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Crítica do filme: 'Massa Funkeira' [Festival do Rio 2025]

Abrindo espaço para vários olhares sobre o movimento funkeiro - um dos grandes expoentes da cultura brasileira quando pensamos em representações artísticas, sobretudo no Rio de Janeiro -, o documentário Massa Funkeira , novo trabalho da cineasta Ana Rieper , reúne um interessante retrato social a partir de uma série de registros e depoimentos de Mc’s, dançarinos e produtores, revelando novos olhares para essa arte musical que conquista atenção e aborda, sem papas na línguas, temas considerados tabus na sociedade. A montagem desse filme é a chave do sucesso. Ao criar um ritmo intenso e envolvente, esse retrato social coloca em evidência - sem moralismos e julgamentos - as letras ligadas as relações íntimas, especialmente o sexo. Assim, percorremos o por trás da fama de artistas desse segmento que alcançaram sucesso em vários períodos dos últimos anos, chegando também às mudanças e reflexões por trás das canções que embalaram bailes funks pelo Brasil – e pelo mundo. Com uma mescla de...

Crítica do filme: '#SalveRosa' [Festival do Rio 2025]

Uma mãe cruel, controladora e egoísta que expõe sua filha na internet. É a partir dessa premissa - que atravessa os muitos olhares sobre uma trágica relação familiar – que o novo trabalho da ótima cineasta Susanna Lira apresenta, de forma reta e contundente, um assunto que vem ganhando cada vez mais atenção na sociedade contemporânea: a exposição infantil nas redes sociais. #salverosa é um grito de socorro que pode abrir os olhos de muitas pessoas. Aos 13 anos, Rosa ( Klara Castanho ) é uma jovem introspectiva que virou uma celebridade na internet com um canal que reúne milhões de assinantes. Ela vive sob o olhar atento da mãe ( Karine Teles ), uma mulher controladora, enigmática e que esconde segredos. Nessa relação que vai se mostrando cada vez mais conflituosa, acompanhamos os desenrolares desse chocante retrato quando Rosa começa a descobrir verdades da sua própria história.   O tom colorido do projeto – com cores pulsantes, fruto de uma direção de arte que dialoga com o ca...

Crítica do filme: 'Alice' [Festival do Rio 2025]

Já dizia alguém: é nos pequenos frascos que estão os melhores perfumes! Com uma composição visual deslumbrante, criando significados a partir do desbravar da linguagem, quase um chamado para a imersão de sentimentos que pulsam na tela, o curta-metragem Alice , dirigido por Gabriel Novis é um retrato comovente e profundo de uma mulher trans nascida em Maceió. Embarcando em uma reinvenção de sua própria trajetória, Alice Barbosa apresenta ao público a sua história, que teve estreia nacional no Festival do Rio 2025. É impressionante como, em apenas 17 minutos, nossos pensamentos se veem mergulhados em reflexões constantes de um retrato muito bem construído e sensível. Tocante e contornando o terror do preconceito, a narrativa nos projeta para conhecer uma história que fala muito sobre família, despertar para suas verdades, o luto, os prazeres através do esporte e também as mudanças com as despedidas. Com uma narração da própria personagem-título, somos conquistados do primeiro ao últim...

Crítica do filme: 'Sobre Tornar-se uma Galinha d'Angola' [Festival do Rio 2025]

Uma das maiores alegrias de qualquer amante da sétima arte é se deparar com uma obra surpreendente e avassaladora durante um evento de cinema. No terceiro dia de exibições do Festival do Rio 2025 nos deparamos com um longa-metragem impressionante que, de forma criativa e envolvente – utilizando a comédia em muitos momentos para nos guiar por assuntos espinhosos ligados a uma família - nos leva até um recorte sobre a violência, crueldade e tradições, ambientada num país africano. Escrito e dirigido pela cineasta zambiana Rungano Nyoni , esse projeto nos conduz até o ensurdecedor silêncio de verdades escondidas, ao conflito geracional, à desigualdade de gênero e ao caos do patriarcado – elos de uma corrente que insere-se na violência sem punição, na dor e sofrimento capazes de transformar olhares e redefinições de trajetórias. Shula ( Susan Chardy ) está dirigindo seu carro quando, de repente, percebe um corpo estirado no meio da estrada – e logo percebe que se trata de seu tio. Quan...

Crítica do filme: 'Depois da Caçada' [Festival do Rio 2025]

O italiano Luca Guadagnino é um dos mais interessantes cineastas da atualidade - e isso não vai mudar. Seu cinema busca reflexões sociais atuais, dialogando com o público a cada ponto de suas narrativas, como já se viu na maioria dos seus filmes. Em seu novo trabalho, Depois da Caçada , exibido pela primeira vez no prestigiado Festival de Veneza – e filme de Abertura do Festival do Rio 2025 -, ele volta a recortes sociais importantes e, dessa vez, convida o público a embarcar em um elevador para camadas de assuntos que vão se amontoando, sem respiro para reflexões. Pra embarcar nesse longa-metragem, é preciso atenção. Pelas entrelinhas de diálogos bem construídos, a filosofia surge como base – o principal ingrediente desse molho que busca, no conflito, as pausas necessárias pra expor a ética e a moral em uma sociedade cada vez mais egoísta. Foucault, Locke são citados e servem de gancho para camadas que exploram desde a necessidade de controle e o cancelamento até as relações interp...

Crítica do filme: 'French Lover'

Na simpatia e bom humor se leva uma história batida. Tratando com maturidade alguns temas – mesmo entupido de clichês – o novo longa-metragem da Netflix French Lover é aquele mais do mesmo que consegue nos divertir. Trazendo como protagonista um dos mais carismáticos artistas do cinema mundial - o francês Omar Sy – a produção coloca seus holofotes para um casal que busca a felicidade no equilíbrio entre dois mundos completamente diferentes.   Abel ( Omar Sy ) é um ator francês em plena ascensão na carreira. Já Marion ( Sara Giraudeau ) é uma recém-divorciada que sonha em ter um food truck. Um dia, esses dois se encontram por acaso e logo nasce uma paixão avassaladora. Com o tempo, precisam enfrentar os obstáculos que aparecem pelo carinho. Dirigido por Nina Rives , em seu primeiro longa-metragem, o filme busca a todo tempo alcançar um clímax previsível – desde o início, fica evidente onde chegaria o desenvolvimento dos personagens. O caminho até esse destino é marcado por alto...

Crítica do filme: 'Cais' [CineBH 2025]

No segundo dia do CineBH 2025, foi apresentado ao público um longa-metragem que é uma experiência – muitas vezes indecifrável –, rompendo com o lugar-comum trazendo os múltiplos sentidos da ausência entre belíssimas, e espalhadas, imagens em movimento. Tendo a água - o recurso fundamental para existência - como elemento-chave para o decifrar as reflexões, Cais, longa-metragem dirigido por Safira Moreira, encontra no luto uma forma de pensar o tempo.   Entre antíteses que atravessam o recorte de uma família - o passado e o presente, a morte e a vida, tradição, cultura, religião -, o pensar sobre a existência se alia a uma câmera que encontra os lugares, como um personagem observador, em busca de um norte para os afluentes que conduzem ao epicentro dessa história. As interpretações podem ser variadas: esse é um documentário que não revela, mas pede pra ser sentido. De algum modo, tudo passa pelo tempo entrelaçando as gerações. Há um desafio para o público: nesse ‘River Movie’, nã...