Pular para o conteúdo principal

Crítica do filme: 'Click'


Quem não gostaria de controlar o tempo? Chegou aos cinemas no ano de 2006 um longa-metragem onde a crise existencial corre em paralelo com a comédia tendo o tempo como elemento vital na narrativa. Click, dirigido pelo cineasta nova iorquino Frank Coraci e protagonizado por Adam Sandler, bate na tecla do desperdício da vida aos olhos de um workholic que navega nas desilusões de seus próprios atos. O projeto é muito mais profundo do que aparenta, principalmente se alcançarmos reflexões jogadas nas entrelinhas.


Na trama, conhecemos Michael (Adam Sandler) um arquiteto preocupado em crescer na empresa em que trabalha, por vezes estressado que joga todo o foco de seu presente na dedicação incansável a seu trabalho por vezes tentando agradar o seu chefe Ammer (David Hasselhoff). Sem tempo para a família, perdendo momentos importantes na criação dos dois filhos pequenos, e se distanciando cada vez mais da esposa Donna (Kate Beckinsale), certo dia após mais uma crise de irritação por coisas banais, vai até uma enorme loja e lá, num escritório escondido que fica no estoque, acaba encontrando um homem misterioso chamado Morty (Christopher Walken) que lhe oferece um controle remoto mágico com o poder de avançar ou voltar no tempo. O uso descontrolado do objeto vai levar Michael a diversos conflitos e ele começa a rever algumas escolhas.


Indicado para o Oscar de Melhor Maquiagem, Click tem um ar filosófico que avança nas reflexões sobre o desperdício da vida, questão que muitos enfrentam num cotidiano profissional cada vez mais acirrado, competitivo, deixando muitas vezes confuso o lado pessoal. Aqui o roteiro encontra a atemporalidade. A narrativa consegue chegar em um ótimo ritmo na mistura da melancolia com a diversão, com a crise existencial correndo em paralelo com a comédia. Isso é um grande feito já que para onde o olhar do espectador passa há caminhos para reflexões.


Outro ponto importante é sobre a seguinte questão: Qual o sentido da vida? Revisitando partes dela, para frente ou para trás, já que avança o que não quer, muta o que não quer ouvir, vemos Michael e seus conflitos bem definidos, seja no seu trabalho ou em casa com sua família. Nesse último ponto, mesmo que não aparecendo muito, vemos uma confusa e insatisfeita esposa que começa a se distanciar, algo que fica nítido nas entrelinhas e conforme o tempo avança fica óbvio que as escolhas do presente que se encontra acaba levando o protagonista a um futuro triste, solitário. Será que era assim que ele queria que terminasse sua história?


Click se disfarça nas cenas que fazem rir sempre com um elementos que podemos pensar sobre nossas próprias vidas. De bobo não tem nada essa obra! 



Postagens mais visitadas deste blog

Crítica do filme: 'Vípuxovuko – Aldeia' [Fest Aruanda 2025]

Trazendo as reflexões sobre formas de organizações comunitárias, resistência cultural e gritos de identidade em uma aldeia urbana indígena no Mato Grosso do Sul, o curta-metragem Vípuxovuko – Aldeia parte para a ficção com muitas bases na realidade. O projeto surgiu de uma conversa do diretor filme, Dannon Lacerda , com a porteira do seu prédio, cujo sobrinho viria a se tornar inspiração para a obra. Selecionado para a mostra competitiva de curtas-metragens nacionais do Fest Aruanda 2025, a obra avança nas suas críticas sociais, muito bem articuladas a partir de um protagonista de raízes indígenas, que escapa de generalizações. Ele trabalha como entregador e também exerce a função de líder de sua comunidade, reivindicando direitos e protegendo seu povo das ações desenfreadas dos mecanismos do Estado.    A cultura indígena ganha registros através da fé, da cultura, da tradição e da preservação desses povos originários, que em muitos casos estão sempre na luta pela continuid...

Crítica do filme: 'Apocalipse Segundo Baby' [Festival É Tudo Verdade 2026]

Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade. Se você ouvir esse nome por aí, talvez não sabia de quem se trata. No entanto, se falarmos Baby do Brasil – ou mesmo Baby Consuelo, como foi conhecida boa parte de sua carreira - as lembranças logo chegam. 18 anos depois do início do projeto, o documentário Apocalipse Segundo Baby, chegou às telonas brasileiras antes da sua estreia em circuito, através do Festival É Tudo Verdade. Com roteiro e direção de Rafael Saar , a obra toma um rumo corajoso desde seu início, fugindo de referências documentais conhecidas para se chegar em uma narrativa intensa, cheia de imagens e movimentos. Essa busca pela originalidade, na tentativa de traduzir o abstrato de uma personalidade plural, marcada por autorreflexões de Baby, segue apenas por essa perspectiva, com a ajuda de registros de apresentações marcantes. De Niterói a Salvador, passando por uma experiência marcante em Santiago de Compostela - ex-integrante do grupo Novos Baianos, que alcançou o sucesso a...

Crítica do filme: 'Zico, o Samurai de Quintino'

Um craque como poucos, dentro e fora de campo. Se você acompanha futebol - ou não -, já ouviu falar de Zico, um dos maiores camisas 10 da história do futebol mundial. Muito associado à nação rubro-negra, sua idolatria transborda para torcedores de outros times e outros países. Um figura exemplar, que preencheu páginas gloriosas desse esporte que é uma paixão nacional. Hoje, aos 73 anos, o galinho de quintino tem recortes de sua vida apresentados ao público no documentário Zico, o Samurai de Quintino , com estreia marcada para o próximo dia 30 de abril nos cinemas. Dirigido por João Wainer , o projeto busca um olhar amplo, construído desde seus primeiros passos na carreira até sua passagem pelo Japão, mostrando sua importância para a profissionalização do futebol naquela região – um legado visto até hoje -, com um recheio saboroso revisitando sua história profissional no Brasil.    O documentário segue por um modelo narrativo convencional, sem se arriscar, com entrevistas e...