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Crítica do filme: 'Medida Provisória'


Uma distopia que diz muito sobre nossa sociedade. Baseado na peça Namíbia, Não!, de Aldri Anunciação, o longa-metragem que marca a estreia de Lázaro Ramos na direção, Medida Provisória, é um dos mais impactantes projetos cinematográficos dos últimos anos. Metendo o dedo em feridas de uma sociedade que enxerga o preconceito mas faz pouco para que ocorra mudanças, o projeto debate sobre as questões sociais, econômicas, políticas de um país que vive em constante condições de extrema opressão e desespero. De maneira muito inteligente, vemos dentro de uma distopia muito do que enxergamos pela janela todos os dias.

Na trama, em um futuro sem data definida mas longe de ser muito diferente da nossa realidade, conhecemos o advogado Antônio (Alfred Enoch) que mora com Capitu, sua esposa e médica (Taís Araújo) e o primo, o jornalista André (Seu Jorge). Certo dia, uma medida de reparação financeira pelos tempos de escravidão no Brasil é proposta, e a mesma é golpeada por outra medida provisória criada pelo Governo Brasileiro, que consiste em obrigar os cidadãos negros a ‘voltarem’ à África como forma de reparar os tempos de escravidão. Assim os três personagens enfrentarão absurdos, os primos trancados dentro de casa e Capitu fugindo pelas ruas da cidade.


Quem nunca viu uma ação preconceituosa no seu cotidiano? E o que você fez, sentiu, pensou quando enxergou tal situação? Exibido no Festival do Rio, na edição que aconteceu no final de 2021, Medida Provisória busca suas reflexões dentro de situações que não deixam de ser grandes paralelos com o que enxergamos em nossa sociedade. O uso do tragicômico, reforçado pelo ótimo personagem André, fortalece o discurso da narrativa colocando o espectador perto de situações próximas do nosso cotidiano.


A questão da resistência e a rede de apoio que acaba se formando para ir de encontro à opressão é muito bem definida. Vivendo próximos de outros que compartilham de mesmo valores, pensamentos e laços de identidade, representados aqui pelos lugares de resistência denominados Afrobunkers e também pela situação que se encontram Antônio e André, e todo o pensar sobre esse momento em que vivem, os medos, as incertezas, mas também a necessidade de lutar.


A questão política, e todo o preconceito embutido, é refletida através das consequências dos absurdos da medida provisória que anula outra medida que era uma reparação financeira pelos tempos de escravidão no Brasil. Um peito aberto preconceituoso, sem medo de se mostrar, que representa que o preconceito sempre esteve presente. Assim como a direção política que o Brasil tomou nesse governo que estamos, repleto de ‘medidas provisórias’ que vão bem longe do encontro de uma sociedade mais justa, unida e respeitosa com todos.


Medida Provisória é um impactante projeto. Merece ser visto, revisto e debatido. É um grito, é resistência, é uma demonstração de que a força para a luta dos seus direitos pode e deve ter o seu valor. Bravo!


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