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Mostrando postagens de novembro, 2025

'Vento Sussurrante' e 'O Mistério dos Olhos de Luzia' [Comunicurtas 2025]

Vento Sussurrante De um convite inesperado ao sobrenatural avançando na realidade, o curta-metragem Vento Sussurrante se arrisca em uma narrativa na qual declamações se transformam em diálogos, e o romance ganha tons de terror e suspense. A história apresenta um sedutor vampiro highlander que busca apresentar a eternidade a um novo amor. Excessivamente sentimental, se enrola no próprio discurso mas tem o mérito de se arriscar. Há uma questão que precisamos comentar: existe uma fragilidade evidente na narrativa – a maneira como é contada essa história. É difícil entender para além da ingenuidade da sedução proposta, mesmo com uma moldura reconhecível e elementos narrativos específicos, como o sobrenatural. Vale o exercício – e coragem – de se jogar na proposta, mas é uma pena que a obra não se arriscque nas infinitas possibilidades que o cinema pode oferecer.       O Mistério dos Olhos de Luzia Com gravações em Matinhas (PB), chegamos em um dos primeiros dias de ...

Crítica do filme: 'Samba Infinito' [Comunicurtas 2025]

Uma vez por ano, milhares de pessoas vão às ruas para festejar uma das festas populares mais famosas do mundo: o carnaval. Esse prazer estonteante dos foliões, que mistura ritmos e culturas, dá margem para boas histórias - exatamente como é o caso de Samba Infinito , filme de Leornardo Martinelli exibido pela primeira no Festival de Cannes e selecionado para a mostra competitiva do Comunicurtas 2025. Da folia ao inusitado, acompanhamos um gari que, durante seu trabalho já no fim das festas de carnaval, encontra um jovem garoto, logo o ajudando a procurar alguém próximo. Percorrendo as ruas de uma enorme cidade - que poderia ser qualquer uma de nosso país -, no final desse encontro algo que remete ao passado se coloca diretamente diante dele. Transições belíssimas nos presenteiam com a fantasia e o musical numa atmosfera contagiante, traçando paralelos com a folia e um sentimentalismo profundo que desembarca em relações passadas, mas nunca perdidas pelo tempo. E essa palavrinha – t...

Crítica do filme: 'Ninguém (mais) Verá' [Comunicurtas 2025]

Um grito ácido e bem-humorado. Selecionado para a Mostra Brasil do Comunicurtas 2025, o documentário Ninguém (mais) Verá , de Fabiano Raposo, é um assertivo e poderoso projeto que não hesita em colocar o dedo em feridas morais, políticas e sociais, mesclando imagens do ontem e da atual Campina Grande. Direto e provocativo, exaltando leveza e o bom humor, logo percebemos se tratar de um registro necessário e acachapante, que utiliza o cinema como um poderoso megafone. Impressiona como tudo que é visto na tela funciona com certo impacto, impulsionado por uma montagem que direciona de forma elegante a progressão narrativa, chegando rapidamente na percepção dos espectadores. Os recursos e infinidades que o cinema oferece ganham criatividade e ironia, com mensagens - e mais mensagens - sendo vistas por meio de uma locomotiva de relatos críticos sociais e da exposição de polêmicas estruturas de poder. Entre esses olhares próximos e constantes, nos deparamos com imagens atuais da cidade ...

Crítica do filme: 'Campina Noir' [Comunicurtas 2025]

A balada do justiceiro adormecido. Com o pessimismo e a desilusão diluídos numa atmosfera noir, marcada por um alter ego afiado e cheio de referências na cultura pop, chegamos - no penúltimo dia de exibições das mostras competitivas do Comunicurtas 2025 - até o curta-metragem Campina Noir , dirigido por Kennyo Alex . Nesse suspense policial, a vingança, a violência e a caçada a um serial killer tornam-se elementos dos conflitos de personagens carregados com dolorosas marcas do passado. A trama é bem simples, mas por que não dizer também engenhosa? Ambientado em uma Campina Grande (PB) de 1985, a violência aflora pelas ruas da cidade, enquanto elementos da força policial – perdidos nas investigações – recorrem a um super-herói aposentado que vive seus dias no ostracismo. Em uma referência à Gotham City e ao universo de Batman, vamos sendo conduzidos a uma história de justiça, ressentimento e vingança. A construção do personagem mais marcante, Flama - uma espécie de batman de sua reg...

