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Mostrando postagens de outubro, 2025

Pausa para uma série: 'Chad Powers'

Nascido de uma pegadinha feita anos atrás pelo ex-jogador da NFL Eli Manning – vencedor de dois super bowls – para uma série documental da ESPN, o personagem fictício Chad Powers ganhou uma inesperada série – e muito interessante, por sinal. No papel principal, o ator Glen Powell – em ótima atuação - dá vida a um homem frustrado em busca do recomeçar. Com seis episódios em sua primeira temporada, a série convence ao transformar uma fórmula batida - que tinha tudo pra dar errado - em um verdadeiro touchdown! Russ Holliday ( Glen Powell ) era uma polêmica estrela do futebol americano universitário quando, em um jogo decisivo, comete uma gafe - pior que um gol contra - ficando marcado nos anos seguintes pela jogada bizarra. Sem conseguir alcançar seus objetivos e completamente perdido na vida, ele resolve apostar todas suas fichas ao se disfarçar de Chad Powers: um jovem tímido e um jogador brilhante, conseguindo uma vaga em um time que só acumulava derrota antes de sua chegada. Para m...

Crítica do filme: 'A Memória do Cheiro das Coisas'

Impressionante como algumas obras conseguem, a partir de um olhar existencial, criar camadas profundas sobre o cedo ou tarde para dizer adeus. Exibido na Mostra de Cinema de São Paulo – sua estreia no Brasil -, o longa-metragem A Memória do Cheiro das Coisas , uma co-produção Brasil e Portugal, retrata de forma profunda sentimentos conflitantes de um homem de idade avançada que precisa enfrentar as dores que sente na alma quando começa a compreender os erros do passado. Dirigido pelo cineasta português António Ferreira , a obra consegue, em cerca de 90 minutos de projeção, traduzir o que é difícil revelar em um filme: o sentir. Os desabafos e pesadelos que acompanhamos logo viram elementos construídos em cima de marcas invisíveis – sentidas somente por quem viveu. A partir desse ponto, o filme se expande para um retrato que alcança também a sociedade e suas questões. Não é somente sobre um homem e suas feridas, mas também sobre um mundo e o seu caminhar – que, muitas vezes, pode ser ...

Crítica do filme: 'Ataque 13'

Apresentando um terror que abre espaço para reflexões sobre os tratos sociais, chegou na Netflix um longa-metragem tailandês que coloca o bullying no centro de uma trama onde pesadelos, assombrações e rituais ligados ao sobrenatural ganham forma através de jovens personagens em conflito, explorando também o anti-heroísmo. Nem tudo funciona com consistência – há pontas soltas no roteiro -, mas um plot twist totalmente inesperado na sua parte final entrega novos sentidos às ações e consequências. Dirigido por Taweewat Wantha , com roteiro assinado por Thammanan Chulaboriruk , Ataque 13 busca romper camadas que, em um primeiro momento, parecem adormecidas na superfície, mas que logo se apresentam como boas críticas sociais - mesmo com o foco em ir de encontro com a tensão a todo instante, através do macabro, das invocações de espíritos e possessões. Jin ( Korranid Laosubinprasoet ) chega a um novo colégio, onde Bussaba ( Nichapalak Thongkham ) toca o terror, fazendo bullying com outra...

Crítica do filme: 'Delírio'

Selecionado para a Mostra de SP, Delírio é um filme pra lá de insólito – no sentido de estranhamento - que congela algumas tentativas de criar tensão, sem elementos convincentes de construção de uma narrativa que parece não sair do lugar. Jogando todas suas fichas nos detalhes e no silêncio – que não soa ensurdecedor-, e com poucos personagens, o longa-metragem vai sugerindo conflitos de forma lenta, deixando o público abraçado – ou não – pela paciência. A partir do olhar sobre três gerações de mulheres da mesma família - com relações deterioradas ao longo do tempo e marcas do passado acompanhando suas trajetórias -, somos testemunhas de uma curiosa adição do sobrenatural em meio a conflitos mundanos. As sensações e os medos buscam ganhar forma e movimento, numa imersão com muitas pontas soltas. Ao sugerir mais do que explicar, o trabalho escrito e dirigido por Alexandra Latishev Salazar vira uma missão para pessoas com grande paciência. A médica Elisa ( Liliana Biamonte ) precisa...

