repletos da inocência da idade e falta de maturidade para enxergar os perigos que se apresentam. Good Night (Da Yie) foi o vencedor de Melhor Filme da Competição Internacional do prestigioso Festival de Curtas de Clermont-Ferrand 2020. Um filme importante que fala as verdades sobre um mundo ainda muito cruel que muitos vivem.

DA YIE by Anthony Nti - Trailer from Salaud Morisset on Vimeo.

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01/04/2021

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Crítica do filme: 'O Presente'


Os absurdos de um presente que não esquece do passado. Vencedor do BAFTA de melhor curta-metragem de ficção e indicado ao Oscar 2021 na mesma categoria, O Presente, sendo bem objetivo, gera angústia, raiva e um enorme sentimento de tristeza com a absurda situação vivida por um pai, sua filha e uma geladeira. Bons curtas são aqueles que dentro de um recorte chamativo, conseguem expor problemas universais. Dirigido pela cineasta britânica Farah Nabulsi, esse projeto palestino faz refletir sobre a intolerância jogada na nossa cara. Esse filme gera uma indignação profunda por sabermos que os fatos aqui relatados acontecem de diversas maneiras na realidade.

Na trama, conhecemos Yusef (Saleh Bakri), um homem de meia idade, trabalhador, que acorda em uma manhã, após uma noite onde chegara muito tarde, com o objetivo de comprar um presente para a sua esposa já que ambos completam mais um aniversário de casamento. Assim, ele leva sua filha Yasmine (Mariam Kanj) para ir até Beitunia fazer compras e pegar o presente da esposa. Só que para ir e vir, Yusef e todos que moram naquela região da Cisjordânia precisam passar por um ponto de checagem israelense. E assim, um conflito se estabelece na ida e na volta do resgate do presente.


A falta de liberdade do ir e vir é o principal ponto de reflexão desse pequeno grande projeto. A falta de humanidade, compaixão dos soldados na ‘fronteira’ mostram as hipocrisias que comandam ações do universo da generalização em vez de olhar para o indivíduo. Sensibilidade? Isso não existe nesses lugares. Tentando se locomover por uma Cisjordânia controlada, com estradas segregadas, milhares de pessoas diariamente precisam ser ‘checadas’ perdendo princípios básicos dos seres humanos. O filme escancara verdades que poucos gostam de dizer ou até mesmo conhecem. O cinema tem esse papel: gerar reflexões para quem sabe trazer mudanças.

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Crítica do filme: 'Meu Pai'


Como superar o que para você mesmo é insuperável? Indicado a seis Oscars em 2021, Meu Pai, é uma espécie de um jogo de suposições dentro de um labirinto de situações. Um vai e vem emocional constante, do êxtase à amargura. Um engenheiro aposentado cheio de manias, apreciador de ópera, dentro de um apartamento em Londres com um quebra-cabeça para resolver, um jogo de um jogador apenas, mesmo com personagens surgindo a todo instante, passa seus dias, de alguma forma, bastante solitário. Nossos olhos são Anthony, vamos descobrindo onde cada peça se encaixa junto com ele. Um roteiro primoroso onde não conseguimos tirar os olhos da tela. Magistral atuação de Anthony Hopkins. Roteiro e direção assinados pelo cineasta francês Florian Zeller, seu primeiro longa-metragem como diretor.   


Na trama, conhecemos Anthony (Anthony Hopkins), um homem já no terço final de sua vida, perto dos 80 anos, que vive seus dias em um apartamento confortável em Londres onde recebe a visita constante de sua filha Anne (Olivia Colman). Quando essa última conta para ele que está indo morar em Paris, situações diferentes começam a aparecer nos seus dias, até mesmo personagens diferentes mas que significam algo ao redor da vida dele, e assim conflitos familiares são trazidos à tona. Alucinações? Lembranças? Quais peças não estão lugar?


Guiado por uma trilha sonora bastante incisiva (assinada pelo compositor e pianista italiano Ludovico Einaudi), o filme é a constatação do tempo em poucos momentos no sofrido acesso às memórias de um homem que nunca conseguiu se desvencilhar dos traumas de sua vida, principalmente uma tragédia com uma de suas filhas. Lutando contra a própria mente, buscando ao equilíbrio entre a razão e emoção para entender tudo que projeta com vida nesse momento, Anthony embarca em uma viagem com objetivo de desatar algumas amarras de consternação das lembranças de sua alma detalhista.


