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Crítica do filme: 'Instinto Materno'


Da angústia à paranoia. Do luto à necessidade de culpar. Chegou aos cinemas nesse finalzinho de março um suspense psicológico que instaura uma intrigante Guerra Fria entre duas amigas que após um grave acidente doméstico vivem uma relação despedaçada e imprevisível. Primeiro trabalho na direção do experiente diretor de fotografia francês Benoît Delhomme, Instinto Materno joga seus esforços para apresentar adultos lidando com uma situação incontrolável onde a terceirização da culpa se torna uma constante. Baseado na obra homônima da escritora belga Barbara Abel.

Na trama, ambientada na década de 60, conhecemos duas amigas, vizinhas, praticamente inseparáveis: Celine (Anne Hathaway) e Alice (Jessica Chastain). Quando uma tragédia acontece, essa relação entre as amigas é completamente abalada. Assim, ao longo dos dias, entre o luto e a culpa, no campo das suposições uma série de desconfianças encontra o caminho das personagens.

As diferentes formas de lidar com a tragédia. A interessante e necessária introdução parece apresentar de forma bem prática alguns dos traços de personalidade das protagonistas além de um olhar para os seus respectivos relacionamentos. Assim, vemos Celine, tendo o filho como grande tesouro, que após o nascimento dele se contentou em ser dona de casa, uma vida que parece levar com bastante leveza e felicidade ao lado do marido que trabalha com produtos farmacêuticos. Já Alice tem uma personalidade forte, não deseja no momento um segundo filho, sonha em voltar ao trabalho e seguir carreira no jornalismo, algo que o marido, um gerente de contas, machista, não apoia.

Após o grande evento do filme, o conflito que apresenta a virada na trama, as peças meio que se embaralham. A tristeza da culpa se torna um elemento enigmático como se o roteiro buscasse o imprevisível dentro de um leque de conflitos emocionais que entram em choque com personalidades, se atualizando a partir do gatilho que passam. Nesse ponto entram em protagonismo uma direção de arte impecável e uma fotografia que ganha destaque com fortes cores que expressam os cruzamentos de emoções que circulam entre a desconfiança e os fortes traços de amargura.

Mesmo derrapando num desfecho que vai se moldando previsível, Instinto Materno apresenta de forma eficiente o confronto com a dor, com a perda, pontos catalizadores da inconsequência não só aos olhos de uma mãe e sua busca por culpar alguém mas também no de terceiros e a necessidade quase absurda de controlar o incontrolável. 


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