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Mostrando postagens de fevereiro, 2026

Crítica do filme: 'Corta-Fogo'

Uma família em luto, em um dia caótico e repleto de acontecimentos assustadores, é o start de uma trama que embaralha suas peças entre o drama e o suspense. Acredite: nada em Corta-Fogo é o que aparece! Em apenas 15 minutos, já estamos envolvidos com a história que se projeta por meio do luto prolongado, o confronto com as memórias, achismos, e uma figura misteriosa que beira à ambiguidade e pode estar ligada a um desaparecimento. A sinopse esconde sobre o que é esse filme e somos frequentemente surpreendidos ao longo do restante da projeção. A guinada que o roteiro provoca é muito bem desenvolvida, deixando o público atento a cada nova informação. Mara ( Belén Cuesta ) chega com a filha Lide ( Candela Martínez ) e o cunhado Luis ( Joaquín Furriel ), sua esposa Elena ( Diana Gómez ) e o filho do casal, para encaixotar roupas e objetos da sua casa que será vendida – decisão tomada após a perda do marido. Enquanto estão no local, uma torre de telefonia em meio à floresta solta faísca...

Crítica do filme: 'Encontros e Despedidas'

Diretamente da Ásia, chegou ao catálogo da Netflix, neste início de 2026, um filme que explora os caminhos tumultuados das escolhas importantes da vida por meio de uma família que se esconde do perdão, mas que tem novamente uma chance de se unir. Com essa premissa logo estabelecida para os conflitos que se seguem, chegamos a uma trama de grande apelo popular, que sugere fáceis identificações com a realidade. Dirigido por Cathy Garcia-Sampana , o longa-metragem filipino Encontros e Despedidas nos convida a mergulhar nas intimidades de uma família – seus dilemas e confrontos - que vive seus dias na luta de um empreendimento familiar e vê sua rotina completamente alterada pela chegada do primogênito, proprietário de um restaurante nos Estados Unidos. Baby ( Maricel Soriano ) é daquelas mãezonas que gostam de ter toda sua família por perto. Mas isso raramente é possível, pois seu primeiro filho se distanciou de todos - inclusive deixando a filha para Baby criar. Quando seu negócio cheg...

Crítica do filme: 'A Miss'

Ambientado em um dos bairros mais deliciosos da zona norte carioca, o longa-metragem brasileiro A Miss levanta a bandeira do pertencimento por meio de uma família e seus conflitos. Escrito e dirigido por Daniel Porto , o filme parte de uma relação conturbada entre mãe e filhos para alcançar temas importantes da nossa sociedade, através de uma fórmula que diverte sem esquecer de encontrar camadas – ainda que, por vezes, beirando à superfície dramática. Martha ( Maitê Padilha ) e Alan ( Pedro David ) são dois irmãos que vivem seus dias em pé de guerra com a mãe, a exigente – e sem paciência - Iêda ( Helga Nemetik ). Dona de um salão de cabeleireiro, ela está à beira do descontrole e possui uma obsessão por um famoso concurso de beleza. Os irmãos entram em apuros quando Marta descobre que Alan quer participar da competição no seu lugar. A partir daí, contando com a ajuda de Atena ( Alexandre Lino ), embarcarão em uma estrada de descobertas. Um dos méritos do roteiro é conseguir chega...

Crítica do filme: 'Olho por Olho'

Se jogando em uma provável interpretação sombria de uma figura mítica do folclore europeu, o longa-metragem de terror Olho por Olho – que estreou recentemente na HBO MAX - aposta suas fichas nas crendices populares, trazendo o sobrenatural sob os holofotes colocados em gerações de uma família que sofrem a consequência da culpa. Pena que inconsistências no roteiro nos levam para uma jornada sonolenta e irregular. Dirigido por Colin Tilley , essa é uma obra vai se construindo aos poucos, em um início sugerindo mais que mostrando. Esse ritmo cadenciado na composição da narrativa estabiliza a atmosfera de tensão – algo que pode ser uma faca de dois gumes -, ao criar sensações de incertezas através de recursos da linguagem visual que vão materializando algo que não podemos enxergar, em um primeiro momento. A jovem Anna ( Whitney Peak ) vai morar com a avó cega ( S. Epatha Merkerson ), no interior, após uma tragédia atingir sua família. Sem ter muito o que fazer em um primeiro momento, r...