Pausa para uma série: 'Maguila - Prefiro Ficar Louco a Morrer de Fome'

Um ano após a morte de um dos maiores e mais carismáticos atletas brasileiros da nossa história, chega ao Globoplay uma série documental que busca apresentar a uma nova geração - e boas lembranças pra quem o conheceu – o pugilista Maguila . Dividido em quatro episódios, onde se distribui contextos que vão da vida pessoal a carreira vitoriosa, esse projeto apresenta, em sua essência, o ser humano José Adilson Rodrigues dos Santos : um homem batalhador, sem papas na língua e com um carisma único. Nascido em Aracajú, chegou até São Paulo no início da década de 1970, onde trabalhou em construções. Quando viu a primeira oportunidade para treinar boxe, procurou uma academia e lá começou seus primeiros - de muitos - passos na nova profissão. De origem humilde e fã de Muhammad Ali , ao longo da carreira mostrou mais força do que técnica, além de uma identificação impressionante com os brasileiros, logo virando uma verdadeira celebridade. Os altos e baixos da carreira não deixam de ser apre...

Pausa para uma série: 'Ninguém nos Viu Partir'

Inspirado em uma história real relatada no livro Nadie nos vio partir, de Tamara Trottner – uma das personagens da obra –, a nova série da Netflix, Ninguém nos Viu Partir , que alcançou o Top 1 da plataforma, é um projeto mexicano que relata um sequestro parental e, a partir de camadas, chega nos conflitos emocionais que atingem uma mulher em uma época marcada pelo preconceito, pelas tradições e pela desigualdade de gênero. Ambientado na década de 1960, em Ninguém nos Viu Partir, conhecemos Valeria ( Tessa Ia ), uma jovem que largou o mestrado e foi obrigada a se casar com o arquiteto Leo ( Emiliano Zurita ), em um acordo entre as famílias judias que residem no México. O casal tem dois filhos. O tempo passa e Valeria se apaixona pelo cunhado do marido, Carlos ( Gustavo Bassani ). Após descobrir a traição, Leo, com a ajuda do pai, Samuel ( Juan Manuel Bernal ), sequestra as crianças e foge para a Europa. Durante muitos meses, Valeria se vê em uma busca cheia de reviravoltas, movid...

Crítica do filme: 'Um Fantasma na Batalha'

Inspirado em fatos reais ocorridos na Europa, mais precisamente entre a Espanha e a França, a partir das ações terroristas de um grupo separatista que logo chegou à luta armada cometendo atentados em diversos lugares, o longa-metragem Um Fantasma na Batalha , recém-adicionado à Netflix, é um thriller político com pitadas generosas de espionagem, que joga nossos olhares para o lado sombrio do ser humano, onde a inconsequência é rompida. Escrito e dirigido por Agustín Díaz Yanes – vencedor do Goya de direção e roteiro em 1996, pelo filme Ninguém Falará de Nós Quando Estivermos Mortos – a obra retrata o caótico momento político de um período onde o medo podia estar em qualquer esquina, em uma Europa turbulenta. Para entendermos melhor o contexto, algo apresentando apenas brevemente pelo filme com inserções via legendas no início, é preciso algum conhecimento sobre o ETA. Nascido nos tempos de ditadura e o regime autoritário e centralizador de Francisco Franco, o ETA (sigla traduzida ...

Crítica do filme: 'Presente Maldito'

Com pouco se faz muito. Acontece uma situação peculiar com esse novo filme protagonizado por Dakota Fanning – muito bem no papel, por sinal. Limitado a uma premissa que não se expande tanto e fortemente ligado a uma possível maldição, esse longa se passa, em grande parte dentro de uma casa propícia para filmes que assustam, dentro do sentido de refúgio e uma prisão. Presente Maldito consegue, por meio da imersão na tensão constante desenvolver uma trama imprevisível, que sempre progride, não caindo em redundância – mesmo diante das limitações da história. Polly ( Dakota Fanning ) é uma jovem buscando se encontrar na vida e vive sozinha na casa que aluga da irmã. Em uma noite, abre a porta da casa para uma senhora que lhe entrega uma caixa misteriosa. A partir desse momento, suas próximas horas serão de total medo e tensão, precisando executar algumas tarefas ingratas. Nesse suspense psicológico que logo invade o terror, escrito e dirigido pelo cineasta norte-americano Bryan Berti...

