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E aí, querido cinéfilo?! - Entrevista #348 - Mayara Magalhães


O que seria de nós sonhadores sem o cinema? A sétima arte tem poderes mais potentes do que qualquer superman, nos teletransporta para emoções, situações, onde conseguimos lapidar nossa maneira de enxergar o mundo através da ótica exposta de pessoas diferentes. Por isso, para qualquer um que ama cinema, conversar sobre curiosidades, gostos e situações engraçadas/inusitadas são sempre uma delícia, conhecer amigos cinéfilos através da grande rede (principalmente) faz o mundo ter mais sentido e a constatação de que não estamos sozinhos quando pensamos nesse grande amor que temos pelo cinema.

 

Nossa entrevistada de hoje é cinéfila, de Fortaleza (Ceará). Mayara Magalhães tem 37 anos, é graduada em Ciências Sociais na Universidade Federal do Ceará, fez mestrado e doutorado em Sociologia na mesma Universidade. No Doutorado pesquisou recepção de telenovelas em grupos de discussão em redes sociais. Fez cursos livres na área de roteiro e fotografia. Atualmente trabalha no Cine CearáFestival Ibero-americano de cinema, colaborando na coordenação de cursos e seminários. Também trabalha elaborando projetos culturais e realizando pesquisas para documentários.

 

1) Na sua cidade, qual sua sala de cinema preferida em relação a programação? Detalhe o porquê da escolha.

Cinema do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Praticamente é o único da cidade que exibe filmes independentes e de arte. Além disso a grade de horários para estes tipos de filmes é mais diversa e o preço do ingresso mais acessível.

 

2) Qual o primeiro filme que você lembra de ter visto e pensado: cinema é um lugar diferente.

Acho que Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick. Tive a oportunidade de assisti-lo pela primeira vez em projeção em sala de cinema. Assistir aquela construção a respeito da violência numa tela grande foi uma experiência que na época me impactou bastante. Acho que a partir dali percebi que cinema também é experiência e imersão em universos distantes do nosso, seja em relação a cultura, condições socioeconômicas, afetivas, ou, muitas vezes, uma conjugação dessas 3 camadas.

 

3) Qual seu diretor favorito e seu filme favorito dele?

Creio que não tenho um diretor favorito, mas existem diretores que considerando a obra como um todo, gosto muito, são eles: Ingmar Bergman, que apesar de ter um universo feminino que eu gosto demais, para mim O sétimo selo realmente é o auge! De Stanley Kubrick, meu favorito é Dr. Fantástico. Mesmo sabendo que Quentin Tarantino tem filmes muito mais celebrados, eu gosto demais de À prova de morte. Também gosto do David Fincher, e adoro Garota Exemplar. Gostaria também de citar a Ava DuVernay. Ela é engajada, narra histórias extremamente relevantes. Acho que a forma como ela fala do racismo consegue transformar as pessoas. Fugindo um pouco dos filmes, a série Olhos que condenam é incrível. Ela monta a história do ponto de vista daquelas crianças e adolescentes, é doloroso, mas necessário.  Do cinema nacional gosto da perspectiva que Kleber Mendonça Filho tem do Brasil, em especial em Bacurau. E aqui do meu estado, o Ceará, destaco Petrus Cariry, que além de diretor, também faz a fotografia dos filmes dele, que são deslumbrantes. O choque geracional nas relações familiares é um tema presente nos filmes do Petrus, a forma como ele narra esses impasses é impactante. Mãe e Filha é o meu favorito.

 

4) Qual seu filme nacional favorito e porquê?

Tenho vários! Primeiro quero citar os dois longas metragens do meu companheiro, Wolney Oliveira, diretor de Os Últimos Cangaceiros e Soldados da Borracha, ambos são documentários que possuem uma estrutura dramática da jornada do herói e cativam os espectadores. É difícil manter o público brasileiro interessado num filme documentário, mas Wolney consegue. Ele inclusive tem vários prêmios de júri popular, imagino que esse feito não é algo muito comum para o gênero documentário. Já vi os dois filmes várias vezes e não canso de assistir. Outros filmes brasileiros que já vi várias vezes e continuarei vendo sempre que tiver oportunidade são: O Auto da Compadecida, de Guel Arraes; Ó Paí, Ó, Monique Gardenberg; Madame Satã, de Karim Aïnouz e Cidade de Deus, Fernando Meirelles e Kátia Lund. Algo em comum que vejo nesses filmes é o fato de serem protagonizados por personagens que estão na periferia das cidades, e do Brasil profundo, e lutam com as armas que tem para sobreviver e resistir ao abandono e à invisibilidade.

