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Crítica do filme: 'Fome de Sucesso'


Quando a oportunidade bate à sua porta. Oferecendo para o público um forte olhar para os extremos sociais, e suas desigualdades, do vigésimo país mais populoso do mundo, Fome de Sucesso explora os detalhes, deixa pistas sobre seu foco nas entrelinhas, usando do choque de algumas cenas para reter a atenção e gerar o refletir sobre diversas questões que vão desde o rompimento de qualquer linha tênue entre exigência e assédio moral até a questões existenciais ligadas ao equilíbrio emocional. Dirigido por Sitisiri Mongkolsiri, com roteiro assinado por Kongdej Jaturanrasamee o projeto ainda conta com uma desconstrução profunda de sua protagonista que se vê em constantes dilemas dentro do exigente universo gastronômico. Pra quem curte sociologia esse filme é um prato cheio!


Na trama, rodada toda na capital tailandesa, Bangkok, conhecemos Aoy (Chutimon Chuengcharoensukying), uma jovem que é o coração de um humilde restaurante pertencente à sua família situado em um bairro humilde na capital tailandesa. Especialista em Pad See Ews (um tipo de macarrão frito), ela abdicou dos estudos para se dedicar integralmente ao empreendimento se vendo em muitos momentos sem grandes perspectivas na vida. Certo dia, recebe um convite para uma grande oportunidade na equipe do renomado e exigente Chef Paul (Nopachai Chaiyanam), um especialista em alta gastronomia, famoso por todo país. A partir disso, rompe com sua antiga vida e parte para a descoberta de um novo olhar sobre tudo aquilo que achava que conhecia.


O instigante roteiro de Jaturanrasamee nos leva para uma jornada por um dos novos países que compõe os novos tigres asiáticos, a Tailândia. Por isso é importante mencionar que esse país é um dos que, por meio de um processo constante de industrialização, mais cresceram economicamente a partir da década de 90 naquela região. Fato que provocou um abismo social pois os ricos fora ficando cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. De uma ponta a outra, as duas faces do extremo da pirâmide social são pontos de reflexão constante na obra e fazem parte da construção dos ótimos personagens. Diferenças no padrão de vida, nas condições de acesso à direitos, com tempo para criticar até mesmo a caça ilegal de animais, a narrativa não abdica do seu poder de chocar para refletir.


Usando de forma habilidosa o universo gastronômico como paralelo para enxergar fatos sociais, o filme navega no embate de valores e caráter entre uma jovem aprendiz e um sumo sacerdote da alta gastronomia. Em busca do corte perfeito, do controle do fogo, encostando na inveja, no ego, na pressão, na perfeição, nas experiências exclusivas de milionários e jovens mimados, nos detalhes, rompendo todas as linhas do assédio moral, o mentor causa o choque de realidade na protagonista que entra em uma intensa e exaustiva busca para expressar sua identidade e aqui o filme deixa a pergunta: pra chegar à perfeição é preciso se desnudar dos valores que construiu até ali? Nesse ponto, já dentro de reflexo de tudo aquilo que abomina, no parapeito de sua pior versão, há uma forte desconstrução da protagonista associada também à solidão de quando se chega ao topo.


Jogando um forte olhar crítico para um país que vem passando por enormes transformações pelo menos a uns 30 anos, o filme acerta no seu objetivo que é o de trazer para debate um problema universal: a busca pelo equilíbrio em um mundo desigual que pode corromper valores.



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