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Crítica do filme: 'Depois do Fogo'


Há uma máxima na vida de que o ser humano tem uma capacidade - muitas vezes imperceptível - de saber recomeçar. Seguindo essa verdade e rapidamente nos jogando em reflexões sociais dilacerantes, com um tom melancólico agudo ditando o ritmo, Depois do Fogo, interessante filme que chegou à Netflix, expõe as cicatrizes de uma tragédia ao mesmo tempo que apresenta a beleza de um recomeçar.

Com uma emoção contida à flor da pele, guiada pela introspecção de seu abalado protagonista, este drama intimista - que rompe camadas ao longo de seus atos - parte de um sonho destruído e de perdas em muitas formas, atravessa o luto até chegar em um dilema paternal repleto de significados. Escrito e dirigido por Max Walker-Silverman, esse é um daqueles filmes que conseguem comover profundamente, movido pela simplicidade de gestos e emoções.

Dusty (Josh O'Connor) está passando por um caos em sua vida. Após perder tudo o que tinha em um incêndio florestal, ele precisa reunir forças para encarar um recomeço. Ele se instala em um acampamento ligado à Agência Federal de Gestão de Emergências dos EUA (FEMA) e, nesse lugar, conhece outras pessoas na mesma situação, como Mila (Kali Reis). Ao mesmo tempo que precisa saber o que fazer da vida, Dusty começa a se reconectar com a filha Callie-Rose (Lily LaTorre), ajudado pela ex-namorada Ruby (Meghann Fahy) e a mãe dela, Bess (Amy Madigan).

Escrito e dirigido por Max Walker-Silverman, essa é uma obra construída em cima de uma narrativa que vai envolvendo aos poucos e, quando percebemos, já estamos completamente fisgados por essa história, que coloca como alicerce para seu desabrochar a dicotomia entre a vida e a morte - das experiências que vivemos aos sentidos que encontramos pelo caminho. Há poesia e filosofia pelas entrelinhas.

Assim, o abstrato da dor, a perda de muitas formas e o luto, se juntam ao reunir os cacos de um amor perdido, à chegada da compaixão, e até mesmo o perdoar - faces opostas que representam elementos de um fluxo contínuo, uma representação simbólica e certeira sobre o ciclo da vida. O contraste da natureza ao redor que, mesmo abalada, mostra suas belezas, é inserido em momentos de silêncio que dizem muito e expõem o equilíbrio harmonioso entre direção e fotografia.

Depois do Fogo é uma caixinha de surpresas: um filme que entrou na Netflix sem muito alarde e pode virar um dos mais marcantes, para muitos de nós, neste primeiro semestre de 2026. Belo trabalho.

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