Pular para o conteúdo principal

Crítica do filme: 'Reality'


A verdade e a lei. Baseado numa peça teatral do ano de 2019 chamada This A Room, e filmado em apenas 16 dias, o interessante filme Reality nos mostra um interrogatório feito com uma especialista em linguística da inteligência norte-americana acusada de vazar informações que culminaram na exposição de dados que expôs a possível interferência russa nas eleições norte-americanas em 2016. Escrito e dirigido pela norte-americana Tina Satter, o filme possui uma narrativa intrigante, com eficácia no uso da linguagem cinematográfica, buscando interpretações aos conflitos emocionais em todos os momentos.

Na trama, conhecemos Reality (Sydney Sweeney), uma veterana da força aérea dos Estados Unidos, instrutora de Yoga, que trabalha como tradutora numa agência de segurança norte-americana. Um dia, ao voltar de compras, é cercada por agentes do FBI com um mandato para revistar sua casa, seu carro e possuem informações de que ela vazou informações secretas para um famoso site. Ao longo de 83 minutos, com o nervosismo sendo exposto a cada minuto que passa, vamos vendo a sequência de um interrogatório feito na própria casa da suspeita.

Exibido no Festival de Berlim do ano passado, o projeto nos joga para junho de 2017 em uma cidade norte-americana onde a suspeita reside e trabalha. A cronologia dos fatos, baseado em acontecimentos documentados pelo FBI e assim recriados na íntegra do que tinha nessa gravação feita pela agência federal norte-americana, nos leva para a mente dessa jovem de vinte e poucos anos e uma pergunta que persegue toda a narrativa: Qual o motivo dela ter vazado as informações?

O caso coloca ao público dilemas políticos, da lei, da exposição da informação pelo recebedor, e dos valores do indivíduo em relação ao seu ponto de vista do presente da sociedade que o cerca. O papel da mídia e seus debates políticos beirando ao sensacionalismo parecem ter sido uma parte do iceberg que vai aparecendo e obviamente se seguem com a revelação da história. A condução do interrogatório também chama a atenção, munidos de informações certeiras os agentes da lei parecem querer descobrir tudo que cerca o fato. A exposição de Reality como fonte pelo jornal online independente parece uma certeza e gera debates.

Dizer as verdades através do campo da indignação não é uma forma de dividir um problema que afeta a todos? O projeto deixa perguntas no ar, principalmente sobre o que nós faríamos se estivéssemos nessa situação. E não podemos esquecer do fabuloso trabalho de Sydney Sweeney como protagonista. Reality é um filme para assistir e se debater sobre, muitas questões importantes são levantadas.


Postagens mais visitadas deste blog

Crítica do filme: 'De Sombra e Silêncio'

A cumplicidade em meio a um mar de descobertas. Diretamente de um país da Europa central com ótimas contribuições à sétima arte, a República tcheca (ou atualizado, Tchéquia), o longa-metragem De Sombra e Silêncio de forma objetiva e sem muita delonga transforma um segredo familiar em um pilar de acontecimentos surpreendentes  que rumam para o imprevisível. A vida do veterinário Martin ( Marian Mitas ) passou por uma enorme transformação após um acidente de trabalho, fato esse que o deixou em uma situação estável mas bastante limitada, sem falar e com sérios problemas. Para cuidar dele, a esposa Erika ( Jana Plodková ) entra logo num embate com a sogra Dana ( Milena Steinmasslová ), com quem nunca teve boa relação. Com a chegada de uma outra mulher nessa história, segredos do passado vai sendo passados a limpo culminando em uma série de situações surpreendentes. Umas das chaves do roteiro assinado - pelo também diretor da obra - Tomas Masin é gradativamente empilhar camadas em...

Crítica do filme: 'Matar Jesus'

Os questionamentos ao poder, a inconsequente justiça com as próprias mãos. Exibido no Festival de Toronto no ano de 2017, Matar Jesus , escrito e dirigido pela cineasta Laura Mora Ortega é um recorte impactante de um choque entre dois mundos, duas realidades dentro de uma mesma cidade. Uma tragédia inesperada. Uma família em dúvidas sobre o futuro em uma cidade tomada pela criminalidade. Uma jovem em busca de respostas e justiça. Um filme que gera uma dezena de reflexões. Potente fita colombiana. Na trama, conhecemos a jovem e alegre Lita ( Natasha Jaramillo ), estudante de fotografia, universitária, que tem uma grande admiração pelo pai, um professor universitário. Certo dia, após voltar para casa de carona com seu pai Lita presencia o terrível assassinato do mesmo por dois bandidos em uma moto. O tempo passa e Lita parece estar perdida com a absurda falta de sensibilidade da polícia local e sem nenhuma notícia sobre a justiça no caso. Dois meses após a tragédia, em uma boate, acab...

Crítica do filme: 'Minha Família quer que eu Case'

Não é preciso se reinventar, somente entender. Flertando com os clichês dos filmes românticos água com açúcar mas com algumas bonitas mensagens que chegam de maneira muito objetiva, o longa-metragem britânico Minha Família Quer que Eu Case pousa seu refletir nas tradições culturais e nas várias camadas do que seria amar. Dirigido pelo cineasta paquistanês Shekhar Kapur , com roteiro assinado pela britânica Jemima Khan, o projeto aborda de maneira encantadora, com personagens carismáticos, os dilemas provocados pelo pensamento contemporâneo e as raízes conservadoras. Na trama, conhecemos a documentarista Zoe ( Lily James ), uma mulher já na casa dos 30 anos, independente, que se dedicou nos últimos anos de sua vida à carreira profissional com poucas aberturas para amores e paixões. Certo dia, tem uma ideia para um próximo documentário que consiste em filmar a vida do seu vizinho de infância, o oncologista Kaz ( Shazad Latif ) que está prestes a se casar em um casamento arranjado, de a...