 

5) O que é ser cinéfilo para você?

Para mim ser cinéfilo é curtir a magia do cinema, mas também ser curioso. É tentar entender e mergulhar no universo de um diretor. Conhecer o momento histórico em que o filme foi produzido, no que diz respeito ao contexto social, mas também tecnológico, e as influências daquele momento na produção do filme.

 

6) Você acredita que a maior parte dos cinemas que você conhece possuem programação feitas por pessoas que entendem de cinema?

Nas salas de cinema comercial creio que não. No que se refere às salas de cinema fora do circuito comercial, com certeza existe curadoria qualificada.

 

7) Algum dia as salas de cinema vão acabar?

Como eu acredito que cinema é experiência, acho que as salas são espaços privilegiados em proporcionar isso ao público, deste modo creio que as salas de cinema não acabam. Contudo, imagino que no futuro as experiências que as salas de cinema oferecerão serão cada vez mais tecnológicas.

 

8) Indique um filme que você acha que muitos não viram mas é ótimo.

Os Trapalhões no Auto da Compadecida (1987), de Roberto Farias. Recomendo o filme por vários motivos. Primeiro que a adaptação da peça teatral para o cinema contou com a colaboração do próprio Ariano Suassuna. Segundo, gostando ou não de Os Trapalhões, Renato Aragão é um dos artistas que mais produziu e somou público no cinema brasileiro. Muita gente da minha geração, inclusive eu, foi a primeira vez ao cinema para ver um filme de “Os Trabalhões”. Seguramente a versão de Guel Arraes é um dos filmes mais queridos do cinema nacional, portanto, vale muito a pena conferir essa versão de 1987. Além der ser muito bom, creio que todos esses elementos fazem de “Os Trapalhões no Auto da Compadecida” um filme que tem um lugar relevante na trajetória do cinema brasileiro.

 

9) Você acha que as salas de cinema deveriam reabrir antes de termos uma vacina contra a covid-19?

Estou respondendo esta questão em 21/03/2021, até esta data estamos vivendo o momento mais dramático da pandemia no Brasil. Não há condições de reabrir as salas de cinema agora, mesmo com protocolos sanitários rigorosos.

 

10) Como você enxerga a qualidade do cinema brasileiro atualmente?

Acho que o cinema brasileiro conseguiu chegar num patamar de agradar vários públicos. Cada público assiste o que gosta. Acredito que conseguir manter uma diversidade de gêneros é importante para a indústria audiovisual nacional.

 

11) Diga o artista brasileiro que você não perde um filme.

Matheus Nachtergaele, ele está no elenco de quase todos os filmes brasileiros! E é um ator maravilhoso.

 

12) Defina cinema com uma frase:

Cinema é experiência, precisa fazer a gente rir, chorar e se colocar no lugar do outro.

 

13) Conte uma história inusitada que você presenciou numa sala de cinema.

Eu não diria inusitada, mas que revela o conservadorismo brasileiro. Lembro de ter ido assistir Praia do Futuro e uma galera sair da sala de cinema quando descobriram que o Donato era gay. Imagina o choque, o Wagner Moura, super conhecido por ter interpretado o Capitão Nascimento, apaixonado pelo boy gringo e vivendo aquela paixão caliente.

 

14) Defina 'Cinderela Baiana' em poucas palavras...

 

Um meme clássico da internet brasileira.

 

15) Muitos diretores de cinema não são cinéfilos. Você acha que para dirigir um filme um cineasta precisa ser cinéfilo?

Sem dúvidas! Ter referências é fundamental em qualquer área de atuação profissional, sobretudo naquelas que envolvem criatividade.

 

16) Qual o pior filme que você viu na vida?

Recentemente assisti o filme “Eu me importo”, original Netflix, não tem como defender.

 

17) Qual seu documentário preferido?

Para não citar novamente os filmes do Wolney, vou citar o Ex-Pajé, do Luiz Bolognesi. Esse documentário me remete ao Nanook, o esquimó, Robert Flaherty, que é um filme básico no repertório acadêmico de quem estuda ciências sociais, que é a minha área de formação.

 

18) Você já bateu palmas para um filme ao final de uma sessão?

Sim, em As Sufragistas e em Bacurau.

 

19) Qual o melhor filme com Nicolas Cage que você viu?

Arizona Nunca Mais.

 

20) Qual site de cinema você mais lê pela internet?

Por conta do meu trabalho costumo acompanhar o Filme B e Tela Viva News. Sites de crítica de cinema, não sou muito específica. Normalmente pesquiso sobre algum filme e leio resenhas de vários portais.

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