Paranoico? Medo de ficar sozinho? Aos poucos, junto com o inesquecível personagem, vamos percebendo que algumas coisas não fazem um certo sentido, há muitas coisas estranhas acontecendo ao seu redor, o que faz a passos largos caminhá-lo para um ato final angustiante. Vale novamente destacar a maestria de um ator que possui um domínio impressionante de seu espaço cênico, o inesquecível Anthony Hopkins em uma de suas melhores performances na carreira.

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29/03/2021

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Crítica do filme: 'The Letter Room'


Quando o introspectivo se une ao intermediário. Um dos concorrentes ao próximo Oscar de Curta-metragem de ficção, The Letter Room, ou a Sala de Correspondência, se formos traduzir literalmente para o nosso idioma, conta a história de alguns através do olhar curioso de um personagem que acaba sendo testemunha de relatos pessoais da família e dos presos, inclusive para os que estão no corredor da morte, após assumir o novo cargo de diretor de comunicação dos prisioneiros. Escrito e dirigido pela cineasta Elvira Lino, o projeto (com potencial de ser um longa-metragem) possui um indecifrável lado tragicômico escondido por trás da história, sentimos que há muito mais por conhecer desse curioso protagonista. Ótima interpretação do ator Oscar Isaac.


Na trama, conhecemos o boa praça e simpático agente penitenciário Richard (Oscar Isaac), um ser solitário que vive de ir ao trabalho e voltar pra casa, tendo apenas a companhia de seu cachorro. A fim de se desenvolver profissionalmente, se inscreve para outras funções na penitenciária que trabalha, por mais que tenha um ótimo relacionamento com os outros guardas, a chefe do local e os presos. Assim caba indo para no setor de comunicação da prisão, onde precisa escanear e analisar possíveis irregularidades nas mensagens externas que chegam para os que estão presos. Mas ele acaba se envolvendo mais do que devia e assim acaba embarcando nas soluções de duas questões para dois prisioneiros.


Há um composto interessante ligado ao desejo e as emoções que o guarda acaba sentindo, não consegue fugir das diversas reflexões daquelas palavras espalhadas nas mensagens. Precisa ir atrás das resoluções daquela história, como se fosse um intermediador, um fato que acaba se conectando com seu perfil introspectivo de pouco contato com o mundo lá fora. O personagem em cima é longe de ser caricato detalhista, inclusive controla a alimentação através de um bloquinho de papel preenchido com as calorias diárias ingeridas, talvez uma ideia que teve a partir de alguma referência que viu nas dezenas de horas que fica de frente para a televisão quando não está trabalhando.


Em cerca de 30 minutos, ficamos refletindo muito sobre a personalidade e as ações tomadas, certas ou erradas, pelo personagem, gerando a curiosidade de querer conhecer mais sobre a história dessa alma introvertida e as prováveis sinucas que se envolve a partir da curiosidade.

 

 

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05/03/2021

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Crítica do filme: 'Nós Duas'


Amor escondido é igual a liberdade dentro de um quadrado. Representante da França ao Oscar 2021 e indicado ao Globo de Ouro, Nós Duas, Deux no original, é uma interessante incursão sobre sentimentos íntimos de duas mulheres mais velhas, que se conhecem toda uma vida, onde fora colocado um papel no buraco da fechadura para os demais jamais, ou nem ao menos, terem a chance de se intrometer. Honesto e bastante delicado, trata com muito respeito a questão da aceitação do amor de duas mulheres apaixonadas e o eterno receio do que os outros podem pensar sobre isso. Destaque para Barbara Sukowa, uma das melhores atrizes europeias, não só da atualidade, em mais uma atuação magnífica, vibrante e delicada ao mesmo tempo.


Na trama, conhecemos Nina (Barbara Sukowa) e Martine (Martine Chevallier), duas mulheres já bem mais velhas que durante toda uma vida vivem um amor escondido. Vivem em um prédio, de dois apartamentos por andar, e ambas moram uma de frente pra na outra. Tentando dar um passo importante na relação, elas resolvem procurar soluções para o futuro e quem sabe até contar para a família de Martine (já que Nina é sozinha no mundo) sobre o relacionamento que vivem. O problema é que essa última, sofre um avc e tudo muda bastante na rotina escondida das duas amantes.


