Pular para o conteúdo principal

Crítica do filme: 'Inimigo Meu'


O entender ao próximo sempre nos leva pelos melhores caminhos. Dirigido pelo experiente cineasta alemão Wolfgang Petersen com um roteiro baseado na obra homônima do autor norte-americano Barry B. Longyear, chegou quase quatro décadas atrás uma obra-prima da ficção científica, existencialista com uma lupa filosófica que esbarra em reflexões sociológicas, uma fantasia que se torna inesquecível. Inimigo Meu caminha da necessidade de um depender até as linhas mais profundas da moralidade. Esse projeto foi o primeiro longa-metragem de ficção científica feito no Estados Unidos a ser exibido nos cinemas por toda a União Soviética.

Na trama, ambientada no final do século XXI, conhecemos Willis Davidge (Dennis Quaid) um arrojado e arrogante piloto de caça que após travar uma batalha com outra nave num lugar ainda não mapeado pelos humanos, cai em um planeta inexplorado com chuvas de meteoros constantes e condições inóspitas além de mineiros foras-da-lei. Desbravando esse lugar, ele se vê de frente com um outro ser que também caiu lá, exatamente a outra nave a qual perseguia. Assim, ao longo dos anos que ficam presos nesse lugar, Davidge e Jerry (Louis Gossett Jr.), um alienígena da raça Drac, buscam se comunicar e sobreviverem juntos criando assim uma enorme amizade.

A brilhante fantasia tem suas estruturas em bases sólidas de um contexto que se torna atemporal. É importante o espectador ficar atento ao início do filme. Assim, descobrimos que o chegamos ao final do século XXI com a exploração espacial se tornando possível mas o ser humano com sua prepotência de sempre se achar o melhor e desgastando os recursos naturais a todo vapor, começa a buscar colonizar planetas. Mas logo, vidas alienígenas que ninguém sabia da existência, começaram a atrapalhar esses planos transformando o espaço em um enorme ringue onde batalhas são vistas por todos os lados. Dentro desse cenário que temos a gangorra dos conflitos dos dois personagens.

A morte e a vida, a esperança e a desesperança, como contar uma história com enorme profundidade entre dois seres de planetas diferentes? Esses e outros sentimentos antagônicos transformam os diálogos em lições dentro de uma narrativa que provoca emoções constantes no espectador. Há forma como a desconstrução dos personagens é feita nos leva a valores sobre o expressar a verdade, a sabedoria, a divisão do conhecimento, a paternidade, a amizade. Um tapa na cara atemporal para o egoísmo e ganância vistos até os dias de hoje.

E por falar em atemporalidade, o roteiro parece entender no seu chute futurístico os problemas que estamos enfrentando nos dias de hoje, com o enriquecimento de poucos as custas dos recursos que são de todos nós, a ganância e o egoísmo sendo vistos na maior cara de pau, as guerras que estão em andamento no mundo, a falta de diálogos que transformam a geopolítica em uma análise de barris de pólvoras em constante e cínicas explosões.

Considerado um enorme fiasco quando pensamos em bilheteria, custou cerca de 40 milhões de dólares (muito por conta dos efeitos, caríssimos na época) e arrecadou nem 13 milhões, Inimigo Meu ao longo do tempo veio se tornando um ‘filme cult’ redescoberto ou mesmo descoberto por fãs desse gênero cinematográfico. Pra quem se interessar, o filme está disponível no catálogo da Star Plus.

 


Postagens mais visitadas deste blog

Crítica do filme: 'Vípuxovuko – Aldeia' [Fest Aruanda 2025]

Trazendo as reflexões sobre formas de organizações comunitárias, resistência cultural e gritos de identidade em uma aldeia urbana indígena no Mato Grosso do Sul, o curta-metragem Vípuxovuko – Aldeia parte para a ficção com muitas bases na realidade. O projeto surgiu de uma conversa do diretor filme, Dannon Lacerda , com a porteira do seu prédio, cujo sobrinho viria a se tornar inspiração para a obra. Selecionado para a mostra competitiva de curtas-metragens nacionais do Fest Aruanda 2025, a obra avança nas suas críticas sociais, muito bem articuladas a partir de um protagonista de raízes indígenas, que escapa de generalizações. Ele trabalha como entregador e também exerce a função de líder de sua comunidade, reivindicando direitos e protegendo seu povo das ações desenfreadas dos mecanismos do Estado.    A cultura indígena ganha registros através da fé, da cultura, da tradição e da preservação desses povos originários, que em muitos casos estão sempre na luta pela continuid...

Crítica do filme: 'Apocalipse Segundo Baby' [Festival É Tudo Verdade 2026]

Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade. Se você ouvir esse nome por aí, talvez não sabia de quem se trata. No entanto, se falarmos Baby do Brasil – ou mesmo Baby Consuelo, como foi conhecida boa parte de sua carreira - as lembranças logo chegam. 18 anos depois do início do projeto, o documentário Apocalipse Segundo Baby, chegou às telonas brasileiras antes da sua estreia em circuito, através do Festival É Tudo Verdade. Com roteiro e direção de Rafael Saar , a obra toma um rumo corajoso desde seu início, fugindo de referências documentais conhecidas para se chegar em uma narrativa intensa, cheia de imagens e movimentos. Essa busca pela originalidade, na tentativa de traduzir o abstrato de uma personalidade plural, marcada por autorreflexões de Baby, segue apenas por essa perspectiva, com a ajuda de registros de apresentações marcantes. De Niterói a Salvador, passando por uma experiência marcante em Santiago de Compostela - ex-integrante do grupo Novos Baianos, que alcançou o sucesso a...

Crítica do filme: 'Zico, o Samurai de Quintino'

Um craque como poucos, dentro e fora de campo. Se você acompanha futebol - ou não -, já ouviu falar de Zico, um dos maiores camisas 10 da história do futebol mundial. Muito associado à nação rubro-negra, sua idolatria transborda para torcedores de outros times e outros países. Um figura exemplar, que preencheu páginas gloriosas desse esporte que é uma paixão nacional. Hoje, aos 73 anos, o galinho de quintino tem recortes de sua vida apresentados ao público no documentário Zico, o Samurai de Quintino , com estreia marcada para o próximo dia 30 de abril nos cinemas. Dirigido por João Wainer , o projeto busca um olhar amplo, construído desde seus primeiros passos na carreira até sua passagem pelo Japão, mostrando sua importância para a profissionalização do futebol naquela região – um legado visto até hoje -, com um recheio saboroso revisitando sua história profissional no Brasil.    O documentário segue por um modelo narrativo convencional, sem se arriscar, com entrevistas e...