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Crítica do filme: 'A Rainha do Xadrez'


64 casas, 32 peças, milhões de combinações. Esse é o xadrez: um jogo fascinante, repleto de possibilidades. Dentro desse universo, no início da década de 1980, surgiu na Hungria uma jovem jogadora que viria a se tornar um verdadeiro fenômeno desse jogo de raciocínio lógico e estratégico.

Com essa poderosa história em mãos, a Netflix resolveu desenvolver um documentário com a direção da britânica indicada ao Oscar Rory Kennedy. Assim, chegamos a A Rainha do Xadrez, lançado neste início de 2026 na mais poderosa plataforma de streaming.

Vinda de um região pobre na Hungria, onde nasceu em meio ao caótico dos anos 1970, Judit Pólgar, incentivada pelo pai – que tinha uma curiosa obsessão de tornar as filhas em gênias –, deu seus primeiros passos logo cedo nesse esporte. Aos seis anos, ganhou seu primeiro torneio e logo chamou a atenção do mundo enxadrístico.

Com o passar do tempo, Judit passou a sentir a pressão do governo comunista húngaro, que restringia a saída dela e de suas irmãs para torneios fora do eixo. Não desistindo de seus sonhos e dona de uma resiliência impressionante, ela logo quebrou mais essa barreira. A fama mundial veio depois do feito histórico na Olimpíada de Xadrez de 1988, em Tessalônica, na Grécia. Anos mais tarde, se tornou a mais jovem a conquistar o título de Grande Mestre – o mais alto do xadrez –, entre homens e mulheres.

Ofensiva na tática e delicada – além de simpática – nas palavras, a própria Judit, hoje perto de completar 50 anos, é um dos rostos entrevistados pelo projeto, ao lado de suas irmãs, Garry Karparov e especialistas em xadrez, que circulam em conjunto com imagens de arquivos contextualizando tudo que é apresentado.

Com tantos detalhes importantes e bem documentados para se apresentar, o projeto - talvez buscando gerar curiosidade e fascínio em novas pessoas para se apaixonarem pelo esporte - acaba limitando demais a narrativa a alguns pontos que passam frequentemente em tela ao longo dos 93 minutos de projeção.

Se jogando em um recorte pincelado de parte da vida e conquistas dessa que é uma das mais brilhantes enxadristas da história, o documentário percorre as inúmeras quebras de barreiras, sobretudo seu confronto com o machismo estrutural que cerca esse esporte.

Mas há um calcanhar de aquiles evidente, oriundo dos alicerces aos quais se prende o roteiro. Ao insistir na relação conturbada com o pai – que acaba se tornando redundante – e ao se resumir, em grande parte, aos seus confrontos com o enxadrista Garry Kasparov – um deles marcado por uma enorme polêmica – o documentário restringe excessivamente a narrativa.

A Rainha do Xadrez não chega a ser um documentário decepcionante, tem seus méritos, mas a história dessa jogadora é muito mais rica do que se resumir a esses confrontos.

 

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