Há um belo brilho na poesia que camufla os conflitos, seja na visão e descoberta dos filhos de Martine, seja nos embates intensos entre as almas gêmeas. O amor é um dos focos, dividindo a tela com a questão do pré-conceito/preconceito e também de um complexo relacionamento entre mãe e filhos por conta de um segredo de anos e descoberto apenas por causa da situação emergencial que estão passando. O roteiro faz um trajeto bonito entre os arcos. No mais reflexivo, as memórias ganham contornos metafóricos e de alguma forma nos fazem entender melhor a quão profundo é o sentimento de afeto e carinho que Nina e Martine possuem. Impossível não se apaixonar por essa história.  

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20/02/2021

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Crítica do filme: 'Never Gonna Snow Again'


Como posso sentir o desconforto de terras estrangeiras se nem sequer lembro da minha? Indicado ao Leão de Ouro no Festival de Veneza do ano passado, o longa-metragem polonês Never Gonna Snow Again (Sniegu juz nigdy nie bedzie, no original) é um drama envolvente onde sabemos mais pelo buraco da fechadura de algumas famílias, histórias, traumas e conflitos, através de um curioso personagem nascido sete anos antes mas em uma das cidades atingidas pelo terrível acidente nuclear em Chernobyl. Passando de casa em casa, em um condomínio de classe média alta na Polônia, percebe os dramas daqueles lugares parecidos por fora mas por dentro muito diferentes. Suas massagens viram quase uma sessão de desabafos ou até mesmo uma curiosa terapia que acaba servindo para quem desabafa e para o ouvinte. Dirigido pela cineasta Malgorzata Szumowska, tendo Michal Englert como co-diretor.


Na trama, conhecemos Zenia (Alec Utgoff), um jovem ucraniano que está na Polônia (não sabemos de maneira ilegal ou não) oferecendo seus serviços de massagem para um leque de famílias de um condomínio na Polônia. O personagem, bastante introspectivo e com dons no piano acaba virando um grande conselheiro e bastante querido por todos pelas suas ótimas sessões de massagens e energia que é levada de casa em casa. Por meio de lembranças curtas e noites mal dormidas, vemos conhecendo pouco a pouco esse intrigante personagem de poucas falas.


As emoções perdidas e enraizadas à ação da hipnose. As habilidades de Zenia são apenas um pequeno detalhe desse roteiro repleto de mistério mas que não nos instigam a conhecê-los por completo, o que é um fato bastante interessante. O foco acaba sendo mesmo os dramas das famílias, somos olhos e ouvido do protagonista refletindo bastante sobre tudo o que percebemos atrás daquelas mesmas portas mas que por dentro possuem cada qual suas histórias: Uma mãe egoísta pela rotina e que não sabe que está sendo traída; uma mulher que dedica sua vida a seus cachorros; um doente com câncer avançado e sua esposa perdida na solidão; uma senhora amargurada pelo luto mãe de filho único; um ex-alta patente do exército e seus traumas.


O enigmático final é bastante inesperado mas chega para preencher as lacunas das incertezas, nem tudo precisa de respostas claras e objetivas quando as ações já dizem muito por si só.

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27/01/2021

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Crítica do filme: 'Minha Irmã'


A força do amor entre irmãos e as superações da vida que precisam enfrentar. A vida não é fácil, é uma estrada complicada, repleta de obstáculos. Indicado da Suíça ao Oscar 2021, Minha Irmã é um impacto recorte na vida de uma forte mulher que aos poucos vê a solidez de alguns de seus pilares desmoronarem incontrolavelmente, desde o estado complicado de saúde de seu irmão gêmeo até uma crise intensa e amargurada em seu casamento. Escrito e dirigido pela dupla de cineastas Stéphanie Chuat e Véronique Reymond. Destaque para a atuação emocionante da atriz alemã Nina Hoss.