Crítica do filme: 'Eden'

O que fazer para ser forte e sobreviver numa utopia? Trazendo ao epicentro dos conflitos personificações filosóficas e correntes que se cruzam em busca do novo, o novo trabalho do vencedor do Oscar Ron Howard volta até o início dos anos 1930, apresentando uma história - inspirada em relatos reais de quem sobreviveu – na qual as virtudes e os deslizes andam lado a lado, se entrelaçando as razões da existência. Entre as estações do ano, a narrativa, bem construída e com poucas pontas soltas, apresenta uma legenda inicial suficiente para entendermos todo o contexto que se destrincha no recorte existencial. Vai da selvageria, nada distante da moral, à esperança - um choque entre o ideal e a realidade que se apresenta nua e crua, com respingos da crueldade humana. Com a primeira guerra mundial destruindo economias em toda Europa, o casal Heinz ( Daniel Brühl ) e Marget ( Sydney Sweeney ) resolve abandonar tudo e se mudar para uma ilha distante no arquipélago de Galápagos, um lugar quas...

Crítica do filme: 'O Elixir'

Os filmes de Zumbis – inclusive os com seres mortos que voltam à vida corredores, como é o caso – existem aos montes por aí. A questão está sempre em como vai ser desenvolvido o contexto, que pode (ou não) ajudar a contar uma história fugindo da mesmice. O novo filme da Netflix, O Elixir , que logo alcançou o Top 10 da plataforma aqui no Brasil, parte de uma dinâmica familiar com atritos, no estilo ‘novelão’ - tudo se desenrolando em torno de um conflito central – para então chegar à sua ação sangrenta, com os iminentes sacrifícios e dilemas, dentro de uma fórmula que segue à risca a cartilha dos filmes de sobrevivência. Com uma boa direção de Kimo Stamboel – que vem de uma longa leva de filmes de terror no currículo –, esta produção indonésia não apresenta nada revolucionário em sua construção narrativa. Mesmo com certa criatividade, parte logo para uma ação desenfreada, que se passa em alguns ambientes, trazendo perspectivas variadas. Como já mencionado, a modalidade zumbi aplicad...

Crítica do filme: '27 Noites'

Chegou esta semana à Netflix um filme argentino que apresenta, de forma bem-humorada, um drama sobre internação não voluntária – questão que teve mudança na legislação argentina anos atrás. Dirigido e protagonizado pelo uruguaio Daniel Hendler , o projeto, baseado na obra Veintisiete Noches , escrita por Natalia Zito , busca, sem se prolongar, ampliar os debates sobre o bem-estar psicológico. Buscando, em uma fórmula que combina ponderação e sutileza, alguns caminhos para boas reflexões, um dos méritos desse filme é suavizar o ‘pé da letra’ sem se reduzir a uma obra simplória. Entre, emoções, comportamentos e uma passada rápida nas burocracias jurídicas, o tema da saúde mental vira um elemento crucial - e nada maçante - que circula durante toda a trama.   Leandro ( Daniel Hendler ) é um perito designado por um tribunal para avaliar Martha ( Marilú Marini ), uma mulher octagenária, depois que suas filhas a internam, de forma involuntária, em uma clínica, com a justificativa que ...

Crítica do filme: 'Zoe, minha amiga Morta'

Totalmente focado em detalhar os caminhos de aflição de uma pessoa com Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), o projeto Zoe, minha amiga Morta , que chegou recentemente ao catálogo do Prime Video, nos mostra uma jovem ex-militar perturbada pelo fantasma de uma amiga falecida. A partir do trauma de uma situação, percorremos os choques emocionais promovendo bons debates sobre saúde mental. Dirigido por Kyle Hausmann-Stokes , em seu primeiro longa-metragem, o filme busca, por meio de seu roteiro, conectar todos os pontos de um diagnóstico que atinge milhares de pessoas ao redor do mundo. Do psicológico ao social, passando pelas fragilidades do estado de bem-estar até os sinais de alerta quando o descontrole se manifesta, o abismo profundo sobre o assunto é colocado para reflexões. Merit ( Sonequa Martin-Green ) trabalhou durante muitos anos como mecânica em unidades militares. Durante o tempo que serviu ao exército, desenvolveu uma amizade profunda com Zoe ( Natalie Morales ). ...