Crítica do filme: 'Perto do Sol é Mais Claro' [Comunicurtas 2025]

A vida há de brilhar sempre. Explorando casos do cotidiano em forma de desabafos de um bem-sucedido octagenário carioca preso em um luto, com respingos de solidão, o longa-metragem Perto do Sol é Mais Claro , de Regis Faria , circula a melancolia de forma intimista, atingindo temas interessantes, mas não necessariamente todas suas camadas. O resultado é um composto cinematográfico comum – sem inovações - guiado por uma estética atemporal que ressalta a expressividade. Exibido na mostra competitiva do Comunicurtas 2025, o projeto nos apresenta Regi ( Reginaldo Faria ), um gestor de obras que sonha em também ser escritor - um homem cheio de histórias para contar, mas que atravessa um presente repleto de dúvidas e se sentindo cada dia mais sozinho. Contornando passado e presente, por meio de memórias e acontecimentos contemporâneos, ele começa a enxerga as questões ao seu redor de várias formas. Será que a felicidade não existe e, na verdade, o que temos são apenas momentos felizes? E...

Crítica do filme: 'Meu Superman' [Comunicurtas 2025]

No segundo dia de exibições das mostras competitivas do Comunicurtas 2025, acompanhamos uma história que envolve família e escolhas. Diretamente de São José do Rio Preto (SP), o curta-metragem Meu Superman , dirigido por Alexandre Estevanato, nos mostra um retrato que se estende pelo tempo, explorando a relação familiar entre pai e filho e as escolhas tomadas quando a necessidade do cuidar se mostra presente. Um homem na casa dos seu 40 anos, que sempre teve no pai um ponte de apoio em determinada fase da vida, se vê precisando cuidar dele, já que o mesmo se encontra com os primeiros indícios de uma doença neurodegenerativa progressiva. Conforme o tempo passa, trazendo situações às quais precisa se habituar, lembranças de outros tempos passam a compor sua trajetória até aquele presente – e alcançando também o futuro. Trazendo uma doçura às emoções conflitantes, o projeto aposta na busca dos olhares para as dificuldades do outro. No entanto, a frágil narrativa se atropela em um se...

Crítica do filme: 'Serenata do Adeus' [Comunicurtas 2025]

No segundo dia de exibições das mostras competitivas do Comunicurtas 2025, nos foi apresentado um curta-metragem bem eficiente na sua proposta. Com uma linguagem pop de fácil identificação, imerso em uma narrativa ágil e comunicativa, Serenata do Adeus , dirigido e roteirizado por Marcio Mehiel , transita pelo caos dos momentos difíceis formando um retrato importante sobre o amadurecimento. Ambientado na década de 1980, o filme abre espaço para um ar ‘coming of age’ ao abordar temas importantes a partir do olhar de uma turma de amigos que vivencia – juntos e separadamente - uma série de situações dolorosas durante um certo período de tempo com o foco no final do ano. Em poucos minutos, o roteiro transborda fatos marcantes que dialogam com diferentes formas de violência, conflitos internos, questões de sexualidade, gravidez, dores e as marcas que permancem para sempre. É impressionante como a forma de contar essa história gera uma rápida identificação com públicos de muitas idades. ...

Crítica do filme: 'Cinema sem Teto' [Comunicurtas 2025]

Por que os lugares que tanto amamos já não existem mais? Puxando essa pergunta para o sempre conturbado circuito exibidor brasileiro, o curta-metragem paulista Cinema sem Teto, dirigido por Denise Szabo , busca colocar para debate a vida e a morte das salas de cinema – com o foco nos cinemas de rua da cidade de São Caetano. Exibido no primeiro dia da mostra competitiva do Comunicurtas 2025, com uma narração intimista, revelando sensações e pensamentos ligados a outros períodos de maior entusiasmo por esses lugares, o projeto aponta uma direção para reflexão, mas sua narrativa não atinge nem a superfície do tema, deixando de enriquecer debates sobre a questão. A ideia é boa. Com duas cadeiras sendo colocadas próximas de onde funcionaram salas de cinema que marcaram gerações, vamos acompanhando um tour por experiências pessoais que tentam circular entre as incertezas e o ato de resistir. Esse assunto é muito amplo, e os porquês acabam se diluindo em forma de desabafo, mas sem o rec...

