segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Crítica do filme: 'Gata Velha Ainda Mia' (Festival do RJ 2013)



Escrito e dirigido pelo estreante em longas metragens Rafael Primot, o suspense – quase tragicômico - Gata Velha Ainda Mia é um daqueles filmes que ficarão guardados na memória do espectador por conta da ousadia nos diálogos e pelas surpresas lúgrubes. O público tem a sensação de estar em uma peça de teatro daquelas que sabemos que todos vão aplaudir de pé ao fim do espetáculo. Um cenário, duas fortes personagens e um bate papo culto sobre memórias de uma vida bem vivida é a porta de entrada deste ótimo trabalho.

No engatinhar do gato, nas memórias e citações de Mark Twain, conhecemos a comedora de carne de girafa, Gloria Polk (Regina Duarte), jornalista com dezenas de livros publicados que resolve abrir as portas de sua casa para dar uma entrevista sobre seu novo trabalho - ela não produzia uma grande obra há 17 anos - para Carol (Bárbara Paz), uma jovem e talentosa jornalista casada com o ex-marido de Gloria. Aos poucos, a entrevista vira um imenso desabafo de ambas às partes sobre a vida, sentimentos, relacionamentos, perdas e ganhos.

O roteiro é excelente. Dinâmico, inteligente, beira ao brilhatismo com as descontruções dos obejtivos dos personagens, principalmente depois que somos expostos às surpresas escondidas com maestria durante todo o filme. Referências cinéfilas à um grande clássico do cinema, Gata em teto de Zinco Quente (1958) e uma piada muito engraçada – um pouco debochada – ao famoso autor, conhecido mundialmente, Paulo Coelho aparecem como uma sobremesa na ótima história.

Regina ‘Kathy Bates’ Duarte conquista a plateia na pele da enigmática e fascinante Gloria Polk em poucos minutos. Sua personagem, confusa, misteriosa e inteligente possui um carisma bem específico, complicado de explicar. Muito difícil a veterana artista global não levar o Prêmio de Melhor Atriz do Festival do Rio 2013. A coadjuvante, Bárbara Paz (Se Puder, Dirija...), também convence na pele da delicada jornalista Carol. Ambas conseguem criar a atmosfera necessária para não deixar o público desgrudar os olhos do que acontece na tela.

Uma surpresa macabra e inesperada marca o desfecho, transformando o filme em uma espécie de Louca Obsessão (1990) tupiniquim. Por um lado é interessante, o público é levado ao epicentro da mente problemática de uma mulher em conflito. Só que por um outro lado, as consequências desta surpresa acabam confundindo um pouco o público, principalmente quando os exageros acontecem.

O espectador sai da sala de cinema surpreso e com a sensação de que presenciou um grande debate sobre duas diferentes gerações. Nesse debate, não há razão para acreditar de que há um vencedor, afinal, denegrir o presente é quase uma louvação ao passado.

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