Crítica do filme: 'Stans'

Chegou de mansinho ao catálogo da Paramount Plus um documentário interessante que parte de uma relação entre um dos maiores rappers da história - ícone de uma geração dos anos 1990/2000 - e seu fandom, abrindo um leque de camadas originais e cheias de intensidade, que vão de encontro a momentos marcantes de sua carreira. Stans é muito mais que um olhar sobre o vínculo entre fã e artista: é uma imersão em sentimentos reais expressos em canções que atingiram em cheio corações pelo mundo – e que, logo, viraram arte. No ano 2000, Marshall Bruce Mathers III , mais conhecido como Eminem , já no topo das paradas de sucessos com suas letras provocantes - que retratavam alguns pontos de vistos bem pessoais sobre recortes de sua vida - lançou uma música chamada Stan, que se tornaria um de seus maiores sucessos, sobre um fã devoto, andando na linha tênue entre admiração e obsessão. A palavra (e seu significado), 17 anos depois, foi reconhecida pelo Oxford English Dictionary. Esse é o gancho pa...

Crítica do filme: 'A Vizinha Perfeita'

Com uma narrativa brilhante, que encontra enorme coesão na sua montagem, o novo documentário da Netflix, A Vizinha Perfeita, detalha uma tragédia real e chocante que atingiu em cheio a cidade de Ocala, no Condado de Marion (Flórida). Dirigido pela cineasta Geeta Gandbhir , o projeto – que prende a atenção desde seu início até o sufocante desfecho - levanta questões importantes sobre preconceito racial, leis de legítima defesa e o papel da polícia, chegando em um recorte profundo sobre a sociedade norte-americana. A partir de desentendimentos – que já duravam semanas – entre vizinhos e uma específica moradora da região, acontece um fato mortal. Tendo esse episódio como pontapé inicial, acompanhamos uma cronologia de acontecimentos bem detalhada, apresentada sob diversos pontos de vistas. Aos poucos, sem perder o ritmo e tensão, somos guiados até os horrores de um caso que chocou os Estados Unidos alguns anos atrás. O antes, o ocorrido e o depois. Exibido no Festival de Sundance dest...

Crítica do filme: 'O Ônibus Perdido'

Cinco anos após seu último trabalho, Relatos do Mundo , o experiente cineasta britânico Paul Greengrass volta ao universo cinematográfico para comandar mais um projeto que aborda tragédias da vida real – como foi o caso de Capitão Phillips, 22 de Julho e outros filmes de sua carreira. Produzido pela Apple, O Ônibus Perdido nos leva até anos atrás, no norte da Califórnia, onde ocorreu o incêndio mais mortal da história desse estado americano. Kevin ( Matthew McConaughey ) é um motorista de ônibus escolar, perto dos 40 anos, que voltou para a cidade onde nasceu e tenta se entender com o único filho. Um dia, após um incêndio florestal com alta taxa de propagação, ele fica com a missão de resgatar um grupo de crianças e a professora Mary ( America Ferrera ), no colégio onde estavam. Inspirado em acontecimentos reais e na obra Paradise: One Town's Struggle to Survive an American Wildfire , escrita pela jornalista Lizzie Johnson , o foco da narrativa é levar até o público os moment...

Crítica do filme: 'Limpa'

Há filmes que começamos a assistir e parecem não levar a lugar nenhum. Por isso, é sempre  importante ter paciência - pode ser que grandes surpresas nos aguardem. É exatamente isso que acontece com o longa-metragem chileno Limpa . Com camadas profundas que se abrem distantes do seu início, o projeto nos leva a uma imersão na dinâmica familiar repleta de reflexões, tendo como ponto central uma protagonista que se vê em um labirinto em busca de momentos felizes. Estela ( María Paz Grandjean ) é uma jovem que deixa o interior do Chile para trabalhar como empregada doméstica na casa de um casal rico, na cidade de Santiago. Ela passa grande parte do tempo ao lado da filha deles, uma garotinha escanteada pelos pais que encontra em Estela uma grande amiga. Quando algumas situações acontecem, Estela começa a perceber que sua presença no lugar está chegando ao fim, culminando numa série de ações rumo às tragédias.   Uma caixinha de surpresas quando uma avalanche de conflitos se suc...

