Pular para o conteúdo principal

Pausa para uma série: 'A História da minha Família'


Uma das gratas surpresas do ano até agora, a minissérie italiana A História da minha Família é um desfile profundo pelo acaso moldando de forma contagiante uma história de perda e luto se descontruindo através de uma necessidade de laços afetivos. A partir de um carismático personagem principal e seu último desejo, vamos embarcando em uma jornada comovente sobre resiliência e quando o amor bate de frente com a dor.

Ao longo de seis episódios, essa minissérie - que entrou no catálogo da Netflix nesse início de 2025 - nos apresenta a vida de Fausto (Eduardo Scarpetta) em dois momentos. No primeiro, como um carinhoso pai de família que encontrou o amor de sua vida de forma inusitada, numa cafeteria. Anos mais tarde, já separado e com a ex-esposa Sara (Gaia Weiss) enfrentando graves problemas psicológicos, é diagnosticado com uma doença terminal e precisa arrumar as peças soltas em sua família desestruturada antes de partir.

Um momento difícil na vida de uma pessoa sempre é algo tocante. Mas como transformar uma história que ruma para a tristeza em algo leve e revigorante? Ao longo dos capítulos dessa trama - que utiliza com sabedoria o flashback - conhecemos seus personagens de forma individual e coletiva, com cada episódio dedicado a um olhar mais próximo de algum deles. Tendo o protagonista como o elo que constrói todos os laços por aqui, o roteiro não entra em fantasias, busca se aproximar de verdades possíveis na realidade.

O tempo se torna uma peça importante para chegar aos conflitos através de um trivial antes e depois. Abordando relações antes apaixonadas e que depois chegam em suas rupturas, vamos acompanhando ao longo desse tempo as mudanças de vidas e as adaptações necessárias ou impostas por acontecimentos. Desde os primeiros passos do sonhar, passando por amadurecimentos precoces, até a chegada ao concreto das desilusões, a narrativa preenche seus conflitos sem se entregar completamente ao melodrama.      

Mesmo com alguns exageros e ponta soltas dentro de um conflito central que se expande, A História da minha Família comove e chega rapidamente em lições por todos os lados. Se animar em assistir, prepara o lenço, emoção é o que não falta!


Postagens mais visitadas deste blog

Crítica do filme: 'Vípuxovuko – Aldeia' [Fest Aruanda 2025]

Trazendo as reflexões sobre formas de organizações comunitárias, resistência cultural e gritos de identidade em uma aldeia urbana indígena no Mato Grosso do Sul, o curta-metragem Vípuxovuko – Aldeia parte para a ficção com muitas bases na realidade. O projeto surgiu de uma conversa do diretor filme, Dannon Lacerda , com a porteira do seu prédio, cujo sobrinho viria a se tornar inspiração para a obra. Selecionado para a mostra competitiva de curtas-metragens nacionais do Fest Aruanda 2025, a obra avança nas suas críticas sociais, muito bem articuladas a partir de um protagonista de raízes indígenas, que escapa de generalizações. Ele trabalha como entregador e também exerce a função de líder de sua comunidade, reivindicando direitos e protegendo seu povo das ações desenfreadas dos mecanismos do Estado.    A cultura indígena ganha registros através da fé, da cultura, da tradição e da preservação desses povos originários, que em muitos casos estão sempre na luta pela continuid...

Crítica do filme: 'Apocalipse Segundo Baby' [Festival É Tudo Verdade 2026]

Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade. Se você ouvir esse nome por aí, talvez não sabia de quem se trata. No entanto, se falarmos Baby do Brasil – ou mesmo Baby Consuelo, como foi conhecida boa parte de sua carreira - as lembranças logo chegam. 18 anos depois do início do projeto, o documentário Apocalipse Segundo Baby, chegou às telonas brasileiras antes da sua estreia em circuito, através do Festival É Tudo Verdade. Com roteiro e direção de Rafael Saar , a obra toma um rumo corajoso desde seu início, fugindo de referências documentais conhecidas para se chegar em uma narrativa intensa, cheia de imagens e movimentos. Essa busca pela originalidade, na tentativa de traduzir o abstrato de uma personalidade plural, marcada por autorreflexões de Baby, segue apenas por essa perspectiva, com a ajuda de registros de apresentações marcantes. De Niterói a Salvador, passando por uma experiência marcante em Santiago de Compostela - ex-integrante do grupo Novos Baianos, que alcançou o sucesso a...

Crítica do filme: 'Zico, o Samurai de Quintino'

Um craque como poucos, dentro e fora de campo. Se você acompanha futebol - ou não -, já ouviu falar de Zico, um dos maiores camisas 10 da história do futebol mundial. Muito associado à nação rubro-negra, sua idolatria transborda para torcedores de outros times e outros países. Um figura exemplar, que preencheu páginas gloriosas desse esporte que é uma paixão nacional. Hoje, aos 73 anos, o galinho de quintino tem recortes de sua vida apresentados ao público no documentário Zico, o Samurai de Quintino , com estreia marcada para o próximo dia 30 de abril nos cinemas. Dirigido por João Wainer , o projeto busca um olhar amplo, construído desde seus primeiros passos na carreira até sua passagem pelo Japão, mostrando sua importância para a profissionalização do futebol naquela região – um legado visto até hoje -, com um recheio saboroso revisitando sua história profissional no Brasil.    O documentário segue por um modelo narrativo convencional, sem se arriscar, com entrevistas e...