Crítica do filme: 'A Menina que Amava Gatos' [Comunicurtas 2025]

Voltando a assuntos ligados ao período logo pós-pandêmico para trazer um tema associado a animais abandonados, no primeiro set de curtas-metragens que assistimos no Comunicurtas 2025 ficamos de frente com um filme de lindas mensagens, mas de uma ingenuidade gigante ao tratá-los em uma narrativa cinematográfica. Dirigido por Maria Tereza Azevedo , o projeto busca alcançar – sem muitas pretensões - uma mistura de possibilidades da linguagem cinematográfica com prosa poética, mas sem a habilidade de fazer isso acontecer na tela. Utilizando a técnica de animação para mostrar o drama e as indignações de uma jovem que ama os animais e se depara com a morte de alguns deles – envenenados por uma pessoa inicialmente misteriosa -   A Menina que Amava Gatos, filme oriundo de Aparecida – uma das mais jovens cidades brasileiras (31 anos), localizada no sertão da Paraíba, apresenta uma estrutura dramática que não chega na tensão desejada, buscando refúgio em um fluxo sensorial maçante. Pouco...

Crítica do filme: 'O Colecionador de Cheiros de Nucas Femininas' [Comunicurtas 2025]

Percorrendo um tema peculiar que envolve obsessão e psicologia, abrimos os trabalhos no Comunicurtas 2025 assistindo a um filme bem interessante, que utiliza a criatividade a seu favor para evidenciar sua singularidade. Ao descortinar a linguagem cinematográfica em uma narrativa dinâmica, explorando os pontos de vistas que se entrelaçam em torno de um ‘serial nucas’, esse projeto paraibano, dirigido por Natalia Damião e Ana Clara Vidal de Negreiros é um convite ao despertar de inquietações que rapidamente se tornam reflexões. Um viciado em nucas femininas – isso mesmo que você leu – vem colecionando odores (quase 800) ao longo de anos, isolando-se em uma bolha de dedicação total à sua coleção - pra lá de estranha. A partir de alguns pontos de vistas que se encontram em uma espécie de investigação sobre a questão - da fantasia à psicologia, passando pela sociologia, sexologia e a visão popular - chegamos a um recorte inusitado sobre o ser humano e o distanciamento social. Com um p...

Crítica do filme: 'Dona Onete - Meu Coração Neste Pedacinho Aqui' [Mostra de Cinema de Gostoso 2025]

Movido por uma figura central de personalidade marcante - que se impõe sem esforço, dona de um carisma raro e um salve à Amazônia - chegamos com grande expectativa para a última sessão da 12ª Mostra de Cinema de Gostoso. Lá, acompanhamos a trajetória e a carreira de uma artista paraense que conquista todos que a conhecem. Dirigido por Mini Kerti , Dona Onete - Meu Coração Neste Pedacinho Aqui revisita fatos importantes da vida de uma estrela musical brasileira – e, se você nunca ouviu falar, deveria. Desde os tempos de professora, passando pelos momentos como sindicalista e chegando em um casamento cheio de amarras - para depois se libertar e conquistar o mundo fazendo o que ama - Ionete da Silveira Gama , ou, como todos a conhecem, Dona Onete, nascida no interior do Estado mais populoso da região norte de nosso país, é uma joia rara da nossa cultura. Com tanta riqueza de detalhes sobre a artista de 86 anos – que só alcançou o reconhecimento após os 60 – a narrativa opta pela própr...

