Pular para o conteúdo principal

Crítica do filme: 'Puan'


O desmoronar de um cotidiano monótono em paralelo ao caos também de um país. Desfilando o ‘filosofês’ de forma simples e inteligente, com muitos paralelos com a sociedade contemporânea, o longa-metragem argentino Puan fixa sua premissa no pensamento como ato de resistência. Seguindo os passos atrapalhados de um professor de filosofia que se depara com o caos em sua vida o filme, escrito e dirigido pela dupla María Alché e Benjamín Naishtat, rouba todas as nossas atenções ao refletir sobre nosso papel em um mundo longe do olhar apenas numa direção.


Na trama, conhecemos Marcelo (Marcelo Subiotto), um conceituado professor de filosofia de uma Universidade pública de Buenos Aires que vê uma oportunidade de assumir a chefia do departamento ao qual pertence após o precoce falecimento de seu mentor. Só que a chegada de um outro professor, o super carismático Rafael (Leonardo Sbaraglia), acaba frustrando seus planos ao mesmo tempo que sua vida pessoal e as escolhas que eram certas para toda uma vida começam a ir ladeira abaixo.


Exibido no Festival do Rio e no Festival de San Sebastian, além de ser selecionado para o Goya 2024, a produção propõe suas peças para um enorme tabuleiro onde é instaurado um duelo de reflexão com o espectador. Citações de Kant, Rousseau, Hobbes e outros viram parábolas dentro de uma mensagem indireta, fruto de uma narrativa detalhista que alcança seu clímax nas escorregadas e interações assustadas de um protagonista que resolve se mexer quando percebe as ruínas que se amontoam onde antes era sua fortaleza, seu castelo montado com um olhar obsoleto, apenas numa direção.


Existir é uma ação, um movimento. O roteiro é repleto de críticas sociais, os salários baixos dos professores, as intervenções estatais. Dentro desse contexto, o desabrochar dos novos olhares do protagonista ganham força na segunda parte da trama. Ao questionar sobre si mesmo, parece atravessar uma porta que estava lacrada, dando oportunidades para refletir e viver até mesmo sobre o papel do estado.


Puan é um belíssimo recorte social, derivado de uma narrativa dinâmica, nada redundante que duela o antes e o depois, o agora e o daqui a pouco, trazendo luz para novas formas de enxergar a vida em sociedade.



Postagens mais visitadas deste blog

Jantar para Idiotas

Depois de ler a sinopse eu ja sabia que não iria gostar mas como todo cinéfilo é teimoso... fui assistir a esssa produção em uma noite que estava sem sono. Resumindo, foi muito difícil chegar ate o final. Paul Rudd não consegue sair desses papeizinhos de homem de 30 anos com alguma crise; seja ela no casamento, na desilusão de não ter amigos, ou conhecendo alguma garota dos seus sonhos. Dessa vez, ele é um empregado de uma grande empresa e para se enturmar com a gerência tem que arranjar um idiota(isso mesmo, pasmem) para levar em um jantar onde há uma zoação generalizada em cima dessas pobres almas. Nem comentarei o papel ridículo de Steve Carell nesse filme. Eu fiquei imaginando como Hollywood ainda pode bancar idéias desse tipo. Tanto roteiro bom engavetado e uma porcaria dessas é lançada, vendendo uma idéia besta como essa. Isso só serve para aumentar bullying(Alô Serginho Groisman!) nas escolas entre outras coisas, que não são os mais corretos, em uma sociedade robótica onde o cin...

Crítica do filme: 'De Sombra e Silêncio'

A cumplicidade em meio a um mar de descobertas. Diretamente de um país da Europa central com ótimas contribuições à sétima arte, a República tcheca (ou atualizado, Tchéquia), o longa-metragem De Sombra e Silêncio de forma objetiva e sem muita delonga transforma um segredo familiar em um pilar de acontecimentos surpreendentes  que rumam para o imprevisível. A vida do veterinário Martin ( Marian Mitas ) passou por uma enorme transformação após um acidente de trabalho, fato esse que o deixou em uma situação estável mas bastante limitada, sem falar e com sérios problemas. Para cuidar dele, a esposa Erika ( Jana Plodková ) entra logo num embate com a sogra Dana ( Milena Steinmasslová ), com quem nunca teve boa relação. Com a chegada de uma outra mulher nessa história, segredos do passado vai sendo passados a limpo culminando em uma série de situações surpreendentes. Umas das chaves do roteiro assinado - pelo também diretor da obra - Tomas Masin é gradativamente empilhar camadas em...