Pular para o conteúdo principal

Crítica do filme: 'Tenho Sonhos Elétricos'


Somos quem podemos ser. Vencedor de três prêmios no Festival de Locarno em 2022, o filme indicado da Costa Rica para a categoria Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2024, nos leva para um recorte profundo na vida de uma adolescente imatura que entra em confronto com os choques, as surpresas, a violência doméstica, a descoberta da sexualidade, as dificuldades do entender ao outro rumando para sentimentos que busca decifrar. Escrito e dirigido pela cineasta Valentina Maurel, em um roteiro baseado em partes na sua própria vida, Tenho Sonhos Elétricos é uma viagem de descobertas a partir de uma premissa simples, a busca por um apartamento de uma filha e seu pai, onde o plano de fundo é uma violência constante, de muitas formas, num mundo de variáveis incontroláveis.


Na trama, ambientada em São José, conhecemos a Eva (Daniela Marín Navarro), uma jovem de dezesseis anos que mora com sua mãe em uma nova casa que está sendo mobilhada depois da separação dos pais. Eva tem uma relação muito próxima com o pai, Martín (Reinaldo Amien), a quem idolatra, mesmo esse sendo violento, brigão, infeliz na profissional de tradutor. Com a necessidade do pai buscar um novo lugar pra morar, Eva busca se aproximar cada vez mais dele e acaba descobrindo e visitando lugares nunca antes confrontados.


Um dos temas importantes para debates que somos apresentados é a violência doméstica. Uma situação que acontece em muitos lares em todo o mundo, infelizmente. Assim entramos numa análise mais ampla na relação de pai e filha, tendo a comunicação agressiva como elo para as descobertas. O convívio mais próximo com os impulsos descontrolados do pai, um completo perdido no campo emocional, se jogando no precipício da inconsequência quando não consegue resolver os problemas que se amontoam no cotidiano, que mais parece andar em círculos ao longo dos seus dias sem esperança, parece ser o gatilho para Eva entender os porquês da separação.


As descobertas de um, viram certezas para o outro. A raiva que nos atravessa também não nos pertence? A mãe, outra variável importante nessa narrativa, sofre com a distância com a filha, totalmente combativa com a mãe. Tudo que acontece ao longo dos 102 minutos de projeção parece apontar para um desfecho de reconciliação entre mãe e filha.


As lentes de Daniela Marín Navarro nos mostram com toda força e riqueza de detalhes a explosão de sentimentos que são provocados, nos sentimentos dentro daqueles quadrados mostrados, como testemunhas de uma imaturidade que logo vira oportunidade para entender muitos dos porquês que a cercam. Há também espaço para outras descobertas da protagonista, como a da sexualidade. A narrativa caminha numa visão introspectiva de uma protagonista que vai desabrochando quando confrontada com as verdades que a cercam.


Tenho Sonhos Elétricos amarra o desgaste emocional, longe de qualquer esperança, dentro de um paralelo dos reflexos e exemplos que chegam do próprio pai. As vezes, passando pela tempestade é que entendemos os medos que chegam pelo olhar do outro. Pra quem quiser conferir, o filme está disponível no catálogo da MUBI.



Postagens mais visitadas deste blog

Pausa para uma série: Absentia – 1ª Temporada

O desespero de uma nova vida dentro de uma mesma realidade. Protagonizada por Stana Katic ( Castle ), Absentia tem um dos roteiros mais complicados das séries de mistérios com tiro porrada e bomba da atualidade, mesmo assim coloca uma pulga atrás da orelha do espectador pois os episódios da primeira temporada parecem a todo tempo nos fazer várias perguntas que obviamente surgem entre em uma revelação e outra, deixando a icógnita se teremos respostas ao fim dessa jornada. Uma agente do FBI, um sumiço de anos, uma frenética volta ao convívio aos seus conhecidos e o paradigma das escolhas, isso tudo dento de um background de um assassino misterioso. Pra quem gosta de maratonar uma série com muitas surpresas, Absentia pode ser uma boa dica.  Tem na Amazon Prime . Nessa mistura de drama pessoal com suspense e ação, acompanhamos a trajetória de uma agente do FBI chamada Emily ( Stana Katic ) que sumiu por longos seis anos sem ninguém ter muita noção de seu paradeiro até que um certo...

Crítica do filme: 'De Sombra e Silêncio'

A cumplicidade em meio a um mar de descobertas. Diretamente de um país da Europa central com ótimas contribuições à sétima arte, a República tcheca (ou atualizado, Tchéquia), o longa-metragem De Sombra e Silêncio de forma objetiva e sem muita delonga transforma um segredo familiar em um pilar de acontecimentos surpreendentes  que rumam para o imprevisível. A vida do veterinário Martin ( Marian Mitas ) passou por uma enorme transformação após um acidente de trabalho, fato esse que o deixou em uma situação estável mas bastante limitada, sem falar e com sérios problemas. Para cuidar dele, a esposa Erika ( Jana Plodková ) entra logo num embate com a sogra Dana ( Milena Steinmasslová ), com quem nunca teve boa relação. Com a chegada de uma outra mulher nessa história, segredos do passado vai sendo passados a limpo culminando em uma série de situações surpreendentes. Umas das chaves do roteiro assinado - pelo também diretor da obra - Tomas Masin é gradativamente empilhar camadas em...

Crítica do filme: 'Criaturas do Farol'

As dúvidas sobre o canto da sereia. Se perdendo em alguns momentos entre os achismos que surgem naturalmente numa relação desconfiada entre duas pessoas que nunca se viram, o longa-metragem Criaturas do Farol é um peculiar suspense psicológico com poucas perguntas e também poucas respostas. O roteiro se fortalece em diálogos que nos guiam para uma jornada emocional e paranoias que prendem a atenção na maior parte do tempo mas não chegam a empolgar. Pensando em realizar um objetivo náutico, que remete lembranças ao pai e apoiada pelo avô, a jovem Emily ( Julia Goldani Telles ) parte com seu veleiro rumo às infinidades dos oceanos. Chegando no sul do pacífico, a embarcação é atingida por uma tempestade e acaba indo parar numa ilha onde é resgatada pelo faroleiro Ismael ( Demián Bichir ). Logo essa relação de gratidão passará por enormes desconfianças. Como contar uma história que está em uma bolha no campo das suposições? A tensão por meio do chocalhar psicológico se torna um corpul...