Pular para o conteúdo principal

Crítica do filme: 'O Poço'


Uma das coisas que mais escutamos como desculpas para filmes não terem boas bilheterias, ou visualização (no caso dos lançamentos diretos em streamings), é que não acertaram a data de lançamento e acabaram fracassando. Nada disso pode ser associado ao filme O Poço, El Hoyo no original, lançado nos últimos dias no Netflix, pelo contrário. Mais exata na data impossível. Assim falemos do projeto, uma utopia de ideias já vistas em outros filmes (como em O Expresso do Amanhã, filme do diretor de Parasita, atual vencedor do Oscar Bong Joon Ho), até mesmo de formas diferentes, o filme tem força suficiente no seu clima de tensão imposto e fala através das pesadas e inconsequentes ações de seus personagens. Debutando em longas-metragens, o cineasta Galder Gaztelu-Urrutia, indicado ao prêmio Goya de Melhor Diretor Revelação, mostra competência na direção e deixa margens para argumentos e teorias sobre o desfecho desse impactante roteiro.

Na trama, conhecemos de maneira quase instantânea um homem chamado Goreng (Ivan Massagué em atuação espetacular) se encontra em uma situação peculiar: dividindo uma espécie de quarto com outra pessoa, num lugar onde a refeição desce por andar em andar bem no centro de todos os quartos. Assim, a história vai seguindo e nós vamos descobrimento ou pensando sobre o que seria aquilo que estão vivendo. Quantos andares tem esse lugar? Porque a comida é farta para uns e nada vem para outros? O que fazer nas situações extremas? É um experimento social? As pessoas que estão ali estão forçadas a isso? Ao longo dos objetivos 94 minutos o lado de cá da tela responde muito mais perguntas do que o próprio filme.

Mesmo seguindo linhas de rebate às causas sociais da realidade e que já estiveram em contexto em outras produção como também em High Rise (2015) de Ben Wheatley, O Poço consegue construir uma narrativa eficiente caminhando na estreita margem da tensão que aflora de maneira impactante ao longo do filme. A cada arco, vamos nos movimentando para dentro desse tabuleiro psicológico como se fosse uma espécie de rpg onde buscamos soluções para nosso ‘herói’ e sempre em busca de uma solução que nada fácil se apresenta. Comparando com o mundo real, e a pandemia do coronavírus que vivemos, o impacto é mais forte ainda. Lembra do que foi falado na introdução lá no primeiro parágrafo? A data de lançamento dele para causar conscientização nas pessoas em quarentena social pelo mundo serve de força para pensarmos cada vez mais nessa sociedade que vivemos onde uns não dão quase nada para os outros, onde o egoísmo prevalece. Por colocar o dedo bem forte na ferida, O Poço já merece destaque, a mensagem chega bem mastigada a todos que querem ver e ouvir.

Postagens mais visitadas deste blog

Pausa para uma série: Absentia – 1ª Temporada

O desespero de uma nova vida dentro de uma mesma realidade. Protagonizada por Stana Katic ( Castle ), Absentia tem um dos roteiros mais complicados das séries de mistérios com tiro porrada e bomba da atualidade, mesmo assim coloca uma pulga atrás da orelha do espectador pois os episódios da primeira temporada parecem a todo tempo nos fazer várias perguntas que obviamente surgem entre em uma revelação e outra, deixando a icógnita se teremos respostas ao fim dessa jornada. Uma agente do FBI, um sumiço de anos, uma frenética volta ao convívio aos seus conhecidos e o paradigma das escolhas, isso tudo dento de um background de um assassino misterioso. Pra quem gosta de maratonar uma série com muitas surpresas, Absentia pode ser uma boa dica.  Tem na Amazon Prime . Nessa mistura de drama pessoal com suspense e ação, acompanhamos a trajetória de uma agente do FBI chamada Emily ( Stana Katic ) que sumiu por longos seis anos sem ninguém ter muita noção de seu paradeiro até que um certo...

Crítica do filme: 'De Sombra e Silêncio'

A cumplicidade em meio a um mar de descobertas. Diretamente de um país da Europa central com ótimas contribuições à sétima arte, a República tcheca (ou atualizado, Tchéquia), o longa-metragem De Sombra e Silêncio de forma objetiva e sem muita delonga transforma um segredo familiar em um pilar de acontecimentos surpreendentes  que rumam para o imprevisível. A vida do veterinário Martin ( Marian Mitas ) passou por uma enorme transformação após um acidente de trabalho, fato esse que o deixou em uma situação estável mas bastante limitada, sem falar e com sérios problemas. Para cuidar dele, a esposa Erika ( Jana Plodková ) entra logo num embate com a sogra Dana ( Milena Steinmasslová ), com quem nunca teve boa relação. Com a chegada de uma outra mulher nessa história, segredos do passado vai sendo passados a limpo culminando em uma série de situações surpreendentes. Umas das chaves do roteiro assinado - pelo também diretor da obra - Tomas Masin é gradativamente empilhar camadas em...

Crítica do filme: 'Criaturas do Farol'

As dúvidas sobre o canto da sereia. Se perdendo em alguns momentos entre os achismos que surgem naturalmente numa relação desconfiada entre duas pessoas que nunca se viram, o longa-metragem Criaturas do Farol é um peculiar suspense psicológico com poucas perguntas e também poucas respostas. O roteiro se fortalece em diálogos que nos guiam para uma jornada emocional e paranoias que prendem a atenção na maior parte do tempo mas não chegam a empolgar. Pensando em realizar um objetivo náutico, que remete lembranças ao pai e apoiada pelo avô, a jovem Emily ( Julia Goldani Telles ) parte com seu veleiro rumo às infinidades dos oceanos. Chegando no sul do pacífico, a embarcação é atingida por uma tempestade e acaba indo parar numa ilha onde é resgatada pelo faroleiro Ismael ( Demián Bichir ). Logo essa relação de gratidão passará por enormes desconfianças. Como contar uma história que está em uma bolha no campo das suposições? A tensão por meio do chocalhar psicológico se torna um corpul...