Crítica do filme: 'Zafari'

Criando uma atmosfera de confinamento a partir de uma distopia que mostra classes sociais em conflito, indo da sensação de ameaça a o silêncio desconcertante, em Zafari somos jogados até uma distopia sarcástica que apresenta um retrato impactante do comportamento humano quando o instinto de autopreservação está por um fio - ultrapassando qualquer linha de moral. Dirigido pela cineasta venezuelana Mariana Rondón , que já havia nos brindado com o ótimo Pelo Malo (2013), o filme aposta na provocação de um roteiro que vai da ironia à acidez, expondo falhas morais aos montes e lançando críticas diretas a uma hipocrisia que se molda por meio de intrigantes personagens - e ainda evitando soluções previsíveis. Ana ( Daniela Ramírez ) e Edgar ( Francisco Denis ) vivem dias de apreensão em um condomínio de alto padrão, ao lado do filho. Tentando sobreviver a um presente conturbado - com Gangues de motoqueiros dominando as ruas, blackouts constantes e a escassez de recursos básicos - o casal...

Crítica do filme: 'Ah, a Amizade…'

As indecifráveis linhas tênues entre a amizade e o amor são o combustível de Ah, a Amizade… , filme que chegou ao catálogo da Netflix neste início de 2026. Dirigido por Johnny Barbuzano, essa comédia romântica despretensiosa não apresenta nenhuma novidade quando pensamos em linguagem cinematográfica. Esse longa-metragem Sul-africano se resume a uma fórmula de bolo batida, seguindo padrões já consolidados, que acaba caindo na sonolência conforme os 95 minutos de projeção atravessam a tela. Thando ( Katlego Lebogang ) e Charles ( Siya Sepotokele ) são dois amigos de longa data precisam lidar, em um primeiro momento, com a distância, já que um deles vai morar durante alguns anos em Nova Iorque. Quando Charles retorna, apresenta sua futura noiva e logo surge uma viagem para um destino paradisíaco para oficializar essa relação. Esse fato desperta em Thando mais incertezas sobre o que sente por ele. Como saber quem é a pessoa certa para entregar seu coração? Trazendo o humor – um dos po...

Pausa para uma série: 'Unfamiliar'

Lançando luz sobre um clássico jogo de espionagem que se molda através de uma configuração familiar com seus segredos, chegou de mansinho à Netflix Unfamiliar, uma série alemã de seis episódios, com um recheio generoso de personagens ambíguos, traições, segredos, amantes e reviravoltas – daquele tipo que prende a atenção e dá vontade de maratonar. No aniversário de 16 anos da filha, dois agentes da BND (Serviço Federal de Inteligência da Alemanha) dado como mortos - Meret ( Susanne Wolff ) e Simon ( Felix Kramer ) - são contatados por um homem misterioso. Esse primeiro movimento daria início ao caos na vida do casal. A ligação com uma missão realizada uma década e meia atrás na Bielorrússia – e todos os mistérios que a cercam – é o ponto de partida para chegarmos em revelações importantes, desencadeando uma cadeia de ações e consequências. Criado por Paul Coates , a trama, que se desenrola toda em Berlim, é bem amarrada e atravessa aos poucos os segredos do passado, que se tornam p...

Crítica do filme: 'Quartos Vazios'

Trazendo outros olhares para a dor imensurável das tragédias em escolas que atingiram famílias em todo os Estados Unidos, o curta-metragem documental Quartos Vazios é um belíssimo e comovente filme, construído em meio a uma importante reportagem. Dirigido por Joshua Seftel , o projeto indicado ao Oscar 2026 parte do concreto de um registro: dos desabafos de um experiente profissional da comunicação, da emoção dos pais e de imagens que falam por si só. O jornalista Steve Hartman e o fotógrafo Lou Bopp , vinham produzindo, ao longo de alguns anos, uma reportagem sobre crianças mortas em tiroteios escolares. Faltando três histórias para concluir seu projeto, a ideia é ampliada e se transforma nessa obra documental. Com a permissão dos pais, passam a fotografar os quartos de crianças que perderam a vida em ataques armados em escolas. Com depoimentos do jornalista, do fotografo e dos pais das crianças, somos conduzidos para uma história de cortar o coração, mas que também deixa belas m...