Crítica do filme: 'Kaira e o Temporal' [Mostra de Cinema de Gostoso 2025]

Rotinas controladas, forças rebeldes, última esperança. Se pensarmos rapidamente, parece até que estamos falando de Star Wars, né? Mas garanto que não: trata-se de um curta-metragem brasileiro repleto de simbolismos e criatividade. Exibido no penúltimo dia da 12ª Mostra de Cinema de Gostoso, Kaira e o Temporal, obra cearense dirigida por Wagner Nogueira Mendes, nos surpreende a todo momento - inclusive com a inserção de uma animação dentro de sua distopia, que funciona como a cereja do bolo ao criar paralelos com temas atuais e relevantes.   Na inventiva trama, acompanhamos uma jovem menina com o poder de usar o tempo a seu favor para resgatar memórias, em um futuro onde uma metrópole opressiva controla as ações e os movimentos da população que restou. Buscando entender esse mundo cheio de portas fechadas, ela encontra no passado uma forma de enxergar o futuro.   E, olha, esse ótimo roteiro não poderia encontrar uma melhor maneira de contar essa história. Nessa narrat...

Crítica do filme: 'Quem se Move' [Mostra de Cinema de Gostoso 2025]

O silêncio e as percepções do vazio quando a luz no fim do túnel parece distante. No penúltimo dia da 12ª Mostra de Cinema de Gostoso, fui até a Sala Petrobrás - um lugar maravilhoso para assistir a um filme - e lá me deparei com um interessante curta-metragem paulista que me fez refletir sobre seus temas durante todo o dia. Abordando algumas horas na noite cheia de possibilidades de uma jovem imigrante brasileira em Lisboa - completamente perdida sobre o futuro e buscando atalhos para suas soluções nos encontros e desencontros que a vida coloca em sua frente - Quem se Move busca encontrar significados no campo das percepções, sem deixar de destacar o conflito existencial, se aventurando nas possibilidades infinitas da linguagem e prendendo nossa atenção. Criando significados por meio de uma montagem dinâmica, a diretora Stephanie Ricci busca o confronto emocional e o despertar de um estado de alerta, em uma bela condução narrativa que preenche a tela com possibilidades. Muitas vez...

Crítica do filme: 'Buenosaires' [Mostra de Cinema de Gostoso 2025]

Buenos Aires fica no Brasil, e eu posso provar. No segundo dia de exibições da 12a Mostra de Cinema de Gostoso, um curioso documentário chamou a atenção. Trazendo as peculiaridades de uma cidade do interior de Pernambuco, homônimo da capital Argentina, Buenosaires , dirigido por Tuca Siqueira , nos conduz a um tour por esse lugar através de personagens reais. Das festas populares à maior paixão dos brasileiros – e também dos nossos hermanos - vamos acompanhando a rotina de alguns moradores e sua relação com a cultura local e com as homenagens à outra Buenos Aires, algo que parece mexer com as emoções, movido, em alguns casos, por um ponto de vista diferente sobre a rivalidade Brasil x Argentina. Tem ex-jogador de futebol que virou presidente de um clube chamado Boca Júnior (em homenagem ao famoso time do país vizinho), tem coveiro que deseja ser enterrado no lugar onde trabalha, tem comerciante de camisas não oficiais que agita as vendas, e até aula de espanhol gratuita. Um mix de ...

Crítica do filme: 'Presépio' [Mostra de Cinema de Gostoso 2025]

Quando chegamos ao final de um curta-metragem e ele deixa aquele gostinho de quero mais, é porque um bom trabalho foi feito. Exatamente isso que acontece em um projeto carioca que chamou a atenção nos primeiros dias da 12a Mostra de Cinema de Gostoso. Um projeto simples em sua forma que encontra camadas, uma espécie de parábola repleta de simbolismos – do moral ao existencial - que se encaixa como uma luva em muitas histórias familiares por aí. Imagina a situação: uma família se reúne para o amigo oculto natalino, e os conflitos logo afloram quando um pai presenteia o filho com uma arma de brinquedo. Dentro desse cenário, se desenvolve uma história que expõe embates e questões guardadas - mas nunca esquecidas - até a necessidade de reencontrar o amor em meio à decepção. Indo direto ao ponto, com uma contextualização importante construída pelas entrelinhas e buscando, através das dinâmicas familiares, um olhar bastante profundo sobre nossa sociedade, Presépio utiliza a relação cont...

