Crítica do filme: 'Faroeste Caboclo'


Com apenas uma letra gigante de uma música emblemática do genial Renato Russo, o diretor René Sampaio topou o desafio de transformar a canção em filme, o resultado disso é o interessante Faroeste Caboclo, um filme sobre um homem que nasceu com muitas contas para acertar. Desde a infância pobre vemos a esperança no olhar do protagonista, interpretado de maneira espetacular pelo ator Fabiano Boliveira. Com direito a flasbacks, muito bem inseridos na trama, sobre a infância de João de Santo Cristo somos guiados ao mundo das drogas e do preconceito além da paixão, criando uma espécie de Romeu e Julieta de Brasília.

Na trama, ambientada em Brasília anos atrás, conhecemos João de Santo Cristo, um homem com um passado pobre, talentoso carpinteiro mas com poucas oportunidades na vida. Certo dia, resolve ir ao encontro de um primo estrangeiro que mora no coração do Estado onde vive. Juntos, começam a entrar no tráfico de drogas, já existente na região. Quando tudo se encaminhava da maneira como João queria, uma das entregas de drogas dá errado e João, fugindo da polícia corrupta, entra pela janela de uma jovem que vai mudar sua vida. Entre festas e tiroteios (sim, com direito a Winchester 22), o amor proibido se encaminha para um desfecho trágico por conta da batalha entre o carismático protagonista e Jeremias, um traficante de renome do local.

O retrato que fizeram sobre a infância de João de Santo Cristo chama a atenção. Educado por sua mãe e seu pai, inclusive dizendo que não queriam que o filho fosse ladrão e sim uma pessoa com atitudes positivas, corretas. O que fica implícito é que João ao partir de casa e descobrir um novo mundo acaba fugindo de seu destino de bom rapaz. Nesse momento de rupturas, outro personagem importante, Pablo (e seus palavrões com sotaque latino), interpretado pelo ótimo ator argentino César Troncoso (Infância Clandestina), chega à história e o filme cresce em emoção.

A personagem Maria Lúcia, interpretada pela atriz Isis Valverde (em seu primeiro trabalho no cinema), fica isolada em certa hora. Não vemos objetivos, nem entendemos as atitudes melancólicas. Isso atrapalha um pouco o andamento da história, devido à importância que essa personagem possui. O forçado primeiro encontro com João acaba gerando uma Síndrome de Estocolmo. A maconheira, filha de senador (interpretado pelo ator e diretor Marcos Paulo), estudante de arquitetura, é, infelizmente, um calcanhar de aquiles dentro da trama.

Jeremias, outra peça fundamental no quebra cabeça musical criado por Renato Russo, é interpretado bem exageradamente pelo bom ator Felipe Abib (180 Graus). Com direito a muita euforia sem fundamento, a ‘peitinhos’ (cumprimento típico adolescente carioca dos nossos tempos, não daqueles) e muita liberdade que acaba virando descontrole na hora da interpretação o personagem só é sustentado pelas boas cenas com João de Santo Cristo.

O exercício lógico seria escutar a famosa canção, fechar os olhos e imaginar a realidade dessa saga. Faroeste Caboclo é uma grande história, tinha que virar filme. Muitos vão amar, alguns não vão gostar. A coragem do diretor René Sampaio de reproduzir essa canção famosa é um mérito e um dos motivos que você leitor precisa conferir esse filme nos cinemas. Aposto que até Tarantino está louco para conferir, o longa tem a cara dele.  Escute a música e vá aos cinemas!

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