Crítica do filme: 'Ruas da Glória' [Festival do Rio 2025]

A vida como ela é. Percorrendo um relacionamento destrutivo e contrapondo o fascínio de um novo lugar e suas tragédias que logo se mostram presentes, o longa-metragem Ruas da Glória , escrito e dirigido por Felipe Sholl , apresenta um certo lirismo - uma metáfora que percorre emoções e sensações ligadas ao desespero, alcançando as dores quando o caos da existência se mostra angustiante. Sempre envolta no tema, a narrativa cumpre seu propósito ao maximizar a ebulição dos sentimentos, com cenas carnais bem dirigidas - mais explícitas que sugeridas – atingindo a essência humana e seus impulsos em meio a uma tensão sexual sufocante. O desejo se alia ao desespero, elementos emocionais fundamentais para os pilares dos complexos personagens, muito bem interpretados por Caio Macedo e Alejandro Claveaux . Gabriel ( Caio Macedo ) é um jovem professor de literatura que acaba de chegar ao Rio de Janeiro, após um falecimento e um conflito com parte da família, experiências que mexeram com suas...

Pausa para uma série: 'Animal'

O amor pelos animais e a lições do dia a dia. Em apenas nove episódios – deliciosos - que você maratona rapidamente na Netflix, a série Animal chegou sem muito alarde para conquistar através da rabugentice carismática de um protagonista com o mundo virado de cabeça pra baixo, que encontra em um novo trabalho lições para sua jornada. Essa é uma obra que busca, na simplicidade de seu desenvolvimento, colocar à mesa reflexões sobre o trato social – um tema mais atual, impossível. Criada por Víctor García León , o projeto propõe um olhar gentil – ainda que, por vezes, ácido – sobre um conflito geracional que atinge um homem que acredita no amor pelos animais, mas demonstra rejeição em compreender o próximo. Um conflito existencial que adiciona combustível nas novas relações que aparecem. Esse recorte sociológico utiliza o humor e bons diálogos para preencher a tela com uma narrativa leve e com ótimas atuações. Antón ( Luis Zahera ) é um experiente veterinário de uma zona rural no noroe...

Crítica do filme: 'Brasa' [Festival do Rio 2025]

Com um tema central, importante e atual, colocado para debate e desenvolvido com sensibilidade ao longo de sua breve, porém bem distribuída duração, o curta-metragem Brasa nos leva até um recorte profundo sobre uma questão alarmante que choca pelas estatísticas em nosso país: a gravidez na adolescência. Com ótimas artistas em cena - Bárbara Colen e Mel Faria em destaque - que transmitem toda a aflição e tensão dos conflitos que se seguem, o projeto dirigido por Diane Maia , em sua primeira direção, com roteiro assinado pela mesma e Ana Alkimin , teve sua primeira exibição no Festival do Rio 2025, onde integrou a potente lista da Première Brasil. Analu ( Mel Faria ) é uma jovem estudante de 16 anos, apaixonada por um rapaz que trabalha como motoboy no Hortifruti de sua mãe ( Bárbara Colen ). Moradora de uma cidadezinha no interior do país, busca a realização dos seus sonhos mesmo com as limitações do cotidiano. Quando descobre que está grávida do rapaz, Analu comunica o rapaz na e...

Crítica do filme: 'As Dores do Mundo: Hyldon' [Festival do Rio 2025]

O cineasta e antropólogo Emílio Domingos vem enriquecendo nossas reflexões com projetos interessantes, bem amarrados e com recortes profundos ligados à nossa cultura. Foi assim em Black Rio! Black Power! , documentário sobre o movimento Black Rio, e em Os Afro-Sambas, o Brasil de Baden e Vinicius , obra que destrincha detalhes de um disco de Vinicius de Moraes e Baden Powell , lançado em meados da década de 1960. A cada novo registro, uma página da nossa música e sua relação com a sociedade se revela atemporal. Seu novo trabalho, que dirige ao lado de Felipe David Rodrigues, lançado no Festival do Rio 2025, chega para colocar no centro da tela um nome que você talvez não conheça, mas já escutou alguma canção dele. As Dores do Mundo: Hyldon conta a trajetória de Hyldon de Souza Silva, conhecido apenas pelo primeiro nome: guitarrista e produtor, fã de Marvin Gaye, que logo virou artista. Além de tudo, um observador atento de muito momentos da música popular brasileira. Desde a inf...

