domingo, 23 de julho de 2017

Crítica do filme: 'O Círculo'

A vida é minha e eu só abro pra quem eu quiser. Baseado no livro homônimo escrito Dave Eggers, O Círculo é, antes de mais nada, uma tentativa de crítica social e tecnológica aos limites do bom senso. Jogando no liquidificador big brother, facebook e pitadas de show de truman, o projeto sofre com um primeiro ato bastante morno, cheia de lacunas para serem preenchidas no decorrer da trama. Os personagens não são carismáticos, há uma grande corrida para o clímax o que acaba deixando brechas importantes, as famosas pontas soltas, no roteiro. Dirigido pelo cineasta norte americano James Ponsoldt (dó ótimo The Spectacular Now e do interessante Smashed: De Volta a Realidade) tinha tudo para ser um grande filme, possui momentos interessantes, mas acaba parando nos clichês e fazendo o espectador acreditar que o livro possa ser melhor.

Na trama, conhecemos Mae (Emma Watson), uma jovem que trabalha em um lugar onde não gosta e vive com seus pais em uma casa humilde em uma cidade norte americana. Certo dia, consegue uma grande oportunidade de uma entrevista em uma empresa nova, famosa ligada a tecnologia, informações, dados e redes sociais chamada o Círculo. Chegando lá, sua primeira impressão é estar no paraíso, o ambiente de trabalho é maravilhoso e sempre acontece várias atividades ‘extra job’ como shows de músicas e variadas festas. Conforme o tempo passa, a protagonista percebe que nem tudo é mil maravilhas, principalmente como passa a viver como se estivesse em um reality show e toda sua vida é transmitida ao vivo todos os dias da semana. Percebendo a furada em que se meteu e com a ajuda do criador da ideia da empresa que vive agora imperceptível e quase escondido Ty (John Boyega), Mae tentará achar uma solução para o abuso digital cometido pela empresa.

O mundo vive um grande paradoxo de avanço de funcionalidades básicas que facilitam um simples pagamento de conta até a criação de elos de amizades instantâneos via assuntos incomuns (muitas vezes). Os livros de verdade estão sendo aos poucos substituídos por tablets e e-books, as relações interpessoais estão sendo cada vez mais ‘curtidas’ e um simples abraço ou aperto de mão está virando algo quase obsoleto. Isso é bom ou ruim? Tudo é filmado, postado, compartilhado. A informação virou questão de segundos. No segundo ato do filme, abordando as relações variadas num universo digital sem filtros, o longa metragem tem seu melhor momento, com argumentos variados para um problema que enfrentaremos bem mais forte futuramente.

Eles pedem perdão mas não pedem permissão. O cotidiano da protagonista muda bastante conforme vai crescendo na linha de comando e estratégia do Círculo. Suas reuniões com seus chefes, um deles interpretado pelo ganhador do Oscar Tom Hanks, são intensas e cheias de entusiasmo, fato que muda bastante aos olhos de Mae pois as consequências para a quebra de privacidade são inúmeras e sentidas na pele pela personagem. Por conta do abuso da tecnologia e a falta de limites sobre a privacidade alheia, Mae se afasta dos pais, da melhor amiga Annie (que a colocou dentro da nova empresa), e vive via ‘live’ um trágico episódio com um amigo de infância, Mercer (Ellar Coltrane de Boyhood: Da Infância à Juventude).


O Círculo, talvez, possa ter o papel para refletirmos nossa sociedade globalizada de hoje em dia. É um exercício sobre privacidade alheia e um tom agudo de abuso de tecnologia para obter o controle de muitos, por poucos. 

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