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Crítica do filme: 'Eternidade'


Resumindo um mix de sentimentos que vai da aceitação aos dilemas amorosos, o filme Eternidade, que chegou recentemente na Apple Tv, usa o ar fúnebre do momento de passagem com uma leveza melancólia cômica que funciona de forma equilibrada, nos levando até ótimos personagens que caminham por perspectivas curiosas de possibilidades.

Dirigido por David Freyne e com roteiro assinado por ele junto com Patrick Cunnane, o projeto alcança o brilhantismo ao transformar o inusitado em paralelos existenciais com ar filosófico constante, trazendo o abstrato para compor situações que são enfrentadas na realidade – as escolhas da vida.

Após morrer, Larry (Miles Teller) se vê perplexo em um lugar que funciona como uma coordenação de pós-morte. Sua orientadora é a carismática Anna (Da'Vine Joy Randolph). Ele aguarda Joan (Elizabeth Olsen), sua esposa, que logo desperta nesse lugar onde as almas precisam definir, em alguns dias, onde passarão a eternidade. Joan, porém, não esperava ter que escolher entre Larry (Miles Teller) – com quem dividiu praticamente toda a vida – e seu primeiro grande amor, Luke (Callum Turner), que a aguardou por mais de seis décadas.

Todo mundo tem uma eternidade? Qual a beleza da vida? Será que a eternidade é muito tempo? Jogando essas e outras perguntas para o público - através de sugestivas situações que começam com um ‘feirão de mundos’ às escolhas reais que precisam ser tomadas -, a obra expande nossos pensamentos mais íntimos, do medo da morte à ponta de esperança sobre o acontece quando saímos deste plano.

Conforme vamos assistindo ao filme – com um medo do roteiro se perder a qualquer momento pela necessidade do entretenimento (algo que não acontece) –, percebemos uma delicada condução narrativa, inclusive na maneira como a linguagem visual é construída, repleta de cores quentes que pulsam do desconforto ao desgaste emocional. Isso tudo sem perder a ternura nos diálogos, que, somados às atuações competentes de cada artista em cena, compõem uma obra rica em possibilidades.   

A escolha de Joan - competir com uma lembrança ou se agarrar à certeza do que já viveu - é igual a tantas outras que sabemos ocorrer na realidade. Não é mesmo? Essa proximidade com o real e a maneira como se chega a isso, através de uma mistura bem bolada de humor e drama, é o grande trunfo dessa obra, que caminha a passos largos para conquistar vários corações.

Esse belíssimo filme, ainda pouco comentado, nos faz refletir do início ao fim sobre a beleza da vida e a importância das histórias que construímos, por meio de uma acertada narrativa que investe em uma alegoria pós-morte que fascina e emociona.

 

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