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Crítica do filme: 'A Intrometida'



A felicidade é uma estação intermédia entre a carência e o excesso. Escrito e dirigido pela diretora e roteirista Lorene Scafaria, que entre outros trabalhos foi roteirista do ótimo Nick & Norah: Uma Noite de Amor e Música e dirigiu o peculiar Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo, A Intrometida é um drama disfarçado de comédia com um tom melancólico muito profundo que é atenuado pela atuação carismática da veterana Susan Sarandon. Falando com propriedade de assuntos que vão da dor da perda à vontade de se reencontrar, aos poucos, o filme se torna uma grata surpresa que vai deixar muito cinéfilo com sorrisão aberto. 

Na trama, conhecemos a carinhosa Marnie Minervini (Susan Sarandon), uma mulher já na metade final de sua vida que recentemente perdeu seu companheiro de toda uma vida. Completamente sem rumo, resolve se mudar para mais próximo de sua filha Lori (Rose Byrne), em Los Angeles, na Califórnia. Expondo sua solidão de diversas e muitas vezes engraçadas maneiras, Marnie acaba invadindo a privacidade de sua filha a todo instante (fruto de uma carência do momento) e após um chega pra lá de Lori, Marnie embarca em uma jornada de descobertas onde irá conhecer pessoas que mudarão para sempre esse momento instável que vive. 

Com um orçamento que girou em torno de 10 Milhões de Dólares, A Intrometida se sustenta, além de outras coisas, na força de seus coadjuvantes. Os dramas de Lori, a filha da protagonista, são tão complexos quanto os de Marnie, perdeu o namorado para outra mulher, se encontra sozinha e depressiva. O filme às vezes brinca com essa depressão da dupla, envolvendo o espectador em cenas hilárias, talvez para dar um tom um pouco mais leve para falar sobre assuntos bem densos e complicados. J.K. Simmons, nosso eterno professor Fletcher (Whiplash) e seu ótimo personagem Zipper, preenche uma lacuna muito interessante na história que é o amor. Susan Sarandon, ganhadora do Oscar em 1996 pelo excelente Os Últimos Passos de um Homem, aproveita todos esses elementos e transforma sua personagem em uma curandeira dos seus próprios conflitos internos, uma aula de simpatia e atuação dessa sempre surpreendente atriz.

Exibido no Festival de Toronto 2015, esse longa metragem é um daqueles projetos que vão melhorando a cada cena. Com um começo meio morno onde o foco é explicar, em pouco tempo, toda uma personalidade complexa e abalada pela carência, o filme a partir do segundo arco foca nas reviravoltas das consequências que impactam na vida da protagonista, e aí o filme cresce muito. Com a personagem principal exalando carisma, diversas cenas hilárias, um roteiro pra lá de competente e uma direção firme, a dramédia se coloca como um grande aulão de terapia com o foco na arte de viver.

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