Crítica do filme: 'Uma Baleia Pode ser Dilacerada como uma Escola de Samba' [Mostra de Cinema de Gostoso 2025]

Um dos filmes mais desafiadores do cinema brasileiro lançados ainda em festivais no ano de 2025, o longa-metragem Uma Baleia Pode ser Dilacerada como uma Escola de Samba é, basicamente, uma alusão ao carnaval inserida dentro de um contexto das angustias de um protagonista que vê seu sonho não se realizar. A partir do contraponto peculiar de associar uma grande festa se abraçando a momentos tristes, acompanhamos uma história que convoca a paciência – embora até ela pode acabar. Dividido em curtos capítulos que fazem referências diretas à maior festa popular de nosso país, por meio de uma autoapresentação de personagens, nos leva até uma história que apresenta um presidente de uma escola de samba que percebe chegar ao fim os dias de folia. Entre as memórias de um começo promissor até um presente de agonias, com a falência batendo à porta, somos guiados por personagens que circulam em torno da amargura do adeus. Na tentativa de ser um experimento poético, o projeto dirigido por Marin...

Crítica do filme: 'Pupá' [Mostra de Cinema de Gostoso 2025]

Do curioso ao familiar. Abrindo a noite de competições do segundo dia da 12ª Mostra de Cinema de Gostoso, um curta-metragem do Rio Grande do Norte busca, através do olhar familiar, um recorte íntimo sobre uma mulher que não passa desapercebida por onde anda. Seu apelido é Pupá, famosa anotadora do Jogo do Bicho na região onde mora (Acari), que criou os filhos na raça – quase sempre sem apoio - e se tornou uma figura bastante conhecida e querida. Com uma série de registros caseiros que buscam compor uma atmosfera cheia de respingos de emoções - algo que dialoga com nossa percepção a todo instante -, vamos nos encaminhando para o valor do depoimento pela ótica da família. Assim, chegamos numa composição narrativa que usa o íntimo e a proximidade para abrir os horizontes de reflexões – um convite para que o público busque semelhanças, ou mesmo lembranças, em sua própria história. Indo mais a fundo nesse ponto fundamental da obra, o diálogo franco e aberto que é proposto a partir do co...

Crítica do filme: 'Operação Beijo de Natal'

Oh oh oh! Pertinho de dezembro, mais um filme natalino alcança ao top 10 da Netflix. Desta vez, é a produção Operação Beijo de Natal, dirigido por Bradley Walsh , que, com seus pouquíssimos personagens regados a sorrisos e situações pouco conflitantes, preenche uma trama que se joga em uma narrativa acelerada cheia de fofurismos, mostrando passado e presente se reencontrando. Nessa tentativa de ‘conto de fadas moderno’, muito guiada pela ingenuidade de um encantamento de um grande amor num lugar onde todo mundo se conhece, os dilemas ressoam apenas na superfície. Tudo é prático, possível, preparando o terreno para um clímax desencontrado, meloso, com protagonistas correndo de qualquer carisma. Na cidade gelada de Ivy Glen, Grace ( Jen Lilley ) está radiante com a chegada do Natal, já que sua empresa de decoração e design – onde trabalha com o irmão e a melhor amiga - foi escolhida para ser a responsável por uma atração badalada da cidade. Com os preparativos acontecendo, Grace é su...

Pausa para uma série: 'O Monstro em Mim'

Colocando em evidência a psicopatia e os dramas pessoais ligados por tragédias, chegou à Netflix uma minissérie cheia de caminhos para sua compreensão que nos leva até um jogo psicológico sombrio e inquietante. Escrita pelo nova-iorquino Gabe Rotter e tendo como showrunner Howard Gordon – da equipe do excelente Homeland -, O Monstro em Mim , ao longo dos seus intensos oito episódios, conta com atuações marcantes de Claire Danes e Matthew Rhys. Aggie ( Claire Danes ) é uma escritora de sucesso que, após a morte do único filho, vê sua vida desmoronar. Sentindo-se culpada e não se desprendendo de procurar culpados para a tragédia, destrói seu casamento e passa a viver reclusa. Um dia, muda-se para sua vizinhança o polêmico e ambíguo empresário Nile ( Matthew Rhys ), acusado anos atrás de assassinar a própria esposa. Ao se aproximar dele, começa a desconfiar de algumas ações e resolve escrever um livro sobre ele, ao mesmo tempo que busca informações sobre se ele matou ou não a ex-esp...

