Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade. Se você ouvir esse nome por aí, talvez não sabia de quem se trata. No entanto, se falarmos Baby do Brasil – ou mesmo Baby Consuelo, como foi conhecida boa parte de sua carreira - as lembranças logo chegam. 18 anos depois do início do projeto, o documentário Apocalipse Segundo Baby, chegou às telonas brasileiras antes da sua estreia em circuito, através do Festival É Tudo Verdade.
Com roteiro e direção de Rafael Saar, a obra toma um rumo corajoso desde seu início, fugindo
de referências documentais conhecidas para se chegar em uma narrativa intensa,
cheia de imagens e movimentos. Essa busca pela originalidade, na tentativa de
traduzir o abstrato de uma personalidade plural, marcada por autorreflexões de
Baby, segue apenas por essa perspectiva, com a ajuda de registros de
apresentações marcantes.
De Niterói a Salvador, passando por uma experiência marcante
em Santiago de Compostela - ex-integrante do grupo Novos Baianos, que alcançou
o sucesso ao longo dos anos 1970 - vai contando a sua própria história que
atravessou gerações na Música Popular Brasileira. Com uma personalidade que
causa impacto em segundos, a artista de 73 anos tem sua trajetória marcada pela
espiritualidade e pela subjetividade. Um mérito do projeto é tentar jogar luz
nesse campo abstrato, estabelecendo caminhos e diálogos com o universo
psicodélico.
Nesse livro aberto de memórias, desabafos e confissões, vamos
conhecendo melhor essa artista que nunca chegou ao anonimato, intercalando sua
vida pessoal com a profissional. No entanto, a escolha do modelo narrativo faz
com que a obra se resuma a uma nota só. Ao longo de quase duas décadas realizando
pouco a pouco esse trabalho, Saar reuniu um arquivo poderoso e potente, que
busca ser um grande complemento para tudo que é dito, mas por vezes naufraga na
falta de bifurcações críticas - possíveis contrapontos que poderiam enriquecer
a obra.
Mesmo irregular, o documentário apresenta qualidades. Uma
delas é que é feito para todos: tanto para fãs quanto para quem não conhece
esse ícone da MPB. Não é nenhum absurdo pensar que, após a sessão, muitas
pessoas vão se interessar em ouvir as dezenas de canções que marcaram a vida
dessa artista inigualável.
Apocalipse Segundo
Baby joga todas suas cartas na tradução de uma personalidade indecifrável e
acaba acertando na eterna busca de uma artista sempre em busca de se encontrar.
