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Pausa para uma série: 'Custe o que Custar'


O autor norte-americano Harlan Coben, de 63 anos, segue criando histórias marcadas por mistérios complexos em tramas que abraçam as reviravoltas - um conteúdo que se torna um prato cheio para virar um produto audiovisual. Custe o que Custar, primeira minissérie lançada pela Netflix em 2026, é baseada em sua obra Run Away, publicada seis anos atrás. Com suas 364 páginas, aborda os impactos em uma família que luta contra o vício em drogas da filha mais velha.

Mas nada neste projeto é somente o que aparenta ser. Reunindo alguns núcleos, com ótimos personagens que adicionam demais à trama e que, aos poucos, se entrelaçam com à história principal, os dramas familiares se desenvolvem como pequenas peças embutidas em um cenário que se amplia conforme vamos descobrindo as verdades. Traumas na infância, adoção, possíveis traições, paranoia, árvores genealógicas, manipulação, seitas e psicopatas, vão se reunindo ao longo de oito intensos episódios, provocando um verdadeiro desfile de questões sociais.

Simon (James Nesbitt) é um consultor financeiro bem-sucedido, pai de três filhos, que vive feliz ao lado da esposa, a pediatra Ingrid (Minnie Driver). Só que toda a aparente calmaria na família esconde um grave problema: a filha mais velha, Paige (Ellie de Lange), se tornou uma viciada em drogas e sumiu de casa faz alguns meses. Na busca por seu paradeiro, Simon é envolvido em uma estrada onde situações o levam ao limite do desgaste emocional.

A grande missão desta obra seriada era como reunir toda a complexidade da trama, sem perder o interesse do público, em apenas oito episódios. Mesmo com algumas pontas soltas, as histórias se entrelaçam de forma coerente, se completando. Há o núcleo principal da família despedaçando, a investigação policial de uma dupla próxima na profissão e na paixão, as descobertas de uma detetive particular - muito bem interpretada por Ruth Jones - e a história de um casal de jovens assassinos, que formam a base dos segredos que são revelados no tempo certo, prendendo a atenção. Chegamos ao último episódio sem saber direito que desfecho nos aguardava – e isso é positivo.

A maneira como se amarra toda a trama central dentro do discurso também é interessante, focando nos argumentos que se cercam – talvez o grande acerto da produção. A partir do cancelamento – algo que está cada vez mais em moda nesse modo instantâneo das redes sociais –, o primeiro episódio abre-alas para ganhar nossa atenção nos conduzindo aquela bomba de emoções que recai sobre uma família, que possui personagens longe de serem carismáticos, mas cumprem seu papel de juntos chegarem nas dores de um presente caótico.

Custe o que Custar é uma minissérie que tem um pouco de tudo: drama, mistério e revelações bombásticas. O projeto se arrisca ao tentar transmitir o máximo de tensão em uma trama ousada, que usa das surpresas de verdades escondidas como uma ponte até importantes reflexões sociais. A Netflix começa bem suas adições de minisséries ao catálogo em 2026.

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