Crítica do filme: 'Eu Volto pra te Buscar’ [Mostra de Cinema de Tiradentes 2026]

Selecionado para a Mostra de Cinema de Tiradentes 2026, onde ganhou exibição na praça mais conhecida da cidade mineira, o curta-metragem Eu Volto pra te Buscar nos leva a uma imersão em um cotidiano difícil, de poucas oportunidades, através dos sonhos de uma juventude que logo se depara com o choque da realidade. Escrito e dirigido por Roger Bravo , esse é um filme que cria uma identificação imediata por meio de metáforas cotidianas, que logo chega nos embates das emoções. Sustentado pelos entrelaços entre o descobrir das primeiras idades e o amadurecimento diante da realidade que se apresenta, as linhas do roteiro desfilam seu discurso de forma contundente, sabendo exatamente o que quer dizer - e com impacto. Morador da Zona Leste de São Paulo, Murilo relembra uma inesquecível amizade que virou luto, o choque com a violência, o primeiro contato com a arte como forma de expressão e um amadurecimento precoce, imerso numa realidade com seus desafios, refletindo, já mais maduro, sobre...

Crítica do filme: 'Se Esse Amor Desaparecesse Hoje'

Explorando a sutileza de uma relação sem esquecer de aprofundar em camadas, o longa-metragem sul-coreano Se Esse Amor Desaparecesse Hoje posiciona suas peças em um tabuleiro romântico, em busca daquele pedacinho que deixamos para quem amamos. Dirigido pela cineasta Kim Hye-young , o filme - que rapidamente alcançou o Top 10 da Netflix neste início de 2026 – percorre a juventude abordando temas como bullying, luto e o primeiro amor, a partir de uma conexão profunda que se estabelece entre seus personagens protagonistas. Kim Jae-won ( Choo Young-woo ) é um jovem e solitário estudante do ensino médio que leva uma vida simples ao lado do pai, um fotógrafo que trabalha com arte em vidro e ainda vive o luto pela perda da esposa. Um dia, após um desafio, ele toma coragem e vai ao encontro de Seo-yoon ( Shin Si-ah ), uma jovem que rapidamente o encanta. Porém, nessa história que tinha tudo para rumar para um final feliz, descobre-se que Seo-yoon perdeu a memória após sofrer um acidente de ...

Crítica do filme: 'A Rainha do Xadrez'

64 casas, 32 peças, milhões de combinações. Esse é o xadrez: um jogo fascinante, repleto de possibilidades. Dentro desse universo, no início da década de 1980, surgiu na Hungria uma jovem jogadora que viria a se tornar um verdadeiro fenômeno desse jogo de raciocínio lógico e estratégico. Com essa poderosa história em mãos, a Netflix resolveu desenvolver um documentário com a direção da britânica indicada ao Oscar Rory Kennedy . Assim, chegamos a A Rainha do Xadrez , lançado neste início de 2026 na mais poderosa plataforma de streaming. Vinda de um região pobre na Hungria, onde nasceu em meio ao caótico dos anos 1970, Judit Pólgar , incentivada pelo pai – que tinha uma curiosa obsessão de tornar as filhas em gênias –, deu seus primeiros passos logo cedo nesse esporte. Aos seis anos, ganhou seu primeiro torneio e logo chamou a atenção do mundo enxadrístico. Com o passar do tempo, Judit passou a sentir a pressão do governo comunista húngaro, que restringia a saída dela e de suas irm...

