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Crítica do filme: 'A Noite Sempre Chega'


Baseado no livro escrito por Willy Vlautin, o novo drama da Netflix, A Noite Sempre Chega, é um retrato caótico das inconsequências que busca ligar os pontos de um drama pessoal ao processo de gentrificação, ampliando seus horizontes por meio dos respiros de sobrevivência. Com uma das grandes atrizes da atualidade interpretando a personagem principal - Vanessa Kirby – o longa-metragem não oferece respiros, nem almeja o clássico final feliz; busca trazer um recorte visceral e ‘pés no chão’ do viver à margem da sociedade.  

Lynette (Vanessa Kirby) precisa sobreviver em um contexto familiar complicado, convivendo com a mãe, Doreen (Jennifer Jason Leigh), e o irmão mais velho, Kenny (Zack Gottsagen). Quando ficam à beira de perder a casa onde moram, a protagonista precisa arranjar uma alta quantia em apenas 24 horas. Percorrendo, noite adentro, o submundo de uma cidade de oportunidades perdidas, ela é obrigada a confrontar o passado e ultrapassar qualquer limite de inconsequência.

Até onde você iria para salvar sua família? Através dessa pergunta - que parece cair em um senso cada vez mais comum no mundo do cinema -, o discurso acoplado ao roteiro busca reflexões sociais, apoiado por uma contextualização social que se mostra eficiente ao unir gêneros cinematográficos em uma saga de sobrevivência construída a partir de personagens e seus conflitos.

Do drama de perder a casa (uma crítica à gentrificação) aos conflitos internos familiares (pena  Jennifer Jason leigh ser tão pouco aproveitada) e à necessidade de encarar as verdades que a assombram, a protagonista é como um pêndulo cuja trajetória que desce ao inferno várias vezes, mas nem alcança a beira do céu, andando muito longe de qualquer rastro de esperança.  

Para chegar a esse resultado, a narrativa busca um ritmo dosado, acelerando aos poucos, com uma fotografia que reforça a sensação de melancolia e introspecção. Nada fica pelas entrelinhas. Nosso guia pela história, a machucada personagem principal, reage não apenas com a razão: busca as emoções lá do fundo, gerando um mar de incertezas. Dentro desse caos emocional, a trama se desenrola, sustentada pela força da atuação de Vanessa Kirby, que mantém a atenção para essa complexa personagem.     

Dirigido pelo cineasta britânico Benjamin Caron, que tem em seu currículo a direção de episódios de badaladas series recentes como Andor, Sherlock e The Crown, esse projeto é um duro soco no estômago: incomoda, cutuca feridas, e apresenta um retrato profundo da infelicidade e dos momentos em que nos vemos sem saída.

 

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