Crítica do filme: 'Um Dia Fora do Controle'

Tem filmes tão ruins que, às vezes, é difícil até saber como começar um texto sobre eles. Com um roteiro sem pé nem cabeça, buscando desenvolver - de forma atabalhoada e sem coerência - conflitos entre gerações de pais e filhos, esse novo longa-metragem que chegou ao Prime Video é um festival de cenas surreais que flertam com o machismo e reforçam estereótipos em ações e atitudes. Um show de horrores ao longo de 93 minutos de projeção. Brian ( Kevin James ) é um homem de meia idade que tenta construir um bom relacionamento com seu enteado, Lucas ( Benjamin Pajak ). Quando é demitido do emprego, passa mais tempo com o jovem, e um dia encontram por acaso com Jeff ( Alan Ritchson ) e seu suposto filho, CJ ( Banks Pierce ). Mal eles sabiam que esse encontro proporcionaria 24 horas de total loucura, quando passam a ser perseguidos junto aos novos conhecidos. Avançando numa fórmula que mistura comédia que busca o riso rápido com pitadas nada generosas de uma ação descontrolada - quebrand...

Crítica do filme: 'Um Natal Ex-pecial'

Foi aberta a temporada de filmes natalinos! Dezembro chegando e mais um ano ficando para trás, os streamings recebem a chegada de novos títulos que vão nos fazer refletir sobre esperança e reconciliações - tendo a força sentimental do período de união que acompanha o Natal. Alguns projetos, tendo esse elemento central, acabam se parecendo bastante, geralmente transitando entre a comédia, romance e o drama. E um deles, que acabou de chegar à líder dos streamings, não foge muito disso. A Netflix largou na frente e já colocou em seu catálogo o longa-metragem Um Natal Ex-pecial , protagonizado por Alicia Silverstone . A produção busca refletir sobre o sentido de família de forma cômica, sem se distanciar de exageros e clichês, mas toca num ponto que é bem desenvolvido durante toda a narrativa: a sustentabilidade. A partir de uma carismática protagonista, vamos percorrendo os dilemas, dores de amor, sentimentos e leves conflitos em algumas situações que não se distanciam muito da realidad...

Crítica do filme: 'Belén: Uma História de Injustiça'

Abrindo espaço para discutir questões importantes, como a criminalização de uma tragédia – reascendida na Argentina por conta de um caso ocorrido anos atrás que marcou as manchetes - o indicado do nosso país vizinho ao próximo Oscar, Belén: Uma História de Injustiça , nos mostra o encontro doloroso entre a injustiça e a falta de compaixão humana. Dirigido e protagonizado por Dolores Fonzi , baseado no livro Somos Belén, de Ana Correa , esse é um daqueles filmes importantes, com muitas reflexões sociais que alcançam questões sensíveis e vulnerabilidades profundas. Como os assuntos abordados são impactantes, abre-se camadas complementares, como a estigmatização social e o controle jurídico – e também moral – sobre as decisões de pessoas que procuram as unidades de saúde com questões relacionadas à gravidez. Inspirado em uma história real, conhecemos a história de uma jovem que, após dar entrada na emergência de um hospital na cidade de Tucumán e sofrer um aborto espontâneo, é injus...

