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Crítica do filme: 'O Traidor'


Os recortes do medo. Depois de mais de 50 trabalhos com sua assinatura ao longo de mais de 60 anos de carreira, chega aos cinemas brasileiros nesse primeiro semestre de 2022 mais um filme do grande cineasta italiano Marco Bellocchio. Dessa vez traz para o público uma história real de um homem que fora um dos primeiros delatores da sociedade criminosa secreta que se desenvolveu na primeira metade do século XIX na Sicília (Itália), a Casa Nostra. Ao longo de mais de duas horas e meia de projeção vamos conferir as consequências dessa escolha na vida de um homem marcado para morrer.

Na trama, conhecemos Tommaso Buscetta (Pierfrancesco Favino) um soldado da mais famosa Máfia Italiana, a Casa Nostra, que após uma série de disputas e assassinatos dentro dessa sociedade criminosa resolve fugir para o Brasil com a esposa, a brasileira Maria Cristina de Almeida Guimarães (Maria Fernanda Cândido). Só que sua estadia por aqui é marcada por perseguição e ele acaba sendo forçado à retornar para seu país de origem onde toma uma decisão que acabaria sendo um dos mais duros golpes que a Casa Nostra já tomou, se tornaria testemunha chave contra muito dos integrantes da organização.


Indicado para mais de 30 prêmios ao redor do mundo, inclusive concorreu à palma de Ouro em Cannes no ano de 2019, O Traidor navega na completa visão de um protagonista e suas escolhas. Em um primeiro momento o vemos se distanciar de uma terrível guerra pelo poder, um duelo de clãs dentro da mesma organização e seus de modos de pensar diferentes. Conhecido por ser mais razão que emoção, o criminoso busca aliança pelas entrelinhas a todo instante, de modo a se sentir protegido mesmo que isso não valha para boa parte de sua família que acaba pagando pelas suas decisões. Num segundo momento, após ser torturado e expulso do Brasil, toma a decisão pela Delação premiada, eu uma série de depoimentos ao juiz Giovanni Falcone (Fausto Russo Alesi), em um caso que ficou conhecido por todo o mundo.


Em meio a cenas de perseguição e ação, muitas sequências de confronto em tribunais, o mérito maior de Bellocchio nesse projeto é conseguir destrinchar o medo e todas suas facetas. Em completa imersão desse sentimento, pois sabe que está marcado a vida toda para morrer, Buscetta passa por fases que vão desde a uma tentativa de suicídio, até a paranoia de comprar um fuzil para se defender a qualquer sinal de perigo. O Traidor pode ser entendido por um recorte profundo de um criminoso que foge para vários lugares, sob proteção dos outros, mas que nunca está seguro.


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