Enfim chegou ao Brasil uma série que, num primeiro momento, já gerava imensa ansiedade nos amantes das séries ao flertar com crise existencial e serial killers. Navegando nessa mistura atraente, Sweetpea segue à risca esses temas, somados a um texto cheio de sarcasmo – muitas vezes ácido – que coloca na tela, de forma cômica e sangrenta, os conflitos de uma jovem que acorda para a vida matando.
Protagonizado pela excelente atriz britânica Ella Purnell – também protagonista de
outro sucesso do Prime Video, Fallout
–, essa divertida série de apenas seis episódios em sua primeira temporada é baseada
na obra homônima da escritora e professora de escrita criativa CJ Skuse.
Na trama, ambientada na cidade fictícia de Carnsham, conhecemos
Rhiannon Lewis (Ella Purnell), uma
jovem reservada que passou por diversos traumas em outras fases da vida – principalmente
o bullying que sofria na escola. Quando seu pai morre, algo sombrio desperta
nessa personagem, e um instinto sangrento começa a se sobrepor a qualquer lapso
moral. Assim, ela embarca em uma jornada de descobertas, enquanto as
inconsequências se somam à sua nova rotina como serial killer.
Com a psiquê humana em modo sugestivo ligada, nossos olhos seguem
pela perspectiva da protagonista, uma mulher que parece não ter vivido seus
sonhos e se acomodou no marasmo de dias sem expectativas. Aos poucos, vamos
descobrindo alguns porquês – ligados frequentemente a traumas não superados e relações
abruptamente rompidas. É assim no trabalho, na família, no amor. Ela vive à
margem do que os outros conquistam ao seu redor.
A cada episódio - cada um contribuindo bastante para uma
construção ampla da personagem - dá a brecha para que a narrativa se jogue numa
imersão pela mente dessa fascinante e imprevisível figura central, lapidando
cada tensão emocional com a força da violência, em cenas muito bem pensadas e
que causam impacto, utilizando o sombrio como um trunfo criativo para criar
possibilidades.
Ainda em relação a construção narrativa – a forma como é
contada essa história -, o ritmo não acelera em nenhum momento, e esse
equilíbrio é fundamental para a consistência dramática quando a virada
acontece, com a chegada dos gatilhos que provocam a reviravolta. A série não
chega a entrar de cabeça em um suspense, nem se insere propriamente no terror -
flerta. O que salta aos olhos aqui é o drama, com o alicerce do quebra-cabeça
emocional que se desmonta a todo instante, nos levando para um passeio
divertido e trágico por uma mente sombria.
Sweetpea faz o
simples, mas não segue receitas de bolo: busca originalidade – talvez para
fugir de espelhos com outras obras que trazem serial killers marcantes. A obra
veste a camisa do moralmente ambíguo, apresenta ótimos personagens coadjuvantes
e projeta críticas sociais importantes - algumas ligadas aos diversos tipos de violência
contra mulheres - sem perder a força de uma protagonista fascinante que vai dar
o que falar.
