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Crítica do filme: 'Armageddon Time'


O amadurecimento e a estrada da vida. Exibido no Festival de Cannes (onde teve uma ótima recepção), chega aos cinemas brasileiros nesse começo de novembro um filme tocante que busca na força da família razões e emoções para um amadurecimento de um jovem que se vê rodeado de conflitos em um recorte norte-americano com o preconceito batendo forte de porta em porta e um cenário político em ebulição às vésperas da eleição do 40º presidente dos Estados Unidos. Escrito e dirigido pelo cineasta nova-iorquino James Gray, ambientado em uma Nova Iorque do início dos anos 80, Armageddon Time reflete sobre o sonho americano em uma estrada repleta de aprendizados em memórias que ficariam para sempre, jamais esquecidas. E em falar em memórias, o projeto é baseado nas da infância do próprio diretor.


Na trama, conhecemos Paul (Banks Repeta), um jovem, meio rebelde, de classe média, que adora o universo das artes, principalmente o desenho, a pintura. Ele mora com a mãe Esther (Anne Hathaway), uma dona de casa e representante de pais da escola, e o pai Irving (Jeremy Strong, em grande atuação), um homem que ganha a vida como encanador, consertando aquecedores. Uma figura presente em sua vida é seu avô, Aaron (Anthony Hopkins), com quem aprende muito sobre a vida em cada conversa. Paul estuda em um colégio público e se vê quase sempre em conflito com o professor (uma figura conservadora e muito rígida). Ele começa uma amizade com Johnny (Jaylin Webb), um jovem negro que mora com a avó, e dessa amizade Paul aprenderá lições que levará por toda a vida.


Essa jornada parte do retrato de uma família que busca se estabelecer em um Estados Unidos às vésperas de mais uma mudança presidencial, onde o conservadorismo engessa os sonhadores e os horrores do preconceito são vistos em cada esquina. A ótica aqui é toda de Paul, como esse jovem adolescente lida com os conflitos que aparecem em sua frente. Sua personalidade é uma mistura de ingenuidade e imaturidade num início, mas acaba passando por uma enorme transformação num curto período onde a perda de alicerces do seu cotidiano o fazem amadurecer, talvez até precocemente, em um mundo nada justo, às vezes vazio. Os excelentes diálogos entre pai e filho e entre avô e neto mostram o medo da realidade que o espera lá fora, quando precisará sair do ninho familiar e encarar a vida e todas as suas facetas, nem sempre felizes.


O preconceito racial é um assunto muito presente nas linhas do roteiro. A amizade de Paul com o amigo Johnny mostram os dois lados de uma história. Johnny é um jovem negro, sem oportunidades, que num momento acaba nem podendo voltar pra casa, enquanto o amigo mora em uma casa confortável, tem uma estrutura familiar, tem a possibilidade de estudar em um colégio particular em um segundo momento. A amizade entre os dois existe e as escolhas que cada um possui são desiguais, muitas para um, poucas para o outro. Um retrato de um mundo ainda muito preconceituoso é visto, e infelizmente até os dias de hoje, não só nos Estados Unidos.


Há também espaço para política. O título do filme, que aparece em uma fonte chamativa no início e no fim da obra, deixa claro uma referência à algumas falas do ex-presidente norte-americano Ronald Reagan que batia na tecla dessa palavra ‘Armageddon’ colocada em sua visão sobre alguns temas. Esse que seria o próximo presidente norte-americano após derrotar o democrata Jimmy Carter. Até o Pai de Trump, Fred (John Diehl) e a irmã Maryanne (Jessica Chastain) aparecem na história nessa visão sobre os Estados Unidos que ao longo da década de 80 sofreriam com uma instabilidade econômica com o avanço de outros mercados.


Armageddon Time ainda por cima reúne um elenco maravilhoso que ao longo de quase duas horas de projeção nos leva a uma caminhada pelo cotidiano do sonho americano mas mostrando verdades e obstáculos da vida por meio de memórias numa narrativa intimista que emociona do início ao fim.



 

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