Crítica do filme: 'Pequenas Criaturas' [Festival do Rio 2025]

Costurando a sensibilidade humana de forma poética – mastigando a imaginação e a expressividade –, chegou, em um dos últimos dias de Festival do Rio, a sessão do longa-metragem brasileiro Pequenas Criaturas: um filme que você assiste e não esquece. Escrito e dirigido por Anne Pinheiro Guimarães, esse projeto encantador busca a comunicação com o público através de um roteiro envolvente, com personagens complexos e fascinantes, reunindo fragmentos de uma família dentro de recortes geracionais que se entrelaçam pelas amarguras do presente. Ambientada numa Brasília de quase quarenta anos atrás, conhecemos Helena (Carolina Dieckmann) e seus dois filhos – uma criança e um adolescente – que chegam à capital do Brasil e se mudam para um prédio numa região central. Frustrada pela partida do marido, que logo viaja a negócios, ela se vê perdida e aflita, enquanto marcas do passado e inesperadas aventuras do presente se chocam, nos levando a um recorte cheio de conflitos, não só pra ela, mas par...

Crítica do filme: 'Final 99' [Festival do Rio 2025]

O estado de ser num mundo de reinvenções do próprio pertencimento. Em uma trama bem bolada, que aborda a palavra 'identidade' em muitas facetas, o curta-metragem gaúcho Final 99 , escrito e dirigido por Frederico Ruas , nos leva até um drama existencial - com flerte no suspense – em que, a partir da perda de um objeto, um possível encontro desperta reflexões sobre questões contemporâneas e existenciais. O filme foi selecionado para a Première Brasil de Curtas do Festival do Rio 2025. Um segurança noturno ( Bruno Fernandes ) de um lugar cercado de tecnologia, mas também de um silêncio ensurdecedor, perde sua identidade - possivelmente vítima de algum furto. O documento é encontrado por uma imigrante estrangeira ( Mbyá Guarani Luicina Duarte ), que propõe um encontro. Rodado logo após o caótico estado de emergência que atingiu o Rio Grande do Sul recentemente, o projeto apresenta rapidamente sua trama conseguindo alcançar camadas dentro do discurso proposto - um mérito de uma...

Crítica do filme: 'O Último Episódio'

O que se aprende, o que dói, o que nos deixa vivo: o sonhar! Você também adorava assistir ao desenho Caverna do Dragão ? Então, acho que você vai gostar desse filme que vamos citar agora! Chega aos cinemas brasileiros nesse início de outubro uma produção que utiliza a nostalgia com muita delicadeza e simpatia para retratar realidades de um Brasil que, mesmo enfrentando dificuldades, nunca deixa de sonhar. Trazendo para o centro do discurso a cultura pop, os dramas familiares, e aquele olhar carinhoso sobre a juventude , O Último Episódio - primeiro longa-metragem solo do mineiro Maurilio Martins - é um projeto que liga a dor da perda às surpresas de quem curte se deixar envolver por boas histórias. Ambientado em Laguna, um bairro de Contagem, em Minas Gerais, no início da década de 1990, acompanhamos a história de um jovem que está à beira de momentos importantes de sua vida. Um dia, resolve espalhar uma notícia inusitada: afirma ter o último episódio do seriado Caverna do Dragão...

Crítica do filme: 'Viva um Pouco' [Festival do Rio 2025]

Uma suposição indigesta que leva a um caminho de descobertas. Durante o Festival do Rio 2025, em meio a tantos filmes badalados, fomos conferir uma obra que se revelou intrigante partindo de uma situação alarmante e abrindo-se em camadas de revelações. Tendo como vetor principal um psicológico abalado - uma protagonista mergulhada em conflitos -, esse filme sueco aposta num destrinchar de uma suposição fazendo uma ponte com um despertar para a vida.   Laura ( Embla Ingelman-Sundberg ) viaja com sua amiga Alex ( Aviva Wrede ) pela Europa, uma ideia que vem sendo planejada há anos. Em um dos países que desembarcam, Laura acorda certa manhã numa cama, com indícios de que passou a noite com alguém. Em conflito com a situação e sem saber ao certo o que aconteceu – tendo apenas leves lembranças -, a protagonista passa por uma jornada de descobertas, na qual o medo do que pode ter acontecido se torna cada vez mais sufocante. Esse é um filme que aborda o despertar, mas também a linha t...