Pausa para uma série: 'Tremembé'

Não era algo fácil trazer para a ficção uma série de histórias marcantes em nossa sociedade, que tem como elo um presídio que ficou bastante conhecido do público. Das polêmicas aos curiosos fatos expostos, que buscam construir através de escolhas narrativas um complicado quebra-cabeça moral passando pela maldade de crimes bárbaros que chocaram a todos nós, chegou ao Prime Video, nesse final de ano, uma das séries mais aguardadas de 2025: Tremembé . Com um total de cinco episódios – todos lançados no mesmo dia - que se iniciam mostrando alguns dos mais famosos crimes dos últimos tempos, oferecendo uma parte introdutória para contextualizar o foco de determinado capítulo, acompanhamos transtornos de personalidades e de comportamento, violência e manipulação, além de outras perspectivas sobre fatos de forte impacto emocional, que logo ganharam o sensacionalismo através de parte da mídia.      Suzane von Richthofen, Daniel Cravinhos, Christian Cravinhos, Anna Jatobá...

Crítica do filme: 'Caso Eloá: Refém ao Vivo'

Outubro de 2008, em Santo André, São Paulo, a jovem Eloá Pimentel recebia alguns amigos em casa para realizar um trabalho do colégio. Minutos depois, seu ex-namorado, Lindemberg Alves, invade o lugar e faz todos os presentes reféns. Ao longo de 100 horas de terror e incertezas – marcadas por um absurdo circo midiático presente e forças policiais cometendo erros inadmissíveis, como a inaceitável autorização para que uma refém retornasse ao cativeiro -, uma tragédia imperdoável aconteceu. Em cerca de 90 minutos, Caso Eloá: Refém ao Vivo busca, em uma ágil cronologia dos fatos nos dias de cárcere privado, uma reconstituição detalhada de tudo o que aconteceu nas 100 horas de horror – de fora para dentro -, tendo como foco o entorno da situação, especialmente o papel da mídia e nas ações policiais. Com imagens reais do ocorrido, depoimentos de integrantes da força policial – incluindo o primeiro negociador a falar com o criminoso -, alguns dos reféns sobreviventes, a família da vítima e r...

Pausa para uma série: 'O Naufrágio do Heweliusz'

Era o início do ano de 1993, na Polônia. O enorme cargueiro MS Jan Heweliusz, construído no final da década de 1970, se preparava para mais uma jornada atravessando o Mar Báltico. A bordo, mais de 60 pessoas – entre passageiros e tripulantes. Durante uma manobra arriscada – mas necessária diante das condições que se estabeleceram –, a embarcação começou rapidamente a afundar, se tornando um dos maiores desastre marítimos europeus. O Naufrágio do Heweliusz , nova minissérie da Netflix, dirigido por Jan Holoubek e roteiro assinado por Kasper Bajon , chega para jogar luz sobre essa tragédia, mostrando de forma detalhada o antes, o durante e o depois, reunindo fatos que se juntam para uma explicação complexa sobre o que realmente aconteceu em uma madrugada que ficaria marcada na história. Desde os problemas estruturais de um navio que precisava de manutenção constante e o atraso na partida, até uma corrente de situações que se somaram para se chegar à catástrofe, essa ficção retrata d...

Crítica do filme: 'Manga'

Sem pretensões de ser algo além de uma simpática comédia romântica que vai de encontro a uma ingenuidade da previsibilidade, chegou à Netflix, nesse início de novembro, uma produção dinamarquesa que busca no superficial reflexões sobre o lado existencial de dois personagens em conflito. Manga , dirigido por Mehdi Avaz , segue uma receita de bolo – como tantas outras produções – virando um passatempo sem ambições maiores, mesmo com personagens carismáticos. Lærke ( Josephine Park ) é uma mulher que busca os próximos passos no ramo hoteleiro. Mãe da jovem Agnes ( Josephine Højbjerg ), ela nunca consegue arrumar tempo para a filha. Focada em uma nova missão determinada pela chefe, Joan ( Paprika Steen ), ela parte para Málaga com o objetivo de convencer o viúvo Alex ( Dar Salim ) a vender suas valiosas terras, que abrigam uma enorme plantação de mangas. Tudo que ela não esperava era se apaixonar por ele. A narrativa busca nas surpresas do destino seu fôlego, construindo contrastes que...

