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Crítica do filme: 'Medo' (Strah)


Quando cansamos de sentir medo nossa existência faz mais sentido. Exibido na Mostra de SP em 2021, o longa-metragem Búlgaro, Medo, (Strah, no original), explora a natureza humana e suas relações girando em torno do tema sempre em pauta na Europa: a imigração. Escrito e dirigido por Ivaylo Hristov, o projeto expõe pontos de vistas, metendo o dedo na ferida sobre um assunto diretamente ligado aos direitos humanos. Há também espaço para reflexões sobre a solidão e um combate constante e intimista sobre o medo.


Na trama, conhecemos Svetla (Svetlana Yancheva), uma viúva de um pescador que morreu no mar que vive sozinha durante muito tempo em uma cidade no interior da Bulgária. Passa seus dias lutando contra uma solidão após ser mandada embora de seu emprego de professora (já que o colégio fechou) e combatendo com muita coragem um machismo vindo de todas as partes inclusive dos militares da polícia da fronteira. Tudo muda em sua vida quando um imigrante africano chamado Bamba (Michael Flemming), que queria chegar na Alemanha, aparece em seu caminho. Eles se comunicam sem muito se entenderem, em dois idiomas, mas o que entendem, basta. Aos poucos ela vai descobrindo mais sobre ele, um médico fugindo da guerra que teve a família perdida no conflito. Uma relação e afeto e esperança nasce entre os dois e em paralelo acabam sofrendo a rebeldia de seus vizinhos e conhecidos por Svetla deixar o imigrante ficar em sua casa.


Recheado de críticas com uma profundidade expressiva, o filme navega em partes nos conflitos que giram em torno do preconceito ao imigrante. Seja por meio de uma enrolada prefeita, marionete de influentes da área, pelos vizinhos sem a menor noção do que é humanidade, por uma força militar que parece viver em um mundo paralelo e querendo o menos responsabilidade pelo certo possível ou mesmo na crítica ao sensacionalismo televisivo da região.


Buscando expressar sentimentos e até mesmo emoções, o uso da fotografia em meio a estética em preto e branco pulsa aos nossos olhos como se conseguisse criar um clima de imersão a tudo aquilo que acompanhamos dentro das conflituosas relação humanas do pré conceito e preconceito.


Há também uma parábola bastante profunda sobre a solidão acoplada à uma crise existencial causada pela falta de perspectiva, isso fica muito claro conforme vamos descobrindo mais da protagonista e seu desabrochar para trilhar seu caminho longe do medo que de alguma forma sempre a acompanhou e a distanciou de muitos momentos de felicidade.


Strah é um filme que já circulou em alguns festivais na Europa e dificilmente chegará ao circuito brasileiro de exibição, uma pena, merecia. Que bom que a Mostra de SP colocou esse filme em seu catálogo, ótimo filme para refletirmos sobre várias aspectos da natureza humana.

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