Pular para o conteúdo principal

Crítica do filme: 'Cassandro'


Quando o seu sonho se torna o reflexo de tantos outros. Lançado mundialmente no Festival de Sundance desse ano, Cassandro caminha sobre as empolgantes mentirinhas dos ringues de luta livre que escondem as verdades dos dramas da vida real. Com um olhar profundo para a sexualidade e os conflitos familiares, o longa-metragem escrito e dirigido pelo cineasta norte-americano Roger Ross Williams busca alcançar a melancolia as vezes se perdendo no desenvolvimento lento de sua narrativa mas nada que atrapalhe as lindas mensagens que o projeto transmite.


Na trama, conhecemos Saúl (Gael García Bernal), um jovem nascido em El Paso (Texas) que tem o sonho de ser lutador profissional de luta livre e mora com a mãe Yocasta (Perla De La Rosa) no lado mexicano da fronteira com os Estados Unidos. Ele é gay e está em um relacionamento escondido com um homem casado. Enfrentando o preconceito em um esporte machista, quando começa a se destacar, resolve adotar o nome de ‘Cassandro’ virando uma referência para milhares de amantes desse esporte.


Ambientado no final da década de 80, início dos anos 90, Cassandro navega em um olhar profundo para família. Somente tendo proximidade com a mãe, já que o pai os abandonara de vez por conta da sexualidade do filho, Saúl parece viver seus sonhos em segredos, seja o de ser um grande lutador, querido pelo público, ou mesmo ter uma relação amorosa onde não precise esconder quem ele é. Há um conflito doloroso com o pai, figura que lhe fez amar o esporte que viraria sua profissão. A força da amizade e os encontros pelo caminho acabam construindo novas maneiras de enxergar o mundo que vive. Gael García Bernal está brilhante no papel principal.


O filme não tem um grande clímax, o que poderia ser um problema, mas um ótimo desfecho completa qualquer lacuna que pode ter ficado pelo caminho. No desenvolvimento, a narrativa se perde ao alcançar a melancolia, estaciona em um ritmo lento, mas nada que atrapalhe as mensagens que o filme carrega em suas linhas do roteiro que conseguem serem transmitidas de forma objetiva e com altas cargas de emoção.



Postagens mais visitadas deste blog

Crítica do filme: 'Vípuxovuko – Aldeia' [Fest Aruanda 2025]

Trazendo as reflexões sobre formas de organizações comunitárias, resistência cultural e gritos de identidade em uma aldeia urbana indígena no Mato Grosso do Sul, o curta-metragem Vípuxovuko – Aldeia parte para a ficção com muitas bases na realidade. O projeto surgiu de uma conversa do diretor filme, Dannon Lacerda , com a porteira do seu prédio, cujo sobrinho viria a se tornar inspiração para a obra. Selecionado para a mostra competitiva de curtas-metragens nacionais do Fest Aruanda 2025, a obra avança nas suas críticas sociais, muito bem articuladas a partir de um protagonista de raízes indígenas, que escapa de generalizações. Ele trabalha como entregador e também exerce a função de líder de sua comunidade, reivindicando direitos e protegendo seu povo das ações desenfreadas dos mecanismos do Estado.    A cultura indígena ganha registros através da fé, da cultura, da tradição e da preservação desses povos originários, que em muitos casos estão sempre na luta pela continuid...

Crítica do filme: 'Apocalipse Segundo Baby' [Festival É Tudo Verdade 2026]

Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade. Se você ouvir esse nome por aí, talvez não sabia de quem se trata. No entanto, se falarmos Baby do Brasil – ou mesmo Baby Consuelo, como foi conhecida boa parte de sua carreira - as lembranças logo chegam. 18 anos depois do início do projeto, o documentário Apocalipse Segundo Baby, chegou às telonas brasileiras antes da sua estreia em circuito, através do Festival É Tudo Verdade. Com roteiro e direção de Rafael Saar , a obra toma um rumo corajoso desde seu início, fugindo de referências documentais conhecidas para se chegar em uma narrativa intensa, cheia de imagens e movimentos. Essa busca pela originalidade, na tentativa de traduzir o abstrato de uma personalidade plural, marcada por autorreflexões de Baby, segue apenas por essa perspectiva, com a ajuda de registros de apresentações marcantes. De Niterói a Salvador, passando por uma experiência marcante em Santiago de Compostela - ex-integrante do grupo Novos Baianos, que alcançou o sucesso a...

Crítica do filme: 'Zico, o Samurai de Quintino'

Um craque como poucos, dentro e fora de campo. Se você acompanha futebol - ou não -, já ouviu falar de Zico, um dos maiores camisas 10 da história do futebol mundial. Muito associado à nação rubro-negra, sua idolatria transborda para torcedores de outros times e outros países. Um figura exemplar, que preencheu páginas gloriosas desse esporte que é uma paixão nacional. Hoje, aos 73 anos, o galinho de quintino tem recortes de sua vida apresentados ao público no documentário Zico, o Samurai de Quintino , com estreia marcada para o próximo dia 30 de abril nos cinemas. Dirigido por João Wainer , o projeto busca um olhar amplo, construído desde seus primeiros passos na carreira até sua passagem pelo Japão, mostrando sua importância para a profissionalização do futebol naquela região – um legado visto até hoje -, com um recheio saboroso revisitando sua história profissional no Brasil.    O documentário segue por um modelo narrativo convencional, sem se arriscar, com entrevistas e...