Crítica do filme: 'A Mulher da Fila'

Apresentando um recorte sobre a relação de fora para dentro - focado nos familiares de condenados por delitos que cumprem pena em regime fechado em uma prisão da Argentina - o longa-metragem argentino A Mulher da Fila costura sua ficção a partir de uma base inspirada em fatos reais, ocorridos há duas décadas, sobre uma mulher que viu seu mundo desabar com a prisão do filho mais velho e precisou se adaptar à situação.    Em uma narrativa densa, que explora questões sociais e também morais em um núcleo familiar marcado por perdas, o projeto confronta a dor e o choque emocional para uma desconstrução, sendo pouco efetivo na amplitude que propunha a perspectiva do discurso. Não há camadas para o reeducar e o reinserir; prefere-se o olhar para a decepção, além de um contexto amoroso que, no desfecho, percebemos ser o principal objetivo da trama.     Andrea ( Natalia Oreiro ) é uma mulher batalhadora e viúva, uma mãe carinhosa que vive em um bairro de classe média com ...

Crítica do filme: 'Balada de um Jogador'

Chegou à Netflix uma obra desafiadora, que não é uma narrativa de compreensão trivial, buscando associar a conturbada instabilidade emocional de um protagonista em processo de autodestruição a elementos que desafiam a lógica de tempo e espaço. Dirigido pelo excelente cineasta suíço Edward Berger – indicado ao Oscar e que já apresentou ao público os ótimos Conclave e Nada de Novo no Front -, Balada de um Jogador é um projeto ‘fora da caixa’, ousado e, ao mesmo tempo, criativo que desafia o público ao longo dos 100 minutos de projeção. Se você curte filmes de fácil assimilação, essa é uma obra que você pode não gostar – mas vale o desafio. Dentro de um enredo algumas vezes desconexo caminhando ao imprevisível, com cores vibrantes acenando à sensação de delírio, segue a desorientação de um personagem central apresentando seu estado de espírito e reagindo ao que acontece ao seu redor. O projeto, que teve exibições no Festival do Rio antes de chegar à líder dos streamings, conta com um...

Pausa para uma série: 'A Agente'

Muito bem amarrada em episódios bem distribuídos, dentro de uma narrativa repleta de inquietações e provocações, chegou sem muito alarde à Netflix uma série que caminha a passos largos pela mente da polícia e criminosos em um confronto pelas perdas emocionais. A produção dinamarquesa A Agente é muito mais que uma obra que rompe camadas para apresentar um iminente confronto - dilacera os dilemas sobre o certo e o errado de forma contundente, deixando reflexões por todos os lados. Tea ( Clara Dessau ) é uma jovem solitária que, após um passado cheio de questões, resolve ingressar na academia de polícia. Pouco tempo depois, é chamada para um operação secreta em que precisa se infiltrar na rotina do líder criminoso Miran ( Afshin Firouzi ) através da esposa dele, Ashley ( Maria Cordsen ). Correndo contra o tempo em busca de informações, aos poucos vai encontrando dilemas pelo caminho. O enredo, com seu clima emocional sem excessos, busca o sentimento predominante de tensão através de ...

Crítica do filme: 'O Amigo'

Percorrendo os caminhos lacrimosos da melancolia, chegou sem muito oba oba no Prime Video um filme que toca profundamente nossos corações. Através do luto e das surpresas que a vida apresenta, O Amigo consegue ampliar horizontes das razões existenciais em uma narrativa que combina a solidão dos momentos difíceis com a abertura de uma nova porta de oportunidade: a de viver sem esquecer. Dirigido por Scott McGehee e David Siegel, o projeto também abre espaço para um olhar familiar nas relações interpessoais e sobre a maneira como enxergamos a compaixão dentro de um existencialismo construído de forma única por cada ser humano. Mas o ponto principal é a relação entre uma protagonista em crise e um cachorro apaixonante que só tem tamanho - o elo que move as correntes para as emoções.   Baseado em um livro homônimo da escritora nova-iorquina Sigrid Nunez , nessa obra acompanhamos a história de Iris ( Naomi Watts ), uma escritora que acaba de perder seu amigo e mentor, o professor W...