Crítica do filme: 'Dois Procuradores'

Um dos filmes mais angustiantes que chegarão aos cinemas brasileiros neste primeiro semestre de 2026, Dois Procuradores nos guia a uma imersão sombria e sufocante em um centro de detenção soviético nos tempos de Stalin. Exibido no Festival de Cannes do ano passado, onde concorreu à Palma de Ouro, o projeto dirigido pelo cineasta ucraniano Sergey Loznitsa mostra, em detalhes, os absurdos cometidos ao estado de direito em uma época marcada pela legitimação de atos imperdoáveis por meio de confissões forçadas de inocentes. No ano que se tornou um dos mais sombrios da história russa, 1937, marcado pela consolidação totalitária de Stalin e por ações desenfreadas contra a população - com julgamentos forjados e execuções -, uma mensagem de um antigo promotor do partido comunista, agora prisioneiro, acaba chegando às mãos do jovem promotor e inspetor de presídios locais em Bryansk, Kornev ( Alexander Kuznetsov ). Ao tentar abrir uma investigação sobre tudo o que escuta, descobrirá que não...

Crítica do filme: 'Grão' [Mostra de Cinema de Tiradentes 2026]

Com um personagem central que percorre seus dias na solidão de pouquíssimas oportunidades, a bordo de um carro de quase 20 anos equipado com som de proibidões nas alturas e preso à roleta russa do destino, o curta-metragem Grão , exibido na seleção da 29ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, aborda, em sua essência, o trabalho informal e as desilusões do buscar a sobrevivência à margem da sociedade. Se sustentando da venda ilegal de soja, recolhendo grãos encontrados entre produtos que se extraviam com o vai e vem dos transportes, o protagonista é um jovem invisibilizado por sua condição, bem distante de qualquer sonho que persegue seu pensar, estagnado na solidão de encontrar soluções para sobreviver. Vivendo no sul do Brasil, uma das principais regiões produtoras do produto mencionado, o personagem começa a perceber que precisa encontrar novas soluções para continuar sobrevivendo. Dirigido por Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa , o interessante projeto - com cerca de 20 min...

Crítica do filme: 'Roteiro para uma Fuga’ [Mostra de Cinema de Tiradentes 2026]

Com um ar filosófico e pulos de um existencialismo abraçado na narrativa, o curta-metragem pernambucano Roteiro para uma Fuga levanta questões de identidade e automaticamente simbolismos e razões que constroem um existir. Com direção e roteiro de Priscila Nascimento , esse filme aposta na delicadeza caminhando a curtos passos pelas angústias e a busca por sentidos, revelando-se uma investigação sugestiva pela própria história de uma narradora – figura viva e observadora na narrativa. Nesse projeto, selecionado para a 29ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, não há nada de inovador quando pensamos em linguagem cinematográfica, mas o seu modo de contar essa história - direto e simples - encontra atalhos para tornar atraente ao público as imposições do que é incontrolável – também conhecido como obstáculos pelo caminho. Uma boa definição da obra é: um filme fácil de digerir e que pode convidar à reflexões. Com imagens que passam pelo tão falado São Luiz, um dos cinemas de rua ma...

Crítica do filme: 'Do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto’ [Mostra de Cinema de Tiradentes 2026]

Uma legenda logo no início da obra nos situa em um panorama amplo de um passado que segue vivo no presente. A partir da busca por um registro do que restou de memórias de um lugar simbólico de um movimento religioso - símbolo de resistência camponesa que percorreu as década de 1920 e 1930 -, o curta-metragem Do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto abre algumas páginas de um livro de recordações sobre uma situação que marcou a história cearense. A autonomia em um processo artesanal de revelação, aliado a um ajuste por meio de recursos digitais, cria-se dentro dessa narrativa algumas possibilidades. Entre sensações que parecem paralisar o tempo e nos conduzir de volta ao ponto principal do seu registro, o filme, em cerca de 10 minutos, estrutura imagens e movimentos feitos em 16mm, nos quais as dimensões sensoriais da imagem influenciam experimentações. Do intrigante da captação à amplitude histórica, nem tudo é explicado, necessitando complemento por meio de pesquisa. A origem de tudo...