Crítica do filme: 'Honestino' [Festival do Rio 2025]

Qualquer filme que aborde os horrores do período de ditadura no Brasil já é, por si só, chocante. Tendo isso em mente, iniciamos as reflexões sobre mais uma obra que volta ao tema e, de maneira inquietante, nos leva até a história de um pai e líder estudantil que desapareceu nas mãos dos militares. Honestino , novo trabalho do cineasta amazonense Aurélio Michiles , mistura documentário e ficção em uma obra visceral que escancara verdades de quem sempre esteve do lado certo da história. Com uma prévia contextualização de um dos momentos mais tristes da história brasileira – a ditadura militar – por meio de poemas, depoimentos, imagens de arquivos, chegamos até o início da década de 1970, quando o líder estudantil Honestino Guimarães desapareceu. Valente na sua luta em busca da restauração da democracia, o estudante de geologia goiano viveu anos complicados, sendo alvo frequente de perseguição militar e chegando a ser preso diversas vezes na década anterior ao seu desaparecimento. P...

Crítica do filme: 'Dolores' [Festival do Rio 2025]

Em mais um dia de Festival do Rio 2025, encontramos com um filme brasileiro bem peculiar e a mesmo tempo interessante, que revela suas camadas através do desenrolar dos conflitos de três gerações de mulheres de uma mesma família. Dolores, dirigido por Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar, investe numa narrativa contemplativa que mergulha nos pensamentos e os sonhos dos personagens, nos levando a sentir os dramas de personagens à beira de mais um importante passo na vida. Dolores ( Carla Ribas ) é uma mulher solteira, já sexagenária, com marcas no passado. Perto de completar mais um aniversário, tem um sonho revelador. Mantém uma relação conflituosa com a filha Deborah ( Naruna Costa ), que aguarda a libertação do grande amor de sua vida para, enfim, ser feliz. Em contrapartida, Dolores possui uma ótima relação com a neta Duda ( Ariane Aparecida ), que trabalha numa espécie de clube de tiro e recebe uma oferta de emprego fora do país. Essas três mulheres vão se jogar em uma jornada em ...

Crítica do filme: 'Cheiro de Diesel' [Festival do Rio 2025]

Selecionado para a mostra Première Brasil de Documentários do Festival do Rio 2025, o impactante projeto Cheiro de Diesel é um profundo e inquietante recorte sociológico da cidade conhecida como ‘maravilhosa’. Buscando em seus intensos 80 minutos de projeção ampliar o debate sobre as intervenções militares nas favelas cariocas - mais precisamente quando o exército brasileiro ocupou o complexo da Maré durante a Copa do Mundo de 2014 -, chegamos num retrato comovente e avassalador pela visão da própria comunidade, de seus trabalhadores e moradores da região. Muito bem montado, o longa-metragem costura com precisão seus pontos a partir de um discurso irrepreensível, onde caminhamos pela luta da jornalista, comunicadora comunitária e ativista social Gizele Martins em sua busca para dar voz ao que de fato aconteceu em uma região tomada por perigos de todos os lados – uma realidade que afetou em cheio o direito de ir e vir de 140.000 moradores. A contextualização é bem feita e se insere ...

Crítica do filme: 'Sonhos' [Festival do Rio 2025]

Trazendo à reflexão as muitas faces extremas do sentimento mais poderoso que existe – o amor - Sonhos , escrito e dirigido pelo cineasta mexicano Michel Franco é um filme sensível e atual, ao mesmo tempo carnal e desconfortante. Fruto de atuações impressionantes e um jogo de cena que nos conduz da euforia à destruição - chegando até o rompimento com o psicológico e o bom senso -, a obra se destaca por seu silêncio revelador, algo que chama a atenção nessa narrativa. Uma fórmula que convence - desde o início - onde se potencializa a tensão e um silêncio incisivo que entra como um elemento complementar. Uma mulher da alta sociedade norte-americana ( Jessica Chastain ), diretora de uma fundação de renome, se apaixona perdidamente por um bailarino mexicano ( Isaac Hernández ) que está ilegalmente nos Estados Unidos. Ao longo desse relacionamento que se mostra conflituoso, situações vão colocando os personagens em dilemas, até o último suspiro dessa relação. O roteiro se projeta atravé...