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Crítica do filme: 'Belchior – Apenas um Coração Selvagem'


O grito de um poeta quase indecifrável da música popular brasileira. Exibido no Festival é Tudo Verdade 2022, Belchior – Apenas um Coração Selvagem nos mostra por meio de depoimentos do próprio ao longo de muitas entrevistas que concedeu ao longo de sua carreira parte da trajetória desse compositor, cantor, letrista que usava sua música para falar sobre a vida, a juventude, sobre o cidadão comum sujeito a vida, não interessado em nenhuma teoria, com foco em ajudar a refletir. A fama, o sucesso, o sumiço, também geram pensares, reflexões. O posicionamento dos artistas sobre questões sociais também. Em um momento onde a cultura é diariamente ferida por um governo que não enxerga o poder de transformação da arte na vida das pessoas, sempre bom lembrarmos ou até mesmo conhecermos pessoas que dentro do seu refletir reproduziram a essência existencial de um Brasil atemporal.


Nascido no norte do Ceará, um dos filhos de 23 irmãos, o mais bem sucedido deles, foi para São Paulo, viver de sua arte. Vivia o dia, vivia a noite sem precisão na sua definição artística, que era uma soma de muitas influências. Em cerca de uma hora e meia de projeção, acompanhamos sua impactante chegada na música popular brasileira, seu modo de pensar caminhando para a morte pensando em vencer na vida.


Pela dor e a incerteza há como descobrir o poder da alegria? Dono de um pensar carismático sobre o que enxergava sobre a vida, refletia sobre a vida do nordestino na cidade grande, principalmente quando chegou em São Paulo para ganhar a vida no mundo das artes. Há um recorte do nordestino na visão de um homem que refletia a todo instante sobre sua origem. A religião como influência, o canto popular nas festas das cidades, o seu olhar sobre uma região, um povo, tudo que viveu, viu, leu, da poesia para a música. Afirmação de ideias e sentimentos dentro de um trabalho contemporâneo, atemporal e nordestino ao mesmo tempo que era devoto de que os homens não tinham raízes permanentes. Em alguns momentos do documentário poemas e letras do artista são declamadas pelo ator cearense Silvero Pereira.


Uma aventura cheia de romantismo? Uma encarada como ofício? Emergindo do underground, sua chegada na música como ofício é guiada por um forte sentimento poético, além de referências como: Luiz Gonzaga, Joao do Valle, Jackson do Pandeiro, o movimento da Tropicália, Os Beatles, e mais da música popular de sua época. Seus encontros com grandes nomes da música, como com a cantora Elis Regina, que gravou uma de suas composições mais conhecidas, Como Nossos Pais, são mostrados rapidamente.


O filme atravessa alguns detalhes de seu álbum mais consagrado, Alucinação, lançado em em meados da década de 70 e que de alguma forma inaugura a distância da maçante metáfora da época dentro de um discurso não claro, um trabalho de confronto com a realidade onde não apenas os rapazes latino americanos sem dinheiro banco se sentiam representados mas todos que de alguma forma enxergavam que para viver é necessário a resistência de seus sonhos e no acredita.  


Bocejos ou sonhos matinais? Delírio dentro de suas experiências com coisas reais? Participante de movimentos democráticos, Belchior, adepto do amar e o mudar, dava luz aos problemas da até então nova geração, dentro de um quase paradigma do que seria a básica ação de suportar o dia a dia sem comprometimento com o passado.


A fórmula de buscar decifrar o artista numa espécie de ‘Belchior por Belchior’ é mais que certeira. Você pode terminar esse documentário e querer sair correndo para conhecer as canções de Belchior, eternizadas no universo constante e radiante da Música Popular Brasileira. Um belíssimo trabalho dos diretores Natália Dias e Camilo Cavalcanti.




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