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Crítica do filme: 'Ferrari'


A trajetória de um indecifrável homem da velocidade. Exibido pela primeira vez aos olhos do mundo no prestigiado Festival de Veneza do ano passado, Ferrari, novo trabalho do ótimo norte-americano de 81 anos, Michael Mann, joga na tela um recorte da vida de um poderoso personagem, enigmático, quase indecifrável, dominado por uma paixão avassaladora que domina sua trajetória no final da década de 50. Visuais milimetricamente pensados, cores, iluminação, moldam os diferentes momentos que a narrativa traduz das linhas do roteiro baseado na obra Ferrari -O homem por trás das Máquinas escrita pelo jornalista nova iorquino Brock Yates no início da década de 90.

Na trama, ambientada em 1957, um período de enormes crises para o todo poderoso do automobilismo Enzo Ferrari (Adam Driver) que vê seus dias se chocarem com conturbadas questões pessoais, envolvendo a amante Lina (Shailene Woodley) e a esposa Laura (Penélope Cruz), e uma necessidade de glória em uma famosa e perigosa competição de carros, com longa distância, chamada Mille Miglia, que parece ser a grande saída para uma estabilidade financeira e pro seu futuro nos negócios. O longo de pouco mais de duas horas de projeção vamos vendo um recorte profundo, intercalando momentos, de uma figura lendária do esporte mundial.

Num primeiro momento, e algo que percorre toda a narrativa, vemos um conturbado casamento, com o luto em andamento, um trauma recente da perda de um filho, algo que isolou qualquer possibilidade de normalidade na relação entre Enzo e sua esposa (também sua sócia, desde o início da famosa empresa uma década antes). Esses abalos matrimoniais viram estopins de conflitos que alcança a infidelidade e embates calorosos. Penélope Cruz e Adam Driver estão fabulosos em seus respectivos papéis, poderiam ter sido lembrados nas indicações ao Oscar, mesmo que esse ano nos brinde com também outras excelentes interpretações nas categorias Melhor Ator e Melhor Atriz.

Passamos então logo para o cenário automobilismo de uma era que se tornaria a base de tudo que conhecemos sobre a famosa escuderia italiana até hoje. Nesse ponto, o profundo drama se joga na mente de Enzo, sua intensidade e muitas vezes falta de trato social, tratando seus pilotos como meras peças em busca dos mais altos objetivos mas que traziam perigos constantes. Também há espaço para os embates entre Enzo e a imprensa da época. Um fato legal para nós brasileiros é a presença de Gabriel Leone, com bom tempo de tela, interpretando um dos pilotos da Ferrari.

Apenas um apaixonado por automobilismo? Um empresário sem compaixão que leva seus funcionários ao limite? Um marido infiel? Com um orçamento próximo da casa dos 100 milhões de dólares, Ferrari mostra as facetas de um homem que se joga em situações que lançadas em um oceano de dilemas flerta com as incertezas. Não é um contexto fácil de se mostrar, a narrativa parece que tem uma chave que vira a todo instante mostrando as intensidades do pessoal e profissional. Há muita coisa acontecendo ao mesmo tempo e o olhar do espectador precisa de atenção.

Quase três décadas buscando realizar essa obra, desde o início da ideia, o excelente cineasta Michael Mann brinda o espectador com uma direção impecável, envolvendo o espectador nos diferentes momentos na vida de um homem que marcou seu nome na história do esporte.


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