domingo, 23 de outubro de 2016

Crítica do filme: 'Elle'

O medo tem alguma utilidade, mas a covardia não. Baseado na obra do escritor Philippe Djian, o novo trabalho do ótimo cineasta holandês Paul Verhoeven  (RoboCop - O Policial do Futuro, Instinto Selvagem, Zwartboek) , Elle, que concorreu a Palma de Ouro em Cannes esse ano, é uma jornada, um tanto quanto psicológica, que coloca em discussão o medo e a frieza em lados apostos. Protagonizado pela sempre extraordinária atriz francesa Isabelle Huppert (que mais uma vez dá um espetáculo em cena) e um elenco pra lá de primeira, o longa metragem pode ser considerado um grande quebra cabeça onde vamos montando as peças pelas deixas do roteiro e pelos caminhos trilhados pela lente inteligente, totalmente presa aos detalhes, de Verhoeven.

Na trama, conhecemos a fria e solitária empresária do mundo dos games Michèle Leblanc (Isabelle Huppert), uma mulher de personalidade que possui um único filho, totalmente diferente dela. Certo dia, após deixar um gato entrar em sua casa, um homem mascarado aproveita a situação e a violenta. Tentando lidar com o ocorrido, Michèle se cala, não vai à polícia e conta para poucas pessoas o ocorrido mas começa a ligar o alerta e desconfiar de que o seu estuprador é alguém que ela conhece.

Ao longo dos intensos 130 minutos de projeção, Verhoeven joga o público em uma trama recheada de pequenos segredos que sempre circula em um tom de suspense. Nossos olhos é uma protagonista complexa, que poucas vezes se viu na posição de fragilidade que se encontra. Sua relação moderna, quase de irmã, com sua melhor amiga Anna (Anne Consigny) e sócia no negócio de games é regada a uma traição, já que Michele tem um caso de longa data com o marido de Anna. Sua relação quase de desespero com seu único filho Vicent (Jonas Bloquet), um jovem com problemas que se casou com uma mulher mais problemática que ele e Michele entra em conflito sempre com os dois. O ciúme adolescente que Michele possui de seu ex-marido Richard (interpretado pelo ótimo Charles Berling) que namora uma mulher mais jovem. Muito controladora de sua vida e dos que a cercam, a transição da personagem vai acontecendo ao longo da projeção.


Às vezes filmes de suspense, às vezes um drama, às vezes uma história de sedução. Elle pode ser visto por várias óticas. Verhoeven apresenta seu melhor, a todo tempo esperamos o desenrolar dos fatos na cena seguinte, são 130 minutos de projeção que nem vemos o tempo passar. Huppert desfila mais uma vez para o coração dos cinéfilos, uma atuação magistral em uma personagem cheia de complexidade e imperfeições. Elle estreia no dia 17 de novembro e é um dos grandes filmes do ano, não percam! Bravo! 

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