Na trama, conhecemos os irmãos gêmeos Sven (Lars Eidinger) e Lisa (Nina Hoss). O primeiro está com um sério problema de saúde e passa por uma não bem sucedida transplante de medula óssea. A segunda é uma escritora de peças de teatro que está com um vendaval de situações importantes acontecendo ao mesmo tempo em sua vida e precisa ainda ser a principal cuidadora do irmão o que gera nela terríveis dramas e uma iminente decadência em seu casamento com o marido Martin.


O foco é na irmã, uma mulher que precisa se virar para poder conciliar a terrível doença do irmão, a educação de suas filhas, idas e vindas do seu país de origem até onde seu marido trabalha, as complicadas decisões do futuro de sua família com a oportunidade que chega ao seu marido. Os desenrolares das escolhas dessa forte protagonista acabam sendo uma jornada bem bonita de encarar os obstáculos mesmo que para isso precisem ser tomadas decisões solitárias.


Minha Irmã é um longa-metragem repleto de amor e de solidão do afeto. Há contrapontos que se unem em momentos de reflexão, como o fato de uma certa distância da mãe sobre tudo que acontece com o filho. Nem sempre na vida teremos finais felizes mas precisamos converter nossas escolhas em soluções vindas de escolhas que vem do coração. Schwesterlein, no original, nos faz refletir bastante sobre a vida. Belo filme.

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Crítica do filme: 'Bela Vingança'


Os traumas que nunca saem de nossas mentes e mudam radicalmente uma trajetória. Selecionado para dezenas de festivais e muito cotado para algumas categorias do Oscar 2021, escrito e dirigido pela cineasta e atriz britânica Emerald Fennell (em seu primeiro longa-metragem atrás das câmeras), Promising Young Woman é pulsante, intenso, usa do impactante, do sarcasmo, para criar um raio-x profundo para quem ainda tem dúvidas sobre o assédio, o machismo que acontece muito por aí. Mostrando o caminhar de alguns em cima da linha tênue do ‘benefício da dúvida ou acreditar em quem diz ser vítima?’ o projeto conta com uma atuação marcante da excelente atriz britânica Carey Mulligan.


Na trama, conhecemos a ex-estudante de medicina Cassie (Carey Mulligan) que mora com os pais em uma confortável casa. Ela trabalha em um café da cidade e passa suas noites indo a boates e points de pegação onde se finge de bêbada para dar lições em homens que dão em cima dela nesse estado. Há algum trauma, um gatilho para fazer o que faz e vamos entendendo melhor os seus porquês principalmente quando sabemos do suicídio de uma grande amiga nos tempos de faculdade. Mas tudo muda com a chegada novamente em sua vida de Ryan (Bo Burnham), um cirurgião pediatra que esteve tempos atrás com ela.


Promising Young Woman é o caminho conturbado de uma protagonista, brilhante nos tempos de faculdade, que após o assédio e exposição de uma grande amiga resolve abandonar tudo e viver uma vida em busca de vingança contra o machismo descarado mesmo que isso a faça viver situações constrangedoras e perigosas. Sua única saída é a vingança e ela chega de maneira como se estivesse em um túnel onde é impossível enxergar o fim dele. O projeto não deixa de ser uma análise profunda sobre a sociedade que vivemos. As conturbações psicológicas da protagonista, na verdade, podemos enxergar também como uma série de gritos de indignação com as ‘absolvições’ de quem merece a punição.


Nos tempos atuais onde a luta contra o assédio se torna cada vez mais importante e dominante em diversos segmentos empresariais e da sociedade como um todo, o papel da arte em mostrar espelhos da sociedade é fundamental para consolidar esse pilar. Ótimo filme.

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24/01/2021

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Crítica do filme: 'Nomadland'


O que é lembrado, vive. Um dos filmes mais badalados para a próxima premiação do Oscar, Nomadland, escrito (baseado no livro homônimo de Jessica Bruder), dirigido e editado pela cineasta chinesa Chloé Zhao é um road movie cíclico sobre a solidão e os desencontros em relação ao lugar no mundo de uma forte e solitária protagonista (interpretada pela ótima Frances McDormand). Nos faz refletir bastante sobre nossa existência e também sobre as estradas da vida que todos enfrentamos, cada qual a sua forma. Assuntos atuais como a crise econômica e as gangorras de um capitalismo que leva a maioria dos trabalhadores a serem um mero número sem piedade quando as dificuldades ou rendimentos abaixo do esperado chegam também estão presentes nesse belo trabalho vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza.


Na trama, conhecemos Fern (Frances McDormand) uma mulher mais velha que vive em uma Van antiga, nômade, pelas estradas da vida. Sem lugar fixo, trabalha em determinadas época do ano na mesma filial de distribuição da Amazon. Combate a solidão, o frio, as desconfortantes situações que precisar enfrentar para buscar respostas que tanto procura. Quando o amor chega inesperadamente, ou algo parecido com isso, acaba gerando uma espécie de conflito dentro dela e decisões precisarão serem tomadas.


Lar é só um nome ou é algo que carregamos conosco? A protagonista não é uma mulher perdida no mundo, na verdade é uma corajosa ser humana, dona de uma atitude para muitos radical mas que para ela se torna uma única saída. A decisão de viver sozinha a leva a um combo de emoções. A perda do marido, conexão com a natureza, à espera de uma palavra amiga nos momentos mais duros e difíceis, há muitos pontos para análise nessa construção profunda de uma personagem forte que aos poucos vai aprendendo a cada dia mais sobre a vida sozinha e sobre os obstáculos que pode enfrentar pelo caminho.


A direção é magistral. Zhao consegue nos mostrar as belezas da solidão, o elo da protagonista com a natureza (em cenas belíssimas) e a dureza de momentos conflituosos onde as lágrimas se tornam as grandes companheiras de viagem. Alguns acharão um ‘filme lento’ mas as conexões com a histórias estão por todo lugar, além disso, por conta de depoimentos de outros na mesma situação de Fern, em praticamente um retrato real sobre nômades, vamos refletindo sobre essa situação de muitas almas solitárias e suas escolhas em estarem sozinhos nas respectivas fases da vida que se encontram.  Belo filme.  

 

 

 

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20/12/2020

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Crítica do filme: 'Wet Season'


Quando a chuva vira uma parábola da solitude. Depois de vencer um importante prêmio no Festival de Cannes no ano de 2013, o cineasta Anthony Chen volta as telonas em seu segundo longa-metragem, Wet Season, um recorte da vida de uma professora que nutre uma esperança, mesmo dentro do cotidiano caótico em que vive, de ser mãe. Além disso, a forte protagonista encontra em uma improvável relação com um aluno muitas lições sobre a vida. O projeto é profundo, delicado e fala sobre o primeiro amor, a esperança de dias melhores dentro de uma melancolia matrimonial, questões políticas na superfície e seus contrapontos Malásia x Singapura, a questão do ensino da língua. O filme é lento, demora pra acontecer mas quando acontece se torna um recorte cheio de esperança. Exibido na Mostra de São Paulo do ano passado.


Na trama, acompanhamos Ling (Yeo Yann Yann) uma professora que ensina mandarim em uma escola na Singapura, onde sua matéria é considerada a menor das prioridades. Seu casamento está em dias muito ruins, com a provável infidelidade do marido nada presente. Seu cotidiano é muito afetado, pois, precisa cuidar do debilitado sogro que mora na sua casa marido sempre que chega em casa. Certo dia, começa a se aproximar de um aluno que tem os pais ausentes. Há de cara uma observação de uma interseção dentro da solidão que caminham suas vidas, mesmo com a faixa de idade sendo bastante acentuada entre os dois. Uma relação acontece de algumas formas e maneiras, e ambos precisam lidar com tudo que acontece em suas voltas.


Wet Season é um drama bastante profundo. Escrito e dirigido por Chen, o projeto busca nos detalhes as riquezas das compreensões emocionais que os personagens passam. A protagonista é a personagem que mais se desenvolve, se desconstrói de maneira profunda. Há uma grande infelicidade no ar que chega por todas os lados para ela: seja no matrimônio onde é rejeitada pelo marido, nas obrigações que teoricamente não seriam dela de limitar seu tempo cuidado do sogro, na escola onde ensina uma língua que não é considerada prioridade no ensino, o lidar com uma aproximação de um aluno, os conflitos e dramas enfrentados para ser mãe. Um poderoso trabalho de Yeo Yann Yann